Onde o dia não chega

Sábado, 29 de Janeiro de 1977

Hoje o dia nasceu sem esperança. O céu, fechado sobre si mesmo, parecia carregar um peso antigo, daqueles que não caem em chuva nem se desfazem no vento. A geada repousava sobre os campos como um lençol silencioso, cobrindo tudo de uma brancura fria e imóvel. Quando saí para a rua, o inverno entrou-me pelos ossos devagar, como se conhecesse o caminho exacto até ao lugar onde a saudade mais dói.

Mas não foi o frio que me venceu.

Foi a ausência.

Já não havia pressa em mim. Nem aquele impulso quase feliz que me fazia caminhar depressa até à paragem, com o coração acordado antes do resto do corpo. Hoje, a Dila não estaria lá. E essa certeza tornou a manhã mais longa do que todas as outras.

Mesmo assim, segui o mesmo caminho de sempre. Os pés conheciam-no de cor. O corpo avançava sozinho, automático, obediente. Mas o resto de mim ficou para trás, perdido algures entre a memória da sua voz e o vazio daquele dia.

A escola recebeu-me sem verdade. As paredes eram as mesmas, os corredores também, mas tudo parecia distante, coberto por uma espécie de nevoeiro interior. As vozes dos professores chegavam abafadas, irreais, como se falassem para outro rapaz sentado noutra sala qualquer. Eu estava ali apenas pela aparência do meu corpo.

Quando apareceu um furo, saí sem pensar. Precisava de fugir daquela sensação de estar preso dentro de mim mesmo. Caminhei sem destino, apenas guiado pelos lugares onde ainda ontem ela existia ao meu lado.

Os caminhos eram os mesmos.

As árvores continuavam imóveis junto às bermas.

As pedras do chão guardavam ainda a humidade da manhã.

Mas faltava qualquer coisa invisível que transformava tudo. Uma presença que não se via e que, mesmo ausente, ocupava o mundo inteiro.

No trolley, sentei-me junto à janela e encostei a testa ao vidro frio. Senti aquele gelo atravessar-me lentamente, como se quisesse acordar alguma coisa dentro de mim. Lá fora, as ruas escorriam numa sucessão de rostos apressados, passos rápidos, vidas desconhecidas. Pessoas que iam e vinham sem imaginarem que, naquele instante, um rapaz carregava dentro do peito um silêncio maior do que a cidade inteira.

Olhei o meu reflexo no vidro.

Pareceu-me cansado.

Distante.

Quase estranho.

Como se eu próprio começasse a desaparecer.

Cheguei ao centro e deixei-me arrastar pelas horas. Entrei em salas, subi escadas, desci corredores. As minhas mãos mexiam em papéis, alinhavam objectos, cumpriam tarefas pequenas e inúteis. Tudo continuava a funcionar à minha volta, mas dentro de mim o tempo tinha parado.

Havia ruído em toda a parte.

Conversas.

Portas.

Passos.

Mas no fundo do meu peito existia apenas suspensão.

Uma espécie de inverno interior.

E foi então que pensei no Monte.

Não como quem recorda um lugar, mas como quem procura abrigo. Pensei naquele espaço onde tantas vezes a conseguia sentir mesmo quando ela não estava. Não surgiu uma imagem clara. Foi apenas uma sensação leve e breve, como o calor de uma mão que nos toca ao de leve antes de desaparecer.

E bastou isso para me ferir ainda mais.

Quando a noite caiu, voltei para casa sem resistência. Não havia nada para esperar daquele dia. Nem da rua. Nem das horas. Caminhei devagar, como quem regressa não a um lugar, mas ao próprio cansaço.

Deitei-me vestido.

O candeeiro da rua desenhava sombras lentas no tecto do quarto. Fiquei a observá-las em silêncio, sem vontade de lhes encontrar forma ou sentido. Talvez porque há noites em que até os pensamentos desistem de procurar respostas.

Depois abri o diário.

Folheei páginas antigas com cuidado, quase como quem toca em feridas que já aprendeu a estimar. Procurei qualquer frase, qualquer memória, qualquer pequena prova de que aquele dia tinha servido para alguma coisa.

Mas não encontrei nada.

E então, entre duas folhas gastas pelo tempo, apareceu a fotografia.

O rosto dela.

O sorriso quieto.

Os olhos onde eu tantas vezes tinha encontrado lugar para existir.

Fiquei imóvel.

E, pela primeira vez desde manhã, senti o vazio afastar-se um pouco.

Como se aquele pequeno pedaço de papel tivesse devolvido calor ao mundo.

Hoje aprendi que há dias que não se vivem.

Há dias que apenas se suportam, em silêncio, à espera que passem.

Mas aprendi também que, mesmo nos dias mais frios da alma, basta um rosto guardado no lugar certo da memória para impedir que tudo dentro de nós se perca para sempre.

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