O Silêncio da Espera
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Terça-Feira, 8 de Fevereiro de 1977
Há dias cuja substância parece mais curta, horas que se esvaziam antes do tempo. Esta noite foi um sopro tão breve que o corpo, pesado de sono e de expectativa, se recusou a aceitar a luz cinzenta que vinha de fora.
A minha mãe entrou de rompante, o habitual clamor doméstico a quebrar o silêncio do quarto, sem transigências para com as minhas derivas. Afirmou, em alto e bom som, que não era domingo nem feriado nenhum. «Toca a levantar, seu preguiçoso», disse, enquanto o puxão ríspido dos lençóis me empurrava para a realidade fria do soalho. Olhei o relógio. O sobressalto do atraso bateu-me no peito.
Saí a correr, a meter os botões da camisa pelas casas erradas, por baixo da camisola de lã que me picava o pescoço. O ar da manhã cheirava a fumo e a humidade pisada. Na minha cabeça, a certeza amarga de que a Dila já teria partido, de que a teria perdido na voragem dos minutos. Mas ao dobrar a esquina, junto ao poste da paragem, vi-a. Estava só. A sua silhueta recortava-se contra o cinzento da rua, os olhos fixos na direcção de onde eu acabava surgir.
Aproximei-me esbaforido, o coração a latejar na garganta, gaguejando uma desculpa sem forças.
— Desculpa, Dila... atrasei-me muito.
— Já estava a ficar preocupada — respondeu, sem me olhar de frente, os dedos apertados na pega da pasta da escola. — Pensei que estavas doente outra vez.
— Desta vez foi bem pior... — arrisquei, pausando a frase a meio para lhe perscrutar o rosto, medindo o peso das minhas palavras.
— Sim? O que foi que aconteceu?
Faltou-me a coragem para o artifício.
— Bem... foi preguiça. Não me apetecia levantar. Se não fosse a minha mãe...
O olhar que ela me dirigiu foi um golpe seco. Sério. Desprovido daquela brandura que eu procurava.
— Preguiça? Deu-te preguiça? Esqueceste-te de mim?
A crueza daquelas perguntas deixou-me desarmado, uma ruína de pretextos que de nada serviram diante do seu orgulho ferido. Implorei pela sua atenção com os olhos, mas o silêncio instalou-se entre nós, denso e intransponível.
Entrámos no trólei. A viagem, que eu idealizara como um interlúdio de confidências, ameaçava ser o avesso de tudo o que o meu coração pedia.
O frio crescia entre os dois. A expressão da Dila parecia afastá-la para um lugar onde eu não tinha entrada. Olhava a janela, o perfil reflectido no vidro húmido, o rosto recortado contra as fachadas cinzentas das casas que passavam. Havia uma tristeza antiga naquela imobilidade, que ela agora transportava como uma armadura. Aquela distância doía-me fisicamente. Eu tinha de quebrar o gelo, ou sufocaria ali mesmo.
Esqueci os receios que costumam amarrar os rapazes da minha idade. Voltei-me devagar e pousei a mão, de leve, no seu ombro. Senti-a estremecer ao contacto. Foi um sobressalto breve, como se aquele toque a resgatasse de um vórtice escuro onde se afundava.
— Podes olhar para mim, por favor?
Resistiu um segundo, o pescoço tenso. Depois, rodou a cabeça. Tinha os olhos brilhantes, uma humidade viva que quase me fez recuar.
— Desculpa se pareci insensível. Magoei-te sem querer, Dila. Preferia partir uma perna a ser o motivo do teu desgosto...
Calei-me, tentando perceber se as minhas palavras colhiam eco no seu silêncio. Ela mantinha-se imóvel, mas a sua atenção era agora total.
— Eu levantei-me tarde porque me custou imenso a adormecer ontem.
A sua boca esboçou um movimento, um início de palavra que logo recolheu, guardando-se.
— Quando me deitei, levei comigo as tuas palavras... — Os olhos dela abriram-se um pouco mais, fixando-me. — Disseste que eu era o teu protector. Isso tocou-me mais do que possas imaginar.
Continuava calada, mas o seu corpo pendia agora ligeiramente para o meu lado, atenta à vibração da minha voz por entre o restolho dos sons da rua.
— Eu sei que me tenho contido. Muitas vezes. Escondo o que me vai por dentro porque tenho medo de falhar. E as tuas palavras ontem deixaram-me num desassossego terrível.
A surpresa cruzou-lhe as feições.
— Mas o desconforto não foi pelo que disseste — apressei-me a acrescentar. — Foi por tudo aquilo que tenho guardado em mim, à força. A minha vontade... o meu desejo real era tão diferente de tudo o que imaginas. Eu conheço os teus condicionalismos, Dila. Sei as regras da tua casa, o rigor com que te vigiam. Por isso procuro nunca te expor a emoções que tu não queiras... ou que não possas corresponder na rua, à vista de todos. Compreendo que, para ti, certos gestos ou palavras sejam proibidos. Mas peço-te, suplico-te, que não feches o teu coração quando vires que o meu transborda. Somos novos, sim. Mas não é a idade que nos tira a espessura do sentimento. Tenho o maior respeito por quem és. Por tudo o que significas para mim.
Nesse instante, olhou-me com uma intensidade que me cortou a respiração. Houve uma pequena tremura no seu lábio inferior, um trejeito quase imperceptível que revelava a dor daquela contenção a que a obrigavam. Uma mudez forçada que lhe pesava nos ombros.
— Por favor, não te zangues comigo — murmurei, quase sem ar. — Estou a aprender agora a lidar com o que sinto, ainda me faltam as palavras certas...
Antes que eu pudesse acrescentar mais um argumento, a Dila estendeu a mão e pousou-a no meu braço. O toque foi firme, um pedido mudo para que eu parasse de cavar aquela vala.
Obedeci. O trólei balançava nas curvas, a chover lá fora. Passaram segundos longos antes que ela conseguisse desprender a voz.
— Não estou zangada contigo, António. Nunca poderia estar... — Fez uma pausa, os olhos fixos na minha camisola. — Mas magoou-me sabê-lo por preguiça. - Eu ia responder, mas o aperto dos seus dedos no meu braço impôs-me silêncio. Compreendi o aviso. — Não imaginei que o que te disse ontem te tivesse perturbado tanto. Se o disse, é porque é a verdade. É o que sinto.
Olhou de esguelha para os outros passageiros, antes de continuar, a voz num sussurro.
— Em todas as viagens que fizemos, com o trólei a abarrotar de gente, achas mesmo que eu não reparava? Sentia o teu corpo a fazer barreira, a proteger-me dos apertos e dos empurrões dos homens. Por isso te chamei meu protector. E agradeço a tua contenção, António. É como dizes, há condicionalismos, regras que não posso quebrar. A nossa idade exige que sejamos pacientes. Mas quando dizes que não posso ou não quero corresponder... — baixou o olhar para as próprias mãos, juntas no regaço — ficas a saber que o que se passa aqui dentro não é diferente do que me dizes. Só que nem sempre preciso de palavras para mostrar a alma. Falas de gestos... sê paciente. É tudo o que te posso pedir por agora.
O tempo perdeu a medida. Não demos pelas paragens, nem pela rota habitual que se desfazia. Quando reparámos, o trólei largava-nos no Campo 24 de Agosto, longe do liceu e com o relógio a ditar o falhanço da primeira aula. Não importou. Caminhámos até ao jardim, onde os bancos de pedra humedecidos pela névoa nos acolheram. Sentámo-nos ali, imóveis, contemplando o cinzento das árvores e o rumor distante da cidade.
A sua última frase ficara-me gravada, como uma promessa ou uma sentença: «Sê paciente». Assim farei, esmagando a pressa que me consome os dias, esta vontade bárbara de a abraçar ali mesmo, de sentir a pulsação do seu peito contra o meu, ou de apenas lhe prender os dedos nos meus, sem medo das janelas ou dos olhares da gente que passa. Aceito as suas leis discretas. Serei paciente. Ontem não sabia, mas hoje trago a certeza de que o silêncio que guardo no meu peito encontra, finalmente, o seu eco perfeito no dela, na penumbra deste porto de abrigo que nos alberga.
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