O Peso da Luz no Chão do Inverno

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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 1977

Acordei com a cabeça pesada, um cansaço espesso agarrado aos ossos, daqueles que dão vontade de sumir entre os lençóis e deixar que o mundo continue sem nós. Fiquei imóvel. Queria suspender o tempo, mas o bafo frio do quarto não deixava. Lá ao fundo, na cozinha, a voz da minha mãe quebrou o silêncio, áspera, quotidiana: «Então não te levantas? Já viste as horas? O pequeno-almoço está na mesa». Levantei-me a custo. Cumpri os rituais mecânicos da manhã e saí para a rua.

Estava um gelo de rachar. O ar cortava a pele. Arrastava-me rua abaixo, cabisbaixo, os olhos fixos na humidade do passeio, cinzento e gasto. Passava a igreja quando senti uma mão segurar-me o braço. Voltei-me sobressaltado. Era a Dila. Sorria-me com aquela claridade que me desarma sempre.

— Estás novamente a sonhar? Chamei-te e não me ouviste.

— Agora já acordei... Tens esse efeito em mim, sabes?

Ela guardou o sorriso, o olhar vacilou por um instante.

— Tenho uma coisa para te perguntar.

— Força. Diz lá.

— Ontem deixaste-me a pensar...

— E isso é bom ou mau? — atalhei, com o peito a apertar-se. — Não me lembro de ter feito asneira.

— Não foi o que fizeste, António. Foi o que disseste...

Parou. Aquela hesitação súbita feriu o ritmo do caminho. O trânsito parecia mais distante.

— E o que foi que eu disse que te incomodou assim tanto?

— Não é nada disso. Não fiquei incomodada, apenas... fiquei a reflectir.

— Agora estás a deixar-me ansioso. O que foi que eu disse, afinal?

— Disseste que o meu coração... não me pertencia.

Desviou os olhos para o chão. Vi as faces dela a corarem, o embaraço a travar-lhe os passos. Havia um peso ali, talvez a sombra das recomendações rigorosas da mãe, o medo de ser vista a conversar daquela maneira na via pública. Fiquei encurralado, a procurar uma saída que não parecesse ridícula.

— Ah... está bem... — a minha voz sumia-se. — Bem, o que eu quis dizer era que... como sou o teu guardião... logo o teu coração também está à minha guarda. Por isso... é meu.

Que raio de explicação. Concluí a frase com o sangue a ferver-me nas orelhas, envergonhado com a audácia daquela declaração tão despida.

Ficámos mudos. O silêncio da rua caiu sobre nós como uma lapa.

— Entendi... — disse ela, demorando as sílabas, a voz estranhamente séria. — Então tu és o meu guardião e o meu dono?

— Não! Não, não foi isso que eu quis dizer...

— Então o que querias dizer?

Estava firme. Olhava-me de frente, decidida a arrancar-me a verdade do fundo do peito, sem subterfúgios.

— O que eu quis dizer é que... o meu coração é teu. És a minha ama e senhora. Lembras-te?

— Sim. E então?

— Então... se és a dona do meu coração... também serei... dono do teu... se me deixares.

Falei depressa, num fôlego, com medo que a coragem me faltasse a meio da frase. A Dila recompôs a postura, fechando-se naquela severidade que as raparigas da nossa idade usam como escudo contra o mundo.

— Queres a minha amizade ou...

— "Ou..." . É isso que quero. Sem sombra de dúvida.

Houve um segundo em que o ar pareceu estacar, a promessa de uma história sem fim suspensa entre os dois. Depois, o ridículo da nossa gravidade desfez-se e desatámos a rir. O estrondo do trólei, que se aproximava na curva, quebrou o encanto, empurrando para trás a fragilidade daquele momento.

Seguimos para o Porto embrulhados numa espécie de leveza. Conversámos todo o caminho. Eu não conseguia desprender os olhos dos lábios dela, do movimento subtil com que falava, alheia ao sacolejar do banco de napa.

Deixei-a à porta do seu liceu. No regresso ao meu, cruzei-me com uns colegas que me deram a notícia de um furo no primeiro tempo de aulas. Subi para a biblioteca. O espaço cheirava a papel antigo e a cera, mas a minha cabeça ainda estava cheia das palavras da manhã. O tempo voou, empurrando-me na direcção das duas da tarde, a hora de voltar a vê-la.

O encontro depois do almoço já se tornara um hábito bom, uma âncora no meio do dia. Encontrámo-nos novamente junto ao liceu dela. O trólei chegou a gemer, anunciando-se ao longe com aqueles ruídos metálicos estranhos que lhe vinham das entranhas. Entrámos. A viagem, contudo, foi curta. Entre soluços e engasgadelas pneumáticas, o bicho resolveu morrer ali mesmo, parando abruptamente no meio da via. O motorista ainda insistiu, puxou as alavancas, mas o motor estava moribundo. Tivemos de sair todos e esperar pelo próximo. Àquela hora, sabíamos que a demora seria longa. Olhámos um para o outro, cúmplices; aquela avaria era um presente do céu.

Mas durou pouco. Um automóvel cinzento travou junto ao passeio. Um senhor de meia-idade baixou o vidro e perguntou se queríamos boleia para São Pedro. Era um conhecido da família da Dila. Olhei para ela e vi o pânico nos seus olhos, um pedido mudo, desesperado, para que eu nos tirasse dali. A rigidez da época não perdoava um encontro a três num carro de um vizinho.

— Agradeço muito — disse eu, adiantando-me —, mas estou à espera de um colega da escola que vem no próximo autocarro.

Ela olhou para trás antes de entrar no carro, com um esguelha de olhos que era puro agradecimento. Vi o veículo afastar-se na berma, deixando na estrada o fumo do escape e, em mim, a mesma cor cinzenta do metal da carroçaria.

Voltei a casa, pousei os livros na mesa da entrada e saí para o Centro. Mas a tarde já não tinha interesse. O dia estava ensombrado outra vez, o frio parecia mais cru sem a presença dela. No entanto, a manhã permanecia intocada na minha memória. «Amizade ou...». Aquele «ou» crescia-me no peito, uma palavra minúscula que doía e confortava ao mesmo tempo, ajudando a empurrar as horas até que a noite caísse de vez.

No quarto, à luz fraca do candeeiro, olho para as páginas limpas do diário. Fecho os olhos. Procuro no silêncio da casa o eco exacto daquele riso que ficou na paragem, antes que o trólei nos separasse. 


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