O peso das pequenas coisas

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Quinta-feira, 5 de Maio de 1977

Acordei com a sensação de que a semana já ia longa.

Não por cansaço das aulas, mas porque os dias pareciam trazer sempre qualquer coisa nova para pensar. Nada de extraordinário. Apenas aquelas pequenas inquietações que surgem sem serem convidadas e que acabam por nos acompanhar durante horas.

Quando cheguei à paragem, a Dila apareceu quase ao mesmo tempo.

— Hoje fomos pontuais os dois.

— É raro acontecer.

— Então aproveitemos.

Rimo-nos e subimos para o troleicarro.

O sol entrava pelas janelas e tornava a viagem mais agradável. O Inverno parecia definitivamente para trás. As pessoas já traziam roupa mais leve e até a vila parecia respirar de maneira diferente.

— Sabes uma coisa? — disse ela de repente.

— Diz.

— Gosto destes dias.

— Dos dias de sol?

— Não. Destes dias... assim.

Olhou pela janela à procura das palavras.

— Em que parece que não acontece nada.

Fiquei a pensar no que dissera.

— São os melhores.

Ela olhou para mim e sorriu.

— Também acho.

Durante alguns minutos falámos dos exames que se aproximavam, das férias de Verão e das coisas que gostaríamos de fazer quando a escola terminasse.

— E tu? — perguntou. — O que gostavas de fazer nas férias?

Pensei um pouco.

— Ainda não sei. Talvez ler mais... passear... fazer mais coisas no DIFI.

Ela fez uma expressão divertida.

— Tu e o DIFI...

— Faz parte da minha vida.

— Eu sei.

Disse-o sem qualquer sombra de ciúme ou reprovação. Era apenas uma constatação.

Ao chegarmos ao seu liceu, despedimo-nos.

As aulas passaram lentamente. Entre apontamentos e explicações dos professores, dei por mim várias vezes a olhar pela janela. Não porque estivesse distraído da matéria, mas porque começava a reparar em coisas que antes nunca me prendiam a atenção.

Os alunos mais velhos.

As raparigas do último ano.

Os professores.

Cada um parecia caminhar com uma segurança que eu ainda não possuía.

Pela primeira vez ocorreu-me que, dentro de poucos anos, também nós deixaríamos de ser "os mais novos". A ideia trouxe-me uma estranha mistura de curiosidade e receio.

À saída fui esperá-la.

Quando apareceu, vinha animada.

— Tive boa nota no teste!

— Então hoje pagas tu o lanche.

Ela deu-me uma palmada leve no braço.

— És mesmo interesseiro.

— Só um bocadinho.

Viemos a rir durante boa parte da viagem.

Ao passarmos por uma montra onde estavam expostos carrinhos de bebé, berços e roupa de criança, ambos olhámos na mesma direcção.

Foi apenas um instante.

Depois olhámo-nos um ao outro e desatámos a rir.

— Outra vez? — perguntou ela.

— Acho que isto já ficou uma mania.

— A culpa continua a ser do Manel.

— Continua.

A conversa morreu ali, substituída por um silêncio confortável.

Curiosamente, já não havia embaraço naquele assunto. A falsa história perdera o susto inicial, mas deixara qualquer coisa dentro de nós. Como uma pedra lançada à água, as ondas iam-se afastando lentamente do ponto onde tudo começara.

Despedimo-nos na nossa paragem.

Ela seguiu pelo passeio, voltou-se ainda uma vez e acenou.

Retribuí o gesto.

Vi-a afastar-se até desaparecer na esquina.

Naquele momento pareceu-me impossível imaginar um dia em que aquela despedida deixasse de fazer parte da minha vida.

À tarde estive ocupado com os assuntos do DIFI. As reuniões, os papéis e as responsabilidades absorviam-me cada vez mais. Sentia gosto naquilo que fazia, mas começava também a perceber que assumir compromissos significava abdicar de parte do tempo que antes pertencia apenas à despreocupação.

Quando regressei a casa já anoitecia.

Depois do jantar sentei-me algum tempo à secretária sem abrir nenhum livro.

Fiquei simplesmente a pensar.

Era curioso.

Há apenas alguns meses, julgava que crescer era uma questão de idade.

Agora começava a suspeitar que crescer era outra coisa.

Era descobrir que a vida nos faz perguntas muito antes de estarmos preparados para responder-lhes.


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