A Geometria dos Silêncios
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Sábado, 5 de Fevereiro de 1977
Acordei com o corpo submerso num terror sem nome. Do pesadelo, nada restou senão a cinza de uma angústia espessa, uma náusea oculta que me colava os lençóis à pele e me pesava na nuca como um soco. Havia um cansaço de séculos nos meus ossos de dezasseis anos. Ergui-me por puro orgulho, ou talvez por essa teimosia cega que nos empurra para a rua quando o corpo pede descanso. Tinha de ir ter com ela. O tempo, nessa manhã, era uma urgência que me roía por dentro.
Arrastei os pés pelo passeio húmido, a cabeça a latejar ao ritmo dos meus passos incertos. Na paragem, sob o céu baço, lá estava ela. O meu raio de sol. Vi o esmorecer imediato do seu sorriso assim que os seus olhos se cravaram nas minhas feições lavadas.
— Não estás bem. Estás doente?
— É só uma indisposição. Já passa — murmurei, tentando em vão segurar a máscara que a minha palidez desfazia.
— Estás outra vez doente, António. O que vens fazer para aqui? Devias estar na cama.
— Estás a dramatizar, Dila. Isto não é nada.
Aproximou-se num ímpeto. Por um segundo, o seu braço erguido no ar pareceu a promessa duma bofetada, um castigo pela minha audácia, mas a sua mão pousou, afinal, com uma brandura inesperada na minha testa. Media-me o calor, colhendo o diagnóstico na minha fragilidade. Os olhos dela, semicerrados talvez pelas ordens implícitas que a mãe decerto lhe repetia em casa sobre a compostura, traíam uma contenção que a rigidez da época lhe impunha. Havia um muro entre nós, mas os dedos dela na minha pele eram reais.
— Não tens febre. O que é que sentes? Estás tão pálido.
— Sinceramente, não sei.
O trólei chegou com o seu chiar metálico e a vibração surda que nos subiu pelas pernas. Entrámos no vagão cinzento e procurámos o banco do costume. O olhar dela continuava ali, inquiridor, pesado, despindo-me das desculpas.
— Já te disse que é um desconforto passageiro, não te preocupes — insisti, mais para convencer o meu próprio peito do que para acalmá-la.
— Claro que me preocupo. Vê-se perfeitamente que estás mal. Vamos ver como chegas ao Porto.
A autoridade na voz dela era o eco de um mundo que nos exigia severidade. Calámo-nos. O movimento ritmado do veículo entorpeceu-me os sentidos. Dormitei. O cansaço era um manto negro.
— António...
A voz vinha de longe, como se atravessasse um nevoeiro. Abri os olhos, a custo, e percebi que o meu corpo pendera inteiramente para o seu lado. A minha cabeça tocava quase o seu ombro, uma audácia involuntária que me fez recuar num sobressalto.
— Desculpa... devo ter adormecido. Espero não ter sido inconveniente.
— Não penses nisso. Agora o que importa é que estás assim. Nem vais sair do trólei.
— Mas, Dila...
Ergueu a mão, num gesto definitivo que selou o meu destino antes mesmo de o dia começar a sério.
— Vais direitinho para casa e para a cama. Não podes andar assim na rua.
Não me opus. Faltavam-me as forças e sobrava-me a razão que lhe reconhecia. Ao chegarmos ao Bonfim, ela levantou-se. Antes de descer para a rua, a sua mão deteve-se por um instante no meu braço, um toque breve mas denso, acompanhado por um olhar de uma ternura tão desarmante que me estremeceu as entranhas.
— Segunda-feira tens de estar bom para virmos juntos para o liceu.
Sorriu. Um sorriso que desmoronava qualquer resistência.
O regresso foi uma névoa. Em casa, o olhar cirúrgico da minha mãe não falhou ao ver-me cruzar a porta àquela hora. O instinto das mães conseguem ler o que nos vais no corpo e no espírito.
— Estás com uma linda figura, estás. Comeste alguma coisa que te fizesse mal? Vai deitar-te, que eu levo-te um chá.
Desapareceu para a cozinha enquanto eu me enfiava entre os lençóis lavados. O calor do chá trouxe-me uma sonolência pesada. Naquela penumbra, entre o sono e a febre, vi-me de novo no trólei, colado ao corpo da Dila, sentindo o calor que emanava dela a inundar o meu frio, uma combustão lenta que me apagou até ao anoitecer.
— Queres que te traga o jantar? — a voz da minha mãe acordou-me na escuridão do quarto.
Levantei-me a custo, os pés frios no soalho. À mesa, o falatório miúdo do meu pai e das minhas irmãs devolveu-me um resto de chão, uma âncora na realidade daquela noite de Fevereiro. O calor da sopa soube a tréguas.
Agora, recolhido ao quarto, com o candeeiro a projectar sombras longas na parede, penso na Dila. Nessa dualidade dela, a rigidez quase altiva com que me manda recolher e a doçura secreta que me guarda nos olhos. Há palavras que me queimam os dedos, que hesito em fixar no papel por medo de que se gastem, mas a verdade é que este peito guarda um amor absoluto por ela. Ela silencia-o na voz, porque o tempo é de silêncios, mas escreve-o na delicadeza oculta das suas acções e isso basta para me aquecer o sangue no frio desta noite.
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