Um lugar que já era nosso

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Sábado, 7 de Maio de 1977

Os sábados têm um ritmo diferente.

As aulas eram de manhã e, por isso, a cidade parecia acordar mais devagar. Quando cheguei à paragem, a Dila ainda não tinha aparecido. Encostei-me ao poste e fiquei a observar as pessoas que passavam. Pouco depois vi-a aproximar-se.

— Hoje fui eu que te fiz esperar.

— Nem um minuto.

— Então ainda fui a tempo.

Sorriu, ajeitando uma madeixa de cabelo que o vento insistia em trazer-lhe para o rosto.

Entrámos no trólei e seguimos viagem.

Ao sábado havia menos passageiros. Conseguimos sentar-nos logo lado a lado. Durante algum tempo limitámo-nos a olhar pela janela.

— Sabes... — disse ela de repente.

— Hum?

— Gosto dos sábados.

— Porque as aulas acabam mais cedo?

— Também.

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Mas principalmente porque parece que o dia ainda fica todo à nossa frente.

Olhei para ela.

— Nunca tinha pensado nisso.

— Eu penso muitas vezes.

Sorri.

— Tu pensas em muitas coisas.

— E tu não?

— Acho que comecei há pouco tempo.

Ela franziu ligeiramente a testa, como se procurasse perceber o que eu queria dizer.

— Antes vivia os dias.

— E agora?

Olhei novamente para a rua.

— Agora... às vezes penso neles enquanto os estou a viver.

Ela não respondeu logo.

Depois disse apenas:

— Também me acontece.

Foi uma conversa breve.

Mas ficou a ecoar dentro de mim durante toda a manhã.

Chegados ao Porto, seguimos até ao portão do seu liceu.

— Até logo.

— Até logo.

As aulas passaram depressa.

Num dos intervalos encontrei o Manel. Conversámos alguns minutos sobre o DIFI e sobre os problemas que, felizmente, começavam a ficar para trás.

— Ainda bem que isto está a acalmar — comentou ele.

— Também já fazia falta.

No último tempo dei por mim a olhar repetidamente para o relógio.

Ao sábado acontecia sempre isso.

Sabia que, dali a pouco, iria voltar a encontrá-la.

Quando a campainha tocou, saí quase ao mesmo tempo que os outros alunos.

Esperei junto ao portão.

A Dila apareceu poucos minutos depois.

Assim que me viu, sorriu.

Era um gesto tão simples que nunca pensei que pudesse, um dia, deixar de existir.

Começámos o caminho de regresso.

Falámos pouco.

Não porque faltassem assuntos.

Mas porque já não precisávamos de encher todos os silêncios com palavras.

Havia uma tranquilidade nova entre nós.

Como se caminhar lado a lado fosse, por si só, uma forma de conversa.

Ao passarmos junto ao Jardim de São Roque, o trólei parou por causa do trânsito.

Limitámo-nos a olhar para o jardim através do gradeamento.

As árvores estavam completamente vestidas de verde e algumas crianças corriam atrás de uma bola.

A Dila ficou a observá-las.

— Lembras-te de quando também brincávamos assim?

— Parece que foi há pouco tempo.

— E foi.

Sorri.

— Às vezes tenho a impressão de que crescemos depressa demais.

Ela olhou para mim.

— Achas?

Assenti.

— Há um ano preocupávamo-nos com coisas completamente diferentes.

Ela ficou pensativa.

— É verdade.

O trólei, momentos depois, seguiu caminho.

Nenhum de nós desenvolveu mais aquela ideia.

Talvez porque ainda não soubéssemos exactamente o que significava crescer.

Despedimo-nos no lugar habitual.

Ela acenou antes de seguir para casa.

Fiquei a vê-la desaparecer na esquina, como fazia quase todos os dias.

À tarde encontrei-me com alguns colegas do DIFI.

A reunião decorreu num ambiente muito mais sereno do que nas semanas anteriores. As discussões davam agora lugar a projectos, e isso devolvia-nos algum entusiasmo. Falámos de actividades, organizámos material e fizemos planos para os meses seguintes.

Era bom voltar a construir.

Quando regressei a casa, já o sol começava a descer.

Lanchei, vi um pouco de televisão e, antes do jantar, peguei num livro. Li algumas páginas, mas acabei por o fechar.

Sem dar por isso, tinha voltado a pensar na conversa da manhã.

"Antes vivia os dias. Agora... às vezes penso neles enquanto os estou a viver."

Na altura pareceu-me apenas uma frase.

Hoje sei que era muito mais do que isso.

Era o instante em que a adolescência começava, lentamente, a olhar para si própria.


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