O Eco Silencioso de um Raio de Sol

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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 1977

Depois de uma noite febril e atormentada, despertei com o raiar de um dia que prometia a calmaria do firmamento. Sentia-me bem, regenerado. Experimentei a voz no vazio do quarto e percebi-a funcional, restando apenas uma ligeira dor de garganta, como o eco distante da tempestade da véspera. Pensei para mim: estou safo. A lembrança da ameaça da Dila no dia anterior — "não pões os pés na rua se ainda tiveres febre, senão zango-me contigo" — ecoou na minha mente não como uma ordem, mas como um manto de cuidado que me aquecia a alma.

Levantei-me sem pressa, saboreando o tempo que corria a meu favor, era cedo. Contive a vontade impetuosa de encurtar caminho e correr directo ao seu encontro, forçando-me à disciplina dos minutos. Depois do pequeno almoço, saí à rua.

A geada desta noite fôra de uma intensidade severa, S. Pedro acordara petrificado. Na berma da estrada, as plantas erguiam-se hirtas, esculturas de cristal lapidadas pelo inverno, e alguns riachos cintilavam, congelados sob a luz pálida do amanhecer. 

Enterrei as mãos nos bolsos, ergui a gola do casaco contra o vento cortante e continuei até ao meu destino. A Dila ainda não havia chegado. Junto da paragem, um pequeno magote de pessoas encolhia-se com o frio, maldizendo o trólei que tardava. Procurei a penumbra daquela gente, mantendo-me oculto, como quem guarda um segredo.

Foi então que a vi chegar, com o seu passo ligeiro que parecia desafiar a gravidade do gelo. Ela correu os olhos pela paragem, procurando-me na multidão, mas a minha ausência fingida fez com que se colocasse numa posição de vigia, esticando o pescoço para ver se eu surgia ao fundo da rua. Aproximei-me sorrateiramente por detrás, quebrando a distância e o frio, e, aproximando-me do seu ouvido, sussurrei-lhe no calor de um fôlego:

— Bom dia, raio de sol.

Num sobressalto límpido, ela virou-se num ápice e… meu Deus… os seus lábios quase se colaram aos meus. O tempo suspendeu-se naquele milímetro de ar que nos separava. O mundo em redor emudeceu, não havia trólei, não havia geada, apenas a iminência de um abismo doce. Recuperando a compostura, muito corada, ela recuou um passo, enquanto eu sentia um calor imenso, uma verdadeira febre de outra natureza, subir-me à cara. Não desviei o olhar. Enfrentei-a naquele momento com uma coragem desarmada, sem palavras, num entendimento mudo que durou pouco.

— António… — começou por dizer, franzindo o sobrolho num ar zangado que não conseguia ser convincente. — O que fazes aqui? Já estás bem?

Não a deixei continuar a fortaleza de censuras.

— Calma, Dila, calma… Como podes ver, estou bem.

— Que ideia foi essa de me assustares dessa maneira? — protestou, tentando recuperar o fôlego que o quase-beijo lhe roubara.

— O que é que te assustou? — perguntei, adoptando um olhar matreiro, jogando com o implícito que nos queimava. — Foi por chamar-te raio de sol?… Ou foi por outra coisa?

— Não foi isso que me assustou, foi… — O embaraço deteve-a, as faces ainda mais rubras. — teres-me surpreendido. Queres dar cabo do meu coração?

— Como posso dar cabo de uma coisa que não é tua?

Ao proferir estas palavras, os seus olhos brilharam com uma intensidade que me trespassou. Havia uma confissão inteira naquela luz.

— Como não é meu? — replicou ela, a voz sumida, quase um desabafo para si mesma. — Eu sinto-o bem a bater… às vezes demais… — E calou-se, assustada com a própria audácia.

Quando ia declarar que o seu coração era guarda minha, o trólei interrompeu este impulso destravado. A máquina ruidosa que arrancava-nos daquele idílio. Entrámos e subimos ao primeiro piso, procurando o recolhimento dos bancos do fundo. Sentámo-nos e um silêncio denso, prenhe de palavras não ditas, instalou-se entre nós. Quebrei o gelo primeiro.

— Se não gostaste que te chamasse raio de sol, então não te volto a chamar — disse, oferecendo-lhe um sorriso provocante. Queria puxar pelo fio daquela meada, não deixar morrer o que começáramos na paragem.

Ela voltou o rosto para mim, e respondeu:

— Nunca ninguém me chamou raio de sol. Chamo-me Dila e gosto do meu nome. Tu preferes dar-me outro nome?

Aqueles olhos lindos penetraram-me na alma, desarmando de imediato qualquer armadilha ou artifício que eu levasse nos meus intentos. Diante dela, a minha matreirice desfazia-se em pura vulnerabilidade.

— Eu ador… — A palavra "adoro" quase me escapou, perigosa e imensa, mas corrigi-me a tempo. — Eu gosto muito do teu nome. Chamei-te raio de sol porque… — Fiz uma pausa longa, fixando a sua boca, antes de concluir: — tu fazes o meu dia brilhar.

O ambiente entre nós tornou-se magnético, espesso, suspenso entre o desejo de proximidade e o medo do desconhecido. Embaraçada com a gravidade do que aquele elogio arrastava consigo, a Dila mudou radicalmente de rumo, procurando o chão firme dos factos.

— Ontem, quando íamos no caminho para tua casa, fiquei com a impressão que um carro nos seguia… Mas como estava tão preocupada contigo, não dei atenção. Adivinhas quem era?

— Não me lembro de ver nada… Só tinha olhos para ti. Quem era?

— O meu pai… — respondeu, segurando o olhar, esperando pela minha reacção. O meu coração deu um solavanco.

— Então ele viu-nos? Zangou-se? Ralhou contigo? — perguntei, a ansiedade a romper-me na voz.

— Não. Apenas disse que me viu e que estava acompanhada… — Deixou a frase suspensa, permitindo que o meu silêncio preenchesse o resto.

— E então… Isso quer dizer…

Ela interrompeu-me, rematando com uma leveza que parecia uma promessa:

— Que nos viu juntos… e não ralhou.

Ficou no ar aquela afirmação, como uma porta que se abria no horizonte do nosso futuro. A sensação que me invadiu foi de um espanto indizível, uma incredibilidade feliz. Acompanhei-a ao seu liceu e despedimo-nos com a promessa implícita do amanhã, depois das aulas, ela iria ter com a mãe.

A tarde entrou com a mesma leveza que me habitava o peito. Fui para o Centro, mas, como costumamos dizer na gíria, foi uma verdadeira "missa de corpo presente", pois o meu espírito pairava bem longe dali. O ritual do arquivo — organizar as pastas, registar os documentos, repor os livros nas estantes — deslizou em piloto automático ao longo das horas. O meu outro eu estava algures, aquecido por um raio de sol. "Viu-nos juntos", matraqueava-me a cabeça, "e não ralhou". Era um matraquear compassado, ritmado, o melhor dos sons.

A noite caiu sem que eu desse por ela. Voltei a casa com o passo ligeiro de quem caminha sobre nuvens. Só ao sentar-me à mesa é que me apercebi de que não tinha lanchado, há emoções novas, que só agora estou a começar a entender, que têm a capacidade de alimentar o espírito e saciar o corpo.

Agora, na quietude do quarto, com a tua fotografia a olhar para mim, um pequeno quadrado de papel, compreendo finalmente que crescer pode ser um processo doloroso, mas que os sentimentos mais profundos só despertam quando são empurrados pelo abismo do olhar de alguém. É no silêncio do que não dissemos naquele trólei que o nosso amor se escreve, sussurrado na penumbra, antes que o sono me leve de volta para junto de ti.


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