Pequenas certezas
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Terça-feira, 3 de Maio de 1977
A manhã começou como tantas outras.
Quando cheguei à paragem, a Dila já lá estava. Sorriu-me de imediato, como se aquele sorriso fosse a forma mais simples de dizer "bom dia". Sorri também. Havia gestos que, de tão repetidos, já faziam parte de nós.
— Dormiste bem? — perguntou enquanto caminhávamos para o trole.
— Mais ou menos. Andei às voltas com umas contas do DIFI.
— Ainda não descobriste o erro?
— Ainda não.
Ela riu-se.
— Tu és capaz de passar uma semana à procura de meia dúzia de escudos.
— Não são os escudos. É não saber onde falhei.
Olhou para mim de lado.
— És teimoso.
— Sou.
— Já sabia.
Entrámos no trólei quase vazio. Sentámo-nos lado a lado. A conversa foi correndo naturalmente, saltando de assunto em assunto sem destino certo.
Ela falou-me de uma composição que teria de escrever.
— Ainda não faço ideia do que vou inventar.
— Inventa qualquer coisa bonita. Os professores gostam sempre das coisas bonitas.
— Tu achas?
— Acho. Mesmo quando fingem que não.
Ela riu-se.
Gostava daquele riso. Não era alto nem chamativo. Era discreto, quase envergonhado, mas bastava ouvi-lo para o dia parecer mais leve.
Ao chegarmos aos liceus despedimo-nos como sempre.
Durante a manhã, entre uma aula e outra, encontrei o Manuel.
Continuava igual a si próprio, sempre pronto para uma graça.
— Então, contabilista... já apareceram os milhões?
— Nem um tostão.
— Tens jeito para descobrir mistérios. Descobre lá esse.
Ri-me.
A conversa depressa passou para outras coisas, mas dei comigo a pensar que havia dias em que tudo parecia exactamente igual ao dia anterior.
E, no entanto, não era.
Havia pequenas mudanças que só mais tarde se tornavam visíveis.
Quando as aulas terminaram fui esperá-la.
Saiu do liceu acompanhada por duas colegas. Assim que me viu, despediu-se delas e veio ao meu encontro.
— Estás à espera há muito?
— Uns cinco minutos.
— Então não esperaste quase nada.
Começámos a caminhar.
Durante a viagem falou-me de uma professora que insistia em chamar a atenção da turma por tudo e por nada.
Eu imitava-lhe a voz.
Ela ria.
Por momentos esquecemos completamente o resto do mundo.
Ao sair do trólei, seguimos ainda algum tempo lado a lado.
Já perto da rua onde os nossos caminhos se separavam, vimos um casal jovem atravessar a estrada. Levavam um menino pequeno pela mão. O rapaz soltou-se e correu dois ou três passos à frente. O pai chamou-o imediatamente.
A Dila sorriu.
— Nunca param quietos.
— Quem?
— Os miúdos.
Olhei para trás, acompanhando a pequena cena.
— Acho que nasceram para correr.
Ela ficou a observá-los até desaparecerem na esquina.
— Deve dar muito trabalho.
— Deve.
Nenhum de nós disse mais nada.
Poucos meses antes teríamos passado por aquela família sem reparar. Agora já não era bem assim. A história do Manel continuava, de vez em quando, a regressar de formas inesperadas, não como uma preocupação, mas como uma porta que alguém abrira e que já não era possível fechar completamente.
Despedimo-nos.
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Cheguei a casa, almocei e, depois de descansar um pouco, fui novamente para o DIFI.
A tarde passou depressa entre papéis, apontamentos e conversas com os colegas. Aos poucos, os problemas das últimas semanas começavam finalmente a perder importância. Havia ainda muito para resolver, mas pela primeira vez sentia que o grupo voltava a encontrar algum equilíbrio.
Regressei a casa ao princípio da noite.
Depois do jantar sentei-me junto da janela do meu quarto.
Lá fora, Maio começava a vestir as árvores de um verde mais vivo. O ar trazia já um perfume diferente, quase de Verão.
Pensei na Dila.
Sorri sem dar por isso.
Havia dias que não precisavam de acontecer grandes coisas para serem felizes.
Na altura, parecia-me que esses dias eram os mais vulgares de todos.
Só muito mais tarde compreenderia que eram precisamente esses os que mereciam ser guardados com mais cuidado.
Comentários
Enviar um comentário