Onde o Frio Não Chega ao Nome

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Segunda-feira, 31 de Janeiro de 1977

Acordei como quem regressa de um lugar onde o corpo ficou esquecido.

Havia em mim uma dormência estranha, como se a vontade tivesse ficado para trás, algures entre o sono e o dia de ontem. Levantei-me, mas não me senti de pé. O corpo obedecia por hábito, a mente, essa, ainda não tinha chegado.

Trouxe comigo o cinzento. Não o do céu, esse viria depois, mas um outro, mais denso, mais quieto, colado por dentro.

Lá fora, o dia parecia concordar comigo. Um céu suspenso, pesado, à beira de cair. E eu sem vontade de o contrariar.

Sabia que a ia ver. E, no entanto, nem isso me puxava. Estranhei-me. Como se alguém tivesse ocupado o meu lugar e eu estivesse apenas a assistir.

Os pensamentos não fluíam. Estavam presos, represados, como água parada atrás de uma parede demasiado alta. E havia a sensação, incómoda, de que, se cedesse, levariam tudo à frente.

Saí.

O frio bateu-me no rosto, mas não chegou onde mais fazia falta. O gelo estava mais fundo, e esse não se desfaz com o vento.

Caminhei até à paragem do trólei quase sem dar conta dos passos.

E então vi-a.

A Dila estava ali, quieta, fechada nos seus próprios pensamentos, como se o mundo à volta tivesse ficado em pausa. Aproximei-me devagar. Cheguei ao seu ouvido e disse, baixo:

— Um tostão pelos teus pensamentos...

Sobressaltou-se. Virou-se.

Ficámos demasiado perto para ser por acaso.

Olhos nos olhos. O ar entre nós aquecido pela respiração dela. Não recuou. E eu também não.

— Assustaste-me! — disse.

— Se estivesses a pensar em mim, não te tinhas assustado.

Sorri.

E ela... abriu um sorriso que fez mais do que o céu alguma vez conseguiria naquele dia. Foi quase físico, como se o sangue, até então lento, voltasse a correr.

Por um instante, quis abraçá-la.

Mas não. Ainda não.

— Ora... estava só distraída — disse, desviando o olhar, traída por um embaraço que não quis esconder totalmente.

— Como foi o teu dia de ontem?

— Aborrecido. Em casa. Sem nada que fazer.

Houve um pequeno silêncio.

— Podias ter vindo ter comigo. Estive perto de tua casa.

— Se eu soubesse... — deixou a frase suspensa, como quem não precisa de a acabar.

Fiquei a olhar para ela.

— Temos de arranjar uma forma de comunicarmos.

Ela voltou-se, com um brilho leve nos olhos:

— Sim... sinais de fumo.

— Se eu te fizesse sinais de fumo, vinhas?

— Se não fosse de noite... e estivesse bom tempo... claro.

— Então é isso que vou fazer. Nem que fique à porta de tua casa à espera que vejas.

— Nem penses nisso! — respondeu, rápida demais.

Ri-me.

— Logo vi que era uma ideia boa demais.

Ela apertou os olhos, meio séria, meio rendida:

— Nunca sei se devo levar-te a sério, António.

Disse o meu nome como quem lhe pesa.

E isso, mais do que as palavras, ficou.

Havia qualquer coisa nela que oscilava. Um instante de defesa, outro de entrega. Como um balão demasiado cheio que, de repente, perde ar.

Suspirou.

— Só tu para me deixares assim...

— Diz-me o que posso fazer para ser perdoado.

— Mereces um castigo. Vou pensar.

Seguimos caminho.

Falámos de tudo um pouco, o essencial estava no facto de estarmos ali, lado a lado, a gastar o mesmo tempo. Nenhuma novidade sobre o encontro com a mãe. Talvez fosse melhor assim.

No Porto, deixei-a no liceu.

Quando me afastei, dei por mim a cantarolar. Sem pensar.

Um professor trouxe-me de volta, seco:

— A aula de canto coral é na próxima hora.

Assenti, mas fiquei com a sensação de que já estava a cantar antes disso.

À saída, esperei-a.

No caminho para o Bonfim, voltei ao assunto:

— Já decidiste o castigo?

— Ainda não. Mas vais tê-lo.

— Sou teu escravo. Faz de mim o que quiseres.

Olhou-me com um sorriso enviesado:

— Nesse caso, vais ter de fazer tudo o que eu mandar.

— Tudo?

— Já queres voltar atrás?

— Nem pensar.

Estendi-lhe as mãos, como quem se entrega sem grande cerimónia.

Ela riu-se.

— Não sabes no que te meteste.

— És a minha ama e senhora.

— Que horror...

E ficou por ali, meio brincadeira, meio ensaio de algo que ainda não sabíamos o quê.

O tempo começou a pesar quando se aproximou a despedida.

Aquele “até amanhã” tinha sempre um frio escondido. Um intervalo que nenhum de nós sabia bem como atravessar.

A tarde perdeu o ímpeto da manhã. Arrastou-se com calma, sem pressa de chegar a lado nenhum.

Fui para o Centro. Revisei matérias, cumpri tarefas, deixei-me engolir pelo movimento das pessoas, entrando, saindo, vivendo vidas que não eram a minha.

No arquivo, longe do ruído, recuperei o que realmente interessava.

Cada gesto dela. Cada palavra. Cada pausa.

Sorri sozinho mais vezes do que devia.

A noite caiu sem aviso. Trouxe o frio de volta, o de fora.

Regressei a casa.

No quarto, finalmente, o dia assentou.

A caneta desliza agora sobre estas páginas. Devagar. Como se também ela soubesse que há coisas que não se devem apressar.

Ao lado, a fotografia da Dila, encostada ao candeeiro, observa-me em silêncio.

E eu escrevo.

Como quem tenta guardar o que não se deixa prender.


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