O Silêncio da Manhã que Passa

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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 1977

A noite limpou a febre que me pesava nos ossos. Acordei com uma urgência qualquer no sangue, um sobressalto que me empurrou para fora dos lençóis antes que o dia clareasse bem. Engoli o café com leite à pressa, sob o olhar desconfiado da minha mãe, que ainda me atirou à saída: «Parece que levas asas nos pés...». Não cheguei a ouvir o resto. O trinco do portão da rua bateu com um estalo seco e o frio da manhã bateu-me na cara, trazendo o cheiro a terra húmida.

Dera apenas meia dúzia de passos no passeio irregular quando a voz me travou.

— António, onde vais com tanta pressa?

O chão pareceu suster o fôlego. Voltei-me. A Dila vinha a descer, apertada no seu casaco escuro, com um sorriso que parecia rasgar uma névoa cinzenta. Tive o impulso pateta de querer congelar aquilo, de ter nas mãos a velha máquina fotográfica do meu pai para prender o vinco que se lhe formava no canto dos lábios.

— Olá, Dila. Mas que bela surpresa...
— Já estou a ver que o doente afinal está rijo — disse ela, parando a dois passos, as bochechas tingidas pelo frio.
— Tinha de ficar. Depois daquele convite, não podia falhar-te.

Ela desviou o olhar por um segundo, ajeitando a pasta dos livros contra o peito. Uma contenção que lhe conheço bem, o peso invisível das recomendações que decerto trazia de casa.

— Estava à tua espera na esquina. Para ver se vinhas ou se continuavas de cama.
— A sério? E se eu não aparecesse?
— Se continuasses doente... — hesitou, e os olhos dela procuraram os meus com uma gravidade súbita — ...batia-te à porta.

O peito ardeu-me.

— Farias isso por mim?
— Se estou a dizer, é porque faria.
— E depois? Diz lá, o que farias a seguir?
— Perguntava à tua mãe se estavas melhor, ora essa.
— Só isso? E depois?

A Dila soltou uma gargalhada curta, sacudindo a cabeça.

— Depois? O que mais querias? Que te fosse aconchegar os cobertores e dar a canja na boca? Deixa-te de sonhos, António, e mexe-te. Senão perdemos o trólei.

Seguimos caminho abaixo. O ruído das minhas botas no paralelo parecia compassar o orgulho parvo que me enchia o peito. Saber-me protegido por ela, mesmo naquela distância velada que as raparigas da nossa idade mantêm, dava-me uma espécie de febre boa.

— É bom saber que te preocupas comigo — murmurei, sem olhar directamente para ela.
— Só retribuo o que fazes. Sinto que és... o meu protector.

Olhei-a de esguelha. Havia uma cumplicidade calada na forma como ela apertava o passo ao meu lado.

A viagem até ao Bonfim fez-se num ápice. O trólei ia cheio e os solavancos violentos das obras na estrada empurravam-nos um contra o outro. O ombro dela no meu, um aroma agradável que vinha do seu cabelo, o corpo a responder ao oscilar inevitável da chapa metálica do veículo. Rimo-nos de nada, cúmplices daquele aperto que nos servia de pretexto para estarmos colados.

Deixei-a no liceu. Joguei o meu trunfo, disse-lhe que não tinha a última aula, na esperança de que ela se soltasse também. Não teve remédio, a obrigação chamava-a para dentro do portão. Paciência. Eu esperaria. O tempo, quando é para ela, não tem importância.

À tarde, o compasso mudou. Instalei-me junto à entrada do liceu, as mãos enterradas nos bolsos do casaco, como um sentinela que guarda o que não lhe pertence. Quando a Dila cruzou o pátio, não vinha sozinha. Trazia uma colega de braço dado, uma rapariga de olhar vivo e desembaraçado.

— Olá, António. Esta é a Gisela.
— Olá — disse eu, encolhendo os ombros.
— Olá — ripostou a outra, medindo-me de alto a baixo com uma audácia que me incomodou. — Eu sou a guarda-costas da Dila.

Olhei para a Dila, procurando um sinal.

— Precisas de guarda-costas?

A Gisela meteu-se de permeio, sem cerimónias:

— Pois claro que precisa. No que toca ao coração, sou eu que governo a alfândega. Tenho de a proteger.
— Proteger de mim? — O tom saiu-me mais seco do que pretendia. A Dila sorria, mas havia um vinco de embaraço na testa dela, o medo de que a outra falasse de mais.
— Sim, senhor. Tenho ouvido histórias a teu respeito.
— Tens falado de mim, Dila? — Voltei-me para ela, apanhado de surpresa.

A intrusa não a deixou respirar:

— Fala, e não é pouco. Por isso mesmo é que ando de vigia. Não vá o coração da menina destravar-se na descida...

A Dila corou, um vermelho vivo que lhe subiu pelo pescoço, e cortou o falatório com uma autoridade fingida:

— Acabou-se o interrogatório. Parem os dois de falar de mim como se eu não estivesse aqui.
— Sim, minha ama e senhora — troçou a Gisela, fazendo uma vénia exagerada.

Fiquei estático. Aquela expressão bateu-me na memória.

— Ela também é tua ama e senhora?

Olhámos um para o outro, um silêncio pesado a flutuar entre nós pela coincidência daquela palavra que eu guardava nos meus cadernos.

O regresso no trólei foi a três. Um erro de cálculo que me roía por dentro. A Gisela falava pelos cotovelos, desfazendo a intimidade que eu passara a manhã a construir. Era uma violência aquele ruído todo, aquela partilha forçada do pouco tempo que o dia nos concedia. Rimo-nos, sim, de parvoíces que a estrada trazia, mas o sabor era outro. Era fútil.

Só quando chegámos perto da casa dela é que conseguimos os minutos devidos. Alongámos o caminho, contornando ruas para esticar o tempo que o trólei nos roubara. A despedida, porém, teve a crueza dos dias de semana. Um «Até amanhã» dito a meia voz e um aperto de mão. Mas as nossas palmas colaram-se mais do que o costume, os dedos retiveram-se, num atrito morno e prolongado que nenhum dos dois quis quebrar antes do tempo. Era o nosso pacto mudo.

Fiquei a olhar até que a silhueta dela dobrou a esquina. Depois, o caminho de volta para casa fez-se devagar. Os pés pesavam-me, como se a ausência dela se tivesse transformado em chumbo nos bolsos.

Fechei-me no quarto até ao final da tarde. 

A luz de Fevereiro foi morrendo devagar nos vidros da janela, deixando o quarto numa penumbra fria. 

Deitei-me de costas, de sapatos calçados, os olhos fixos nas fendas do tecto. Na minha cabeça, o filme da manhã teimava em rebobinar, a voz dela a chamar-me, o calor do ombro no trólei, o aperto de mão que ainda me formigava na pele. O dia gastou-se nisto, sem que eu desse por isso. 

Amanhã recomeça a mesma paciência, a mesma espera miudinha nas esquinas, nesta vida que se vai cumprindo aos bocados, sem sabermos bem o que o tempo nos guarda por trás dos muros.




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