Guardo o Teu Sorriso Comigo

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Sexta-feira, 6 de Maio de 1977

A sexta-feira começou com o mesmo ritual de sempre.

Quando cheguei à paragem, a Dila ainda não tinha aparecido. Esperei apenas alguns instantes. Vi-a surgir ao fundo da rua com o passo apressado, segurando os livros contra o peito.

— Pensei que hoje fosses tu a esperar por mim.

— Quase.

Parou à minha frente, ainda a recuperar o fôlego.

— A culpa foi da minha mãe. Encontrou uma meia sem par e resolveu procurá-la mesmo quando eu já ia a sair.

— E apareceu?

— Não.

— Então a meia ganhou.

Ela riu-se.

— Hoje estás inspirado.

Entrámos no troleicarro.

A viagem decorreu entre pequenas conversas e brincadeiras. Falámos dos professores, dos testes e de um colega que conseguira adormecer durante uma aula inteira sem que o professor desse por isso.

A certa altura, ela olhou para mim com um sorriso divertido.

— Sabes uma coisa?

— Diz.

— Gosto mais de ti quando me fazes rir.

Olhei para ela, surpreendido.

— Então também há dias em que não gostas?

Ela percebeu logo a armadilha.

— Não foi isso que eu disse.

— Foi quase.

Abanou a cabeça.

— Tu percebeste muito bem.

— Percebi.

Ficámos ambos a sorrir.

Era esta a nossa maneira de conversar. Bastava uma frase para começarmos uma pequena disputa onde nenhum queria verdadeiramente ganhar.

Chegamos ao Bonfim e caminhámos lado a lado até ao portão do Rainha.

Antes de entrar, ela voltou-se.

— Até logo.

— Até logo.

Passei a manhã entre aulas e intervalos.

Durante um dos furos encontrei o Manel. Continuava igual a si próprio, sempre incapaz de levar a vida demasiado a sério.

— Então, filósofo...

— Agora sou filósofo?

— Tens andado com um ar de quem anda a descobrir os segredos do Universo.

— Não exageres.

— Está bem. Ficas só pelos segredos das raparigas.

Dei-lhe um leve empurrão.

— Cala-te.

Ele riu-se.

— Ainda bem que voltaste ao normal.

Não lhe perguntei o que queria dizer com aquilo.

Talvez tivesse razão. Talvez os dias anteriores me tivessem encontrado mais calado do que o costume.

Quando as aulas terminaram fui esperar a Dila.

Encontrámo-nos no lugar de sempre.

— Demorei muito?

— Dois minutos.

— Então hoje fui eu que te fiz esperar.

— Posso suportar esse sofrimento.

Ela sorriu e começámos o caminho de regresso.

Durante a viagem falou-me de uma composição que o professor elogiara.

— Afinal serviu de alguma coisa aquilo que me disseste.

— O quê?

— Inventar qualquer coisa bonita.

— Vês? Os professores gostam sempre.

Ela abanou a cabeça.

— Não aprendes.

Já perto da nossa paragem, um casal entrou no trólei com duas crianças pequenas. Os miúdos não conseguiam estar quietos e a mãe ia chamando a atenção de um enquanto o pai segurava o outro ao colo.

A Dila observou a cena com ternura.

— Devem chegar a casa completamente cansados.

— Mas parecem felizes.

Ela assentiu.

— Parecem.

Foi apenas isso.

Não falámos mais sobre o assunto.

Já não era necessário.

Algumas semanas antes, uma cena daquelas teria passado despercebida. Agora, sem darmos por isso, ambos parávamos para olhar. Não porque estivéssemos a sonhar com esse futuro, mas porque o futuro deixara de ser uma palavra distante.

Despedimo-nos.

Vi-a seguir o seu caminho e continuei para casa.

Ao fim da tarde fui para a Academia.

O treino exigiu mais do que o habitual. Gostava daquela sensação de cansaço físico. Enquanto treinava, a cabeça deixava finalmente de correr atrás de pensamentos.

No dojo tudo era simples.

Ou o golpe saía bem.

Ou não saía.

A vida cá fora era diferente.

Nem sempre havia respostas tão claras.

Quando regressei a casa, jantei com a família e passei algum tempo a ver televisão.

Antes de me deitar, lembrei-me da frase da Dila.

"Gosto mais de ti quando me fazes rir."

Sorri sozinho.

Talvez fosse esse o maior elogio que alguma vez me tinha feito.

E, sem saber porquê, prometi a mim mesmo que nunca deixaria de a fazer rir.

Há promessas que fazemos com toda a sinceridade.

O problema é que a vida, por vezes, pede-nos um preço demasiado alto para as conseguirmos cumprir.


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