A Febre Branca dos Dias
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 1977
Às vezes, ao cair da noite, assalta-me uma preguiça imensa de abrir este caderno. Um torpor. Para quê registar a cinza? Mas acabo sempre aqui, curvado sobre a mesa, pela urgência cega de provar a mim mesmo que permaneço inteiro.
Escrevo para aferir a lucidez, para certificar que os meus dezasseis anos não se desmoronaram no caos do dia. Há um desalinho nisto tudo. Sei exactamente o que me vai na alma, mas as palavras tropeçam, desviam-se num labirinto imperceptível de sarrabiscos e emendas.
Se um dia voltar a ler estas páginas, se o tempo mo permitir, temo não conseguir decifrar o raciocínio do rapaz que sou. Talvez a adolescência seja isso, um erro de sintaxe que o tempo desculpa.
Hoje devia falar do silêncio, não da escrita. Acordei sem voz. Um sopro áspero na garganta. A minha mãe, mal reparou no meu esgar sumido, agoirou logo o pior, ralhou que devia ficar na cama, recolhido. Não ligo aos presságios das mães. Saí à pressa, com o peito a arder, e Deus sabe que não era o rigor das aulas no liceu que me arrastava pelo empedrado húmido da rua.
Na paragem do trólei, a Dila ainda não tinha chegado. O frio de Fevereiro cortava as bochechas. Esperei, imaginando a reacção dela ao ver-me assim, neste estado de bicho acossado. Vi-a surgir finalmente, os passos miúdos e apressados, aquele sorriso que trazia sempre para combater a geada do Inverno. As pessoas andam depressa no Inverno, como se pudessem fugir do vento que desce a serra.
— Olá, António — disse ela, a respirar um novelo de névoa.
— Olá, Dila — o meu murmúrio mal rasgou o ar.
Olhou-me de esguelha, desconfiada, julgando ser mais um dos meus fados ou brincadeiras. Mas a febre denuncia-se nos olhos. Vi o susto descer-lhe às pupilas, a testa a franzir-se com a autoridade precoce que decerto copiava da mãe, na contenção de quem carrega as regras da casa nos ombros.
— Estás doente? O que fazes aqui? Devias estar na cama, António.
Tentei uma defesa, um aprumo de homem que a garganta recusou.
— Não é nada... perdi o pio.
Como não me ouvia, aproximou-se. Tanto. Ficámos à distância exacta em que o vapor das suas palavras me embaciava o rosto. E então a sua mão, fria e limpa, pousou-se na minha testa. O contacto foi um choque eléctrico. Se o meu sangue já fervia, aquele gelo fez-me incendiar. As faces arderam-me, mas a febre, felizmente, disfarçou o pudor que me subia pelo pescoço.
O trólei chegou com o seu chiar metálico e pesado. Conseguimos dois lugares juntos, ao fundo. Não sei se por causa do delírio da febre, mas senti que ela se amparava em mim com uma intencionalidade secreta. O balanço do carro colava o seu ombro ao meu, a sua perna à minha. Nunca a escassez de espaço me tinha sido tão favorável, o calor do corpo dela, a textura do casaco de lã grossa contra o meu braço, tudo se gravou no silêncio daquela viagem. Olhava-a de lado, em prostração. Havia um desvelo doce no seu rosto de menina, mas também um peso recatado, uma mudez de quem sabe que não deve dar muito nas vistas.
O trólei correu sem piedade até ao Bonfim. À chegada, fiz menção de a acompanhar ao liceu dela, como dita a praxe dos meus dias, mas a Dila travou-me com um tom severo, ordenou que fosse directo para as minhas aulas e arrancou-me a promessa de voltar para casa se a fraqueza aumentasse. Cedi às suas ordens, sim, mas com a secreta teimosia de quem já planeava o regresso.
As aulas foram uma névoa espessa. O meu corpo ocupava a carteira, mas o espírito ficara retido no banco daquele trólei, suspenso na apreensão dos lábios dela. Almocei a custo na cantina e fui esperá-la. Vi-a subir a rua, o passo ligeiro de quem traz o tempo contado.
— Sentes-te melhor? — os olhos dela inspecionaram-me, atentos a cada vinco do meu rosto.
— Estou óptimo — tentei bradar, mas a voz saiu como um sussurro de vento.
— Estou mesmo a ver. Que teimosia, António. Podias ter ido para casa de manhã... — ralhou, mas os olhos diziam outra coisa, uma brandura que desmentia o sermão. — Vamos depressa para o trólei, não podes apanhar este ar frio.
Deixei-me guiar. O veículo vinha a abarrotar, um formigueiro de gente e humidade. Enfiámo-nos num canto, junto à janela embaciada. Desta vez, foi ela quem se atravessou, firme, servindo de escudo contra os encontrões dos passageiros a cada solavanco. Esbocei um protesto de orgulho ferido, mas o seu olhar firme, quase zangado, impôs-me o silêncio.
A viagem foi penosa. Sentia o chão fugir-me, a cabeça a rodar num turbilhão cinzento. Fiz uma força sobre-humana para não desabar sobre ela, que estava colada a mim, quase boca com boca no aperto da carruagem. Desejava aquele contacto com a força de um náufrago, mas a fraqueza tornava tudo doloroso, um lirismo que me feria a carne.
Em S. Pedro, descemos e tomámos o caminho da minha casa, o mais curto. Ela fez questão de me deixar à porta, zelando pelo cumprimento do meu castigo. No momento da despedida, a Dila segurou-me no braço, os dedos apertaram a manga com uma firmeza súbita, e exigiu o meu juramento de que amanhã não poria os pés na rua se a febre persistisse. Lançou-me a sua ameaça mais terrível, com aquele esgar sério de quem guarda um segredo antigo:
— Ou então zango-me contigo, António.
Sorri por dentro. Diante de tal castigo, capitulei. Despedimo-nos com um "até amanhã" sussurrado e ela ficou imóvel no passeio, sob a luz baça da tarde, esperando que eu rodasse a chave na fechadura e entrasse, como um guarda que certifica a submissão do seu prisioneiro.
Fechei a porta e o mundo apagou-se. Passei a tarde inteira naufragado nos lençóis, flutuando entre o torpor do suor e as imagens que a febre distorcia. No labirinto do delírio, a mente regressava obsessivamente à manhã, o calor dos nossos corpos colados um ao outro, o aperto sufocante do trólei, a tentação violenta de deitar os braços em torno dela e ali morrer.
O suor arrefeceu-me a pele em calafrios longos, um tremor que me subia dos pés ao peito durante horas sem fim. Só a noite me trouxe uma trégua de sombra. Engoli umas colheradas de sopa morna e regressei à cama, puxando o diário para perto do candeeiro. Risco estas últimas linhas com os dedos pesados, na incerteza de amanhã a rever na mesma paragem, porque só a promessa daquele seu olhar severo me consegue segurar o sono nesta noite de febre.
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