O Tacto Invisível das Palavras
Terça-feira, 1 de Fevereiro de 1977
O primeiro dia de Fevereiro amanheceu com a mesma consistência de hontem, uma névoa rasteira que descia da serra e colava a humidade à pele como uma promessa mal cumprida. Mas a dormência já não era a mesma. Havia um sobressalto latente no meu peito, a expectativa miúda de quem sabe que o dia, por mais cinzento que se pinte, traz o compasso de uma promessa.
Caminhei para a paragem com as mãos afundadas nos bolsos do casaco de malha, sentindo o chão frio sob as solas dos sapatos. O Manel chegou primeiro, com o colarinho subido e o bafo quente a desfazer-se no ar. Trocámos duas palavras curtas, a cumplicidade habitual dos dias de semana, mas os meus olhos teimavam em procurar a esquina por onde ela surgiria.
E a Dila apareceu. Vinha agasalhada, os cabelos levemente húmidos da bruma, e aquele olhar que parecia carregar o peso de um segredo que só a nós dizia respeito. Ao ver-me, o canto dos seus lábios cedeu, muito ligeiro, o suficiente para que o Manuel não reparasse, mas o bastante para me devolver o prumo.
— Bom dia — disse ela, a voz ainda resguardada pelo frio da manhã.
— Bom dia — respondi, tentando manter a voz firme diante do Manuel. — Dormiste bem, ou passaste a noite a arquitectar o meu castigo?
Ela lançou-me um olhar de soslaio, os olhos a brilharem sob a luz baça da manhã.
— Não tive tempo para pensar nisso. E tu, cumpriste os teus deveres de escravo e sonhaste com as minhas ordens?
— Não precisei de sonhar. Acordei com as mãos prontas para o que mandares.
O Manuel riu-se, alheio à corrente eléctrica que passava entre nós.
— Vocês os dois logo de manhã com essas conversas... Parece que andam noutro planeta.
O trólei aproximou-se com o ranger metálico dos cabos e o chiar característico nos carris. Entrámos os três, mas o espaço apertado do transporte empurrou-nos para uma intimidade inevitável. O Manuel ficou uns passos mais atrás, a conversar com um conhecido da escola, e nós encontrámos o nosso canto, perto da janela embaciada.
A viagem para o Porto fez-se nesse meio-tom de vozes baixas e solavancos que nos aproximavam os ombros. Cada vez que o trólei travava, o braço dela roçava no meu, e essa fricção de tecidos grossos parecia incendiar o espaço entre as nossas peles.
— Vais sair à hora do costume? — perguntou ela, ajeitando a pasta contra o peito.
— Saio uma hora mais cedo hontem. Almoço num instante e vou a correr para o teu liceu. Não te atrevas a atrasar-te.
— Olha o escravo a querer dar ordens à ama... — troçou, num sussurro morno que me chegou mesmo ao ouvido, fazendo-me esquecer o barulho do motor. — Se te portares bem, talvez não esperes muito.
— Faço o que for preciso. Até espero à chuva.
— Não sejas tonto, António. Não quero que apanhes uma constipação por minha causa.
Houve um silêncio que se instalou entre nós enquanto o trólei vencia a subida. Olhei para o perfil dela, recortado contra os vidros húmidos que mostravam a cidade a acordar. Havia tanta coisa que eu queria dizer-lhe naquele instante, queria dizer-lhe que a fotografia dela no meu candeeiro era a última imagem que via antes de apagar a luz, que o som do seu nome tinha uma ressonância diferente dentro da minha cabeça, e que a iminência de a perder de vista, mesmo por poucas horas, me causava um aperto desconfortável no peito. Mas guardei tudo. O que fica por dizer tem uma força mais limpa, não se gasta com o uso.
Acompanhei-a até ao seu liceu. O adeus dela foi curto, formal para os outros, mas demorado nos olhos. Segui com o Manel para as nossas aulas, mas a minha mente tinha ficado suspensa nos portões do liceu dela.
A manhã correu com a urgência de quem tem o tempo contado. Saí mais cedo, engoli o almoço sem lhe sentir o gosto e ainda passei uns minutos num café com um colega de turma, a ver o relógio de parede avançar com uma lentidão exasperante. Quando finalmente caminhei para o ponto de encontro, a Dila já lá estava.
O regresso foi mais silencioso, povoado por um cansaço bom, mas também por uma sombra miúda. O assunto da mãe dela pairava no ar como uma nuvem que nenhum de nós queria puxar para cima da mesa. Falámos das aulas, das rimas do professor de português, de pequenas infantilidades para disfarçar o que realmente importava.
À medida que o trólei se aproximava do destino, a tensão crescia. Sabíamos o risco. Duas paragens antes da paragem habitual, levantei-me.
— Ficas bem? — perguntei, a voz subitamente mais séria.
— Fico. É melhor assim. Não convém que ela nos veja juntos... hoje não — respondeu ela, e o brilho dos seus olhos pareceu empalidecer um pouco sob o peso da realidade que a esperava em casa.
— Até amanhã, Dila.
— Até amanhã, António.
Saí. O trólei partiu e eu fiquei na berma da estrada, a ver as janelas cinzentas afastarem-se, levando-a de mim.
Cheguei a casa, pousei os livros e parti para o Centro. Quase como uma ironia do destino, mal pousei os pés na rua, vi a mãe da Dila a caminhar apressada em direcção à paragem. O coração deu um salto estúpido no peito. Encolhi-me no casaco, apressando o passo para o lado oposto. O perigo desfaz-se no ar, mas deixa um rasto de adrenalina amarga na boca.
A minha tarde dividiu-se na rotina mecânica que serve para adormecer a cabeça.
No arquivo do Centro, o silêncio era denso, quebrado apenas pelo passar das folhas e pelo murmúrio ocasional do colega que trabalhava comigo. Entre fichas e registos, a minha mente teimava em desenhar o contorno do rosto dela. Quando demos o trabalho por encerrado, o relógio já passava das seis da tarde e a noite já tinha engolido as ruas.
Em casa, o lanche foi rápido. Mudei de roupa, vesti o fato de treino e rumei à Academia. O tatami exige uma disciplina que ontem me faltava, mas que hoje me serviu de âncora. O corpo reagiu por instinto, a flexão das pernas, a firmeza dos golpes, o suor que limpa as impurezas do dia. Ali, no rigor das acções e no impacto físico, descarreguei a urgência que as palavras não tinham conseguido esgotar. O cansaço físico é um anestesiante honesto.
Regressei a casa com os músculos a latejar. Jantei no aconchego da cozinha, a ver as imagens a preto e branco na televisão sem lhes prestar grande atenção, e partilhei uma conversa calma, sem sobressaltos, com o meu pai sobre coisas da vida e do trabalho. O mundo dos adultos parece sempre mais simples e linear do que este labirinto onde me movo.
Agora, no silêncio do quarto, com o corpo dorido do treino e a mente pacificada pela distância das horas, percebo que o dia valeu por aquele breve compasso de espera na paragem, pelo roçar dos ombros no trólei e pela certeza de que, mesmo no meio do cinzento de Fevereiro, há um norte que me puxa sempre para o mesmo lugar. Amanhã haverá mais sinais de fumo, e eu estarei lá para os decifrar.
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