O que fica fora do lugar

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Quarta-feira, 4 de Maio de 1977

A manhã começou sem pressa.

Quando cheguei à paragem, a Dila já estava lá, como sempre. Havia qualquer coisa no ar que não sabia ainda o quê. Não era tristeza, nem alegria. Era apenas uma leve diferença, quase imperceptível, como se o mundo tivesse sido movido alguns milímetros durante a noite.

— Estás calado — disse ela assim que me aproximei.

— Não estou calado.

— Estás sim.

Sorri.

— Estou a pensar.

— Em quê?

Encolhi os ombros.

— Em coisas.

Ela não insistiu. Conhecia-me demasiado bem para forçar respostas que eu próprio ainda não tinha.

Entrámos no troleicarro e sentámo-nos lado a lado. O movimento habitual começou, pessoas a entrar, portas a fechar, o motor a ganhar vida, a cidade a deslizar lentamente pela janela.

Durante algum tempo não falámos.

Não era um silêncio desconfortável. Era um silêncio antigo, daqueles que já tinham aprendido a existir entre nós sem pesar.

A certa altura, passou uma mulher grávida junto à paragem onde o trole tinha parado num sinal.

Olhei sem querer.

E demorei um pouco mais do que devia.

A Dila reparou.

— Outra vez isso?

Olhei para ela.

— Isso o quê?

— Essas coisas. Grávidas, bebés, carrinhos…

Sorri, meio envergonhado.

— Não sei… ultimamente reparo mais.

Ela ficou a olhar para mim, sem julgar, mas com uma curiosidade séria.

— Porquê?

Pensei alguns segundos antes de responder.

— Não sei se é por causa daquela conversa do Manel… ou se é outra coisa qualquer.

Ela encostou-se ligeiramente no banco.

— Eu também penso nisso às vezes.

— Pensas?

— Sim. Mas não da mesma maneira que tu.

Houve uma pausa curta.

— E como pensas tu?

Ela hesitou.

— Não sei explicar. Parece… longe. Mas ao mesmo tempo não é.

Voltei a olhar pela janela.

A cidade passava como sempre passou. Mas havia dias em que tudo parecia ligeiramente deslocado, como se estivéssemos a olhar para o mesmo mundo com olhos diferentes.

Quando chegámos ao Bonfim, saímos juntos.

— Hoje estás estranho — disse ela antes de se afastar.

— Não estou estranho.

— Estás um bocadinho.

Sorriu.

— Mas não faz mal.

E foi-se embora.

Fiquei a vê-la desaparecer no meio dos colegas.

Durante a manhã tentei concentrar-me nas aulas. Consegui apenas em parte. Havia pensamentos que insistiam em voltar.

Não eram ideias claras.

Eram imagens.

Uma rua.

Um carrinho de bebé.

Uma conversa que não existia.

E, por trás de tudo isso, uma sensação difícil de explicar, como se estivesse a começar a olhar para o mundo de outro lugar.

Quando as aulas terminaram fui esperá-la.

Veio ter comigo como sempre.

— Afinal não estavas tão estranho — disse.

— Já me passou.

— Passa-te depressa.

— Nem sempre.

Caminhámos lado a lado até ao trólei.

Durante o percurso ela falou de um teste que tinha corrido mal. Eu ouvia, mas parte de mim continuava a pensar na pergunta que ela me fizera de manhã.

“Porquê?”

Não tinha resposta.

Ou talvez tivesse demasiadas.

Ao chegarmos ao ponto onde nos costumávamos separar, ela parou um instante.

— Amanhã vais estar normal outra vez?

Sorri.

— Acho que sim.

— Ainda bem.

E despediu-se.

Fiquei sozinho mais alguns segundos do que o habitual.

Depois segui caminho.

Em casa, o resto do dia decorreu sem acontecimentos importantes. Almocei, estive no DIFI, tratei de pequenas tarefas que exigiam mais paciência do que energia. Nada de novo.

Mas havia uma diferença.

Mesmo nas coisas pequenas, havia qualquer coisa que parecia ligeiramente fora do lugar.

Como se o mundo tivesse começado a pedir respostas que ainda não sei dar.

À noite, antes de me deitar, voltei a pensar na Dila.

E, sem perceber bem porquê, pensei também na forma como ela me olhou no troleicarro.

Não havia nada de errado nesse olhar.

Mas talvez fosse isso o mais estranho.

Às vezes, o que muda uma história não é o que acontece.

É a forma como começamos a reparar no que sempre esteve lá.


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