Contas certas

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Domingo, 1 de Maio de 1977

O Dia do Trabalhador amanheceu calmo.

Sem aulas, não havia hora marcada nem a pressa habitual de chegar à paragem. Ainda assim, despertei cedo. Era curioso como o corpo já se habituara ao ritmo das semanas de escola. Tomei o pequeno-almoço, lavei a cabeça e fiquei algum tempo a ler, mas as palavras entravam-me pelos olhos sem deixarem grande rasto. A cabeça vagueava por outros sítios.

Nos últimos tempos começara a reparar que os dias já não se dividiam apenas entre a escola, o DIFI e a Dila. Havia agora pequenas preocupações que antes nunca existiam. Dinheiro, responsabilidades, projectos, contas. Eram coisas de adultos que, sem pedir licença, começavam lentamente a entrar na minha vida.

Talvez fosse apenas crescer.

Ao almoço, o meu pai comentou as comemorações do 25 de Abril e o significado daquele dia. Ouvi-o com atenção. Há poucos anos, tudo aquilo teria sido apenas conversa de adultos. Agora começava a perceber que o mundo não mudava apenas por causa dos grandes acontecimentos. Mudava também pelas pequenas escolhas de cada pessoa.

À tarde encontrei-me com os colegas.

Levávamos connosco os autocolantes do DIFI. A ideia era simples: percorrer algumas ruas do Porto e vendê-los para ajudar nas despesas do grupo.

Ao princípio, ninguém parecia disposto a comprar.

Uns sorriam por simpatia e seguiam caminho. Outros nem sequer paravam. Havia quem nos olhasse com curiosidade e quem fingisse não nos ver.

— Hoje vai ser complicado... — comentou um dos colegas.

Encolhi os ombros.

— Se desistirmos agora, é que não vendemos nenhum.

Continuámos.

O cansaço começou a sentir-se muito antes dos resultados aparecerem. As pernas pesavam, a garganta secava de tanto repetir a mesma explicação e, por momentos, parecia que a cidade inteira tinha decidido dizer-nos que não.

Só já perto do fim da tarde a sorte mudou.

Uma venda chamou outra.

As pessoas começaram a parar com mais frequência e, pouco a pouco, o dinheiro foi aparecendo.

Não era muito.

Mas era suficiente para regressarmos com a sensação de que o esforço tinha valido a pena.

Quando nos despedimos já passava das oito.

Regressei a casa cansado.

Enquanto jantava, a minha mãe perguntou como tinha corrido o dia.

— Melhor no fim do que ao princípio.

Ela sorriu.

— Às vezes é assim que a vida funciona.

Depois do jantar sentei-me à secretária.

Espalhei os autocolantes que sobravam, as folhas onde fazia os registos e o dinheiro das vendas.

Gostava de ter tudo certo.

Fui contando uma vez.

Depois outra.

No fim, o resultado não batia certo.

Voltei a contar.

Separava as notas, alinhava as moedas, conferia os apontamentos.

Nada.

Faltava dinheiro.

Fiquei imóvel durante alguns segundos.

Não era apenas o valor.

Era a ideia de que alguma coisa me tinha escapado.

Pensei se me teria enganado num troco, se alguma nota teria ficado esquecida num bolso ou se teria feito mal alguma conta.

Voltei ao princípio.

Outra vez.

Continuei sem encontrar a resposta.

Fechei lentamente o caderno.

Sorri para mim próprio.

Havia poucos meses, provavelmente teria encolhido os ombros e deixado a questão para o dia seguinte.

Agora não.

As contas incompletas incomodavam-me.

Talvez porque começava a descobrir que crescer também significava isto: perceber que as pequenas responsabilidades pesam tanto como as grandes quando sentimos que dependem de nós.

Apaguei a luz da secretária e fui deitar-me.

Lá fora, Maio começava.

Sem o saber, também eu entrava no último mês de uma vida que, até então, me parecera simples.


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