O Silêncio das Horas Calmas

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Domingo, 6 de Fevereiro de 1977

Acordei com uma leveza estranha na cabeça, como se o corpo se tivesse despedido, finalmente, da febre que ontem me turvava os olhos. O quarto amanheceu lavado por uma luz rala, fria, mas que trazia o contorno nítido das coisas: a esquina da cómoda, o casaco pendurado na cadeira, o silêncio pesado de um domingo de Inverno. 

Pensei nela. Deixei-me ficar deitado, a seguir com o olhar a linha da cal no teto, a imaginar o contacto da sua mão na minha testa, a pressão breve dos seus dedos no meu ombro. São acções gravadas na pele, gestos que se recusam a desaparecer e que me arrastam para longe deste quarto.

A manhã avançou devagar, sem que eu fizesse por me mover. Fiquei suspenso naquilo que a Dila me dissera, uma ordem que me soube a súplica, ou talvez o contrário, já não sei: «Segunda-feira tens de estar bom para virmos juntos para o liceu.» 

As palavras dela repetem-se cá dentro, com o ritmo compassado de um relógio de parede. Encolhi-me entre os lençóis. A Dila tem esse poder de me prender ao chão, mesmo quando finge que apenas cumpre o que a pressa do dia exige. Há sempre qualquer coisa de vigilância no olhar dela, um peso que decerto traz de casa, das regras da mãe, mas que se desfaz por um instante quando estamos sozinhos na paragem do trólei.

A minha mãe entrou sem fazer barulho. Abanou-me o ombro com aquela mansidão que adoro e me salva ao mesmo tempo.

— Sentes-te melhor? Já passam das duas. Fiz uma canja, queres que ta traga aqui à cama?

Disse que sim com a cabeça, enquanto ela ajeitava a dobra do cobertor com os nós dos dedos gastos pelo frio e pelo sabão. Há uma doçura nela que me encanta.

— Obrigado, mãe. Já me levanto. A canja faz-me bem.

Ela sorriu daquela maneira que só ela sabe, um assomo de luz no rosto de quem conhece todos os meus segredos ocultos mesmo sem eu os referir.

À tarde, com o estômago quente, o corpo pareceu-me mais firme. Mas o dia correu como uma água parada, uma calmaria que me deixou desarmado. Às vezes, o vento trazia-me pequenos estilhaços do dia de ontem, vozes que me batiam no peito com a força de um gesto ligeiro: «Estás outra vez doente, António», «Devias estar na cama», «Estás tão pálido». O carinho dela encanta-me. É uma preocupação que me encosta à parede, que me obriga a procurar nela um porto que talvez exista e que talvez nunca mude de lugar sempre que me aproximo.

As sombras da noite começam agora a desenhar-se nas esquinas do tecto. O quarto escurece sem pressa, com o frio a entrar pela fresta da janela. Ontem a febre queimava-me, hoje é o pensamento de amanhã que me acelera o sangue.

Vou voltar a vê-la. Na paragem, com os livros apertados contra o peito e o colarinho do casaco levantado contra o vento, ela há-de olhar-me com aquela contenção que me esconde metade do mundo. E eu ficarei outra vez sem saber o que fazer com este ciúme que me morde o silêncio, enquanto o trólei não chega e a noite se recusa a esquecer o que ficou por dizer.


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