Os dias que parecem iguais

 

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Segunda-feira, 2 de Maio de 1977

Hoje tudo regressou ao lugar habitual.

O despertador, o pequeno-almoço tomado quase em silêncio, a pasta dos livros e a caminhada até à paragem. Depois do domingo, a vila voltava a vestir a roupa dos dias úteis e as pessoas recuperavam a pressa de sempre.

A Dila já lá estava.

Sorriu assim que me viu aproximar.

— Hoje não chegaste atrasado.

— Ainda pensei dar-te esse gosto.

Ela abanou a cabeça, divertida.

— Já nem acreditava.

O trólei chegou pouco depois. Encontrámos dois lugares lado a lado, junto à janela. Durante os primeiros minutos falámos das coisas pequenas de todos os dias, um teste que se aproximava, um professor que insistia em complicar o que parecia simples, um colega que conseguia adormecer em quase todas as aulas.

Era fácil conversar com ela.

Mesmo quando não havia assunto.

Por vezes bastava estarmos sentados um ao lado do outro, vendo a cidade deslizar para trás das janelas.

A certa altura passou por nós uma jovem mãe, empurrando um carrinho de bebé enquanto esperava para atravessar a rua.

Olhei distraidamente.

Sem saber porquê, a imagem ficou-me presa durante alguns instantes.

Ainda há poucas semanas teria sido apenas mais uma pessoa na rua. Agora já não. A história inventada do Manel deixara qualquer coisa dentro de mim que ainda não desaparecera. Sempre que via uma mulher grávida, um casal com um filho pequeno ou um carrinho de bebé, lembrava-me daquela conversa absurda que acabara por me obrigar a pensar em coisas que julgava demasiado distantes da minha idade.

A Dila seguiu naturalmente o meu olhar.

— Que foi?

Sorri.

— Nada... lembrei-me daquela maluqueira do Manel.

Ela também sorriu.

— Ainda pensas nisso?

— Às vezes.

— Eu também.

Ficámos alguns segundos em silêncio.

Depois ela disse, quase a rir de si própria:

— Durante dois ou três dias ainda fiquei a imaginar como seria a rapariga. Coitada... nem a conhecemos.

— Nem sabemos se existe.

— Pois...

Olhou pela janela.

— Mas deu-nos um bom susto.

Assenti.

— Fez.

Nenhum de nós acrescentou mais nada.

O trólei continuava o seu caminho, embalando as conversas dos passageiros. Havia assuntos que já não precisavam de muitas palavras. Bastava sabermos que o outro também tinha pensado neles.

Ao chegarmos ao Bonfim, caminhámos devagar até ao portão do seu liceu.

— Até logo — disse ela.

— Até logo.

Vi-a afastar-se pelo recreio. Continuava a andar com o mesmo passo leve de sempre. Por momentos ocorreu-me que havia coisas que pareciam não mudar nunca.

Mas era apenas uma impressão.

As aulas passaram sem novidade.

Quando terminaram, fui esperá-la, como fazia todos os dias. Encontrámo-nos junto ao portão e regressámos juntos. A conversa recomeçou exactamente onde ficara de manhã, sem esforço, como se as horas de separação nunca tivessem existido.

Falámos de livros, de férias, dos planos para o Verão que ainda parecia distante.

Cheguei a casa, almocei e, depois de descansar um pouco, voltei ao DIFI.

Ainda trazia na cabeça as contas do dia anterior. Voltei a conferir apontamentos, somei valores, procurei o erro com paciência. Não aparecia.

Ao fim da tarde dei por mim a rir sozinho.

Passara horas à procura de uns escudos que provavelmente acabariam por aparecer no sítio mais evidente.

Às vezes era assim.

Quanto mais procurava uma resposta, mais ela parecia esconder-se.

Regressei a casa ao princípio da noite.

Jantámos em família, vi um pouco de televisão e, antes de me deitar, ainda pensei nas palavras da Dila.

"Deu-nos um bom susto."

Talvez tivesse razão.

Ou talvez alguns sustos não acabem verdadeiramente quando descobrimos que eram mentira.

Há mentiras que passam.

Outras deixam perguntas que ficam.


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