O peso de um dia que não aconteceu

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Domingo, 30 de Janeiro de 1977

O dia amanheceu devagar, como se o próprio tempo tivesse perdido a vontade de avançar. Da janela do meu quarto chegava uma luz pálida, dissolvida numa névoa fria que cobria a manhã. O vidro estava embaciado e, quando lhe toquei com a palma da mão, aquele frio húmido levou-me imediatamente até ela. À Dila.

Recordei a delicadeza da sua mão fria entre as minhas, aquele toque leve que, sem eu perceber como, conseguia aquecer-me por dentro como nenhuma lareira ou cobertor alguma vez aquecera. Encostei a testa ao vidro e fiquei assim, imóvel, a olhar a rua indistinta enquanto o meu reflexo se confundia com a bruma lá fora. Por momentos, nem sabia se observava o mundo ou apenas a sombra cansada de mim próprio.

Escolhi não pensar.

Ou talvez escolhesse apenas sobreviver ao dia.

Fechei o diário da noite anterior com um cuidado quase cerimonial e arrumei-o na gaveta, como quem tenta prender sentimentos entre madeira e silêncio. Mas certas coisas recusam-se a ser guardadas. A fotografia dela continuava viva dentro de mim, suspensa algures entre a memória e a saudade. Os livros espalhados pelo quarto pareciam vultos imóveis, testemunhas mudas daquele domingo vazio. Não tive forças para lhes tocar. Havia em mim um cansaço estranho, não do corpo, mas da alma.

O dia anterior permanecia agarrado aos meus pensamentos como nevoeiro agarrado às árvores. Sentia-me incompleto, como se me faltasse qualquer coisa essencial para respirar normalmente. A ausência dela tinha peso. Um peso invisível, mas constante. A rua, vista da janela, perdera encanto. As pessoas passavam sem rosto, sombras apressadas que nada significavam para mim.

A manhã arrastou-se sem destino. As horas tombavam lentamente umas sobre as outras, iguais, ocas, sem cor. A tarde trouxe o mesmo “ram-ram” cansado, a mesma monotonia que parecia mastigar o tempo em silêncio. Não havia amigos, não havia planos, não havia sequer vontade de sair e enfrentar o mundo lá fora. Tudo me parecia distante, inútil, repetido. Como se os caminhos da vila já não conduzissem a lado nenhum sem a esperança de encontrar o vulto dela numa esquina qualquer.

Ainda assim, saí.

O corpo precisava de movimento, embora a alma implorasse recolhimento. Caminhei sem vontade, deixando os passos escolherem por mim as ruas conhecidas. O mundo parecia vazio. Não se via vivalma. As casas fechadas guardavam o calor das famílias e eu sentia-me estrangeiro naquele domingo frio, como alguém esquecido entre a tarde e a noite.

Cheguei ao Alto do Depósito e sentei-me no sítio de sempre. O vento subia devagar pelo monte e trazia consigo um silêncio antigo. Fiquei ali parado, olhando o horizonte sem realmente o ver. Aos poucos, as imagens começaram a regressar. O sorriso dela surgiu-me na memória com uma nitidez cruel. Aquele sorriso capaz de iluminar um instante inteiro parecia agora distante, enfraquecido pela ausência, quase engolido pelo tempo.

Baixei os olhos para o chão, mas os pensamentos continuavam suspensos algures acima de mim. Levantei-me e continuei a caminhar pelos velhos percursos que a memória baptizara: a “pedra” junto do Depósito, o “recanto” no Monte, os atalhos onde cada silêncio tinha ficado preso a um momento dela. Cada lugar guardava um pedaço daquilo que eu sentira. Cada curva do caminho parecia repetir o seu nome sem voz.

Os passos ecoavam no empedrado húmido enquanto eu escondia suspiros que nem coragem tinham para nascer por inteiro. Havia uma tristeza funda naquele cair da tarde, uma tristeza mansa, resignada, como chuva fina sobre campos abandonados.

E a noite chegou sem aviso.

Não dei por ela entrar. Apenas percebi que tudo escurecera à minha volta. Continuei a andar, indiferente às luzes, às horas, ao frio. Como se o meu destino naquele dia fosse apenas esse: atravessar o tempo sem sentir verdadeiramente nada, anestesiado de emoções, perdido numa espécie de vazio onde até a saudade doía em silêncio.


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