Epílogo — Janeiro de 1977

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O que fica quando já não há dias para escrever

Janeiro não acabou de repente. Foi-se desfazendo.

Como um fio que se puxa devagar, sem dar conta de onde começou a soltar-se. Os dias sucederam-se com a aparência tranquila de quem não quer levantar suspeitas, mas por dentro havia já uma mudança irreversível, uma espécie de deslocação silenciosa do que eu era para aquilo que comecei a ser.

Se olhar para trás, não encontro um momento exacto onde tudo começou. Não houve um instante único, um gesto definitivo, uma palavra que resolvesse o que estava em suspenso. Foi antes um acumular de pequenas coisas, olhares que demoraram um segundo a mais, silêncios que deixaram de ser vazios, proximidades que já não cabiam na desculpa da amizade.

A Dila entrou nos meus dias de forma permanente. E quando dei por isso, já não saía.

Não foi só o que dissemos. Foi sobretudo o que não conseguimos dizer. Aquilo que ficou entre as palavras, a crescer, a ganhar forma, a ocupar espaço dentro de mim como uma presença que não precisava de corpo para existir.

Houve dias leves, quase perfeitos, em que tudo parecia alinhado, como se o mundo tivesse decidido facilitar-nos o caminho. E houve outros, mais densos, onde bastava um olhar mal interpretado, uma ausência, um atraso, para tudo ganhar um peso desproporcionado.

Aprendi, sem ninguém me ensinar, que gostar de alguém é isto, uma espécie de inquietação constante, uma alegria que não é inteira, um medo que não se explica. É querer estar e, ao mesmo tempo, temer o que isso implica. É avançar e recuar no mesmo gesto.

Janeiro foi isso. Um começo que não se assumiu como tal, mas que já não pode voltar atrás.

Entre nós, ficou dito o essencial. Não com a clareza que talvez fosse necessária, mas com a verdade suficiente para mudar tudo. Sabemos o que sentimos. Sabemos também o que nos impede. E vivemos nesse intervalo, onde nada está resolvido, mas tudo já está comprometido.

É um lugar estranho, este.

Não somos apenas amigos. Ainda não somos outra coisa que possamos dizer sem receio. E, no entanto, quando estou com ela, nada disso importa. Há uma certeza que não precisa de definição.

Talvez seja isso que mais me surpreende, perceber que nem tudo precisa de estar claro para ser verdadeiro.

Os dias ensinaram-me mais do que eu estava preparado para aprender. Sobre ela, sim. Mas sobretudo sobre mim. Sobre os meus medos, os meus exageros, a forma como sinto demasiado e penso tarde demais. Sobre a dificuldade em aceitar o silêncio do outro sem o transformar numa ameaça.

E, ainda assim, continuo.

Porque há qualquer coisa nela que me chama, não com urgência, mas com uma persistência que não consigo ignorar. Como uma melodia que se repete, diferente cada vez, mas sempre reconhecível.

Janeiro termina, mas não fecha nada.

Fica em aberto.

Como um livro deixado sobre a mesa, com a página marcada a meio, à espera de ser retomado. E eu sei que, quando virar essa página, já não serei exactamente o mesmo.

Porque há coisas que, mesmo quando ainda não aconteceram por completo, já nos mudaram.

E a Dila… a Dila já me mudou.




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