O silêncio dos domingos

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Domingo, 3 de Abril de 1977

O domingo acordou devagar.

Ou talvez tivesse sido eu.

Fiquei na cama muito depois de abrir os olhos, sem qualquer pressa de me levantar. Durante a semana, mesmo nas férias, havia sempre qualquer coisa para fazer. Naquele domingo, pelo contrário, parecia que o tempo também resolvera descansar.

Passei a manhã inteira sem fazer praticamente nada.

Folheei um jornal, ouvi a rádio durante alguns minutos, sentei-me diante da televisão sem verdadeiramente a ver. A casa estava tranquila e deixei-me levar por essa tranquilidade.

Mas a cabeça não conhecia descanso.

Desde o sábado que o ambiente no DIFI não me saía do pensamento.

Voltei a recordar as conversas interrompidas, os olhares trocados entre colegas, aquela sensação incómoda de estar a mais sem saber exactamente porquê.

Quanto mais pensava nisso, mais difícil se tornava separar os factos da imaginação.

Talvez estivesse a exagerar.

Talvez não.

Conhecia-me suficientemente bem para saber que, quando me sentia injustiçado, tinha tendência para ver sinais onde eles talvez não existissem.

Ao mesmo tempo, também sabia reconhecer quando alguma coisa mudava verdadeiramente.

Era essa incerteza que mais me cansava.

Perto da hora de almoço acabei finalmente por me vestir.

Enquanto apertava os atacadores dos sapatos, ocorreu-me que, se houvesse aulas, naquela altura estaria provavelmente a pensar na manhã seguinte.

Na paragem.

Na Dila.

Sorri.

As férias tinham afastado os nossos encontros diários, mas não tinham conseguido afastá-la dos meus pensamentos.

Pelo contrário.

A ausência fazia-me perceber o quanto aqueles pequenos momentos eram importantes.

Depois de almoçar vi ainda um pouco de televisão e saí para o DIFI.

Ao entrar, o ambiente pareceu-me mais calmo do que no dia anterior.

Talvez porque era domingo.

Ou talvez porque eu próprio decidira não procurar motivos para desconfiar de tudo.

Passámos grande parte da tarde a reorganizar a sala do grupo. Arrastámos mesas, mudámos armários de lugar, limpámos estantes e aproveitámos uma rápida ida ao Centro para trazer algum material de que precisávamos.

Era um trabalho pesado, mas simples.

Enquanto carregávamos móveis, ninguém tinha tempo para pequenas intrigas.

E isso fez-me bem.

Durante algumas horas voltámos a ser apenas um grupo de rapazes a trabalhar lado a lado.

Ainda assim, bastava um momento de pausa para os pensamentos regressarem.

Enquanto limpava uma prateleira cheia de revistas antigas, encontrei um número já bastante gasto.

Folheei-o distraidamente.

Entre fotografias e notícias antigas, pensei na facilidade com que o tempo transforma o presente em memória.

Perguntei-me como recordaria aqueles dias daí a muitos anos.

Será que me lembraria dos arquivos?

Das reuniões?

Dos conflitos?

Ou acabaria por recordar apenas os caminhos ao lado da Dila?

A resposta pareceu-me tão evidente que sorri.

Há pessoas que dão sentido aos dias.

E há dias que apenas servem para nos levar até essas pessoas.

Ao fim da tarde comecei a sentir-me indisposto.

Talvez fosse cansaço.

Talvez a tensão acumulada dos últimos dias.

Ou simplesmente aquela estranha sensação de que tudo estava a mudar ao mesmo tempo.

Despedi-me dos colegas e vim embora mais cedo do que era habitual.

O ar fresco da rua soube-me bem.

Caminhei devagar, deixando que o silêncio da Vila me acompanhasse até casa.

O resto do domingo decorreu quase sem acontecimentos.

Lanchei.

Jantei.

Vi televisão.

Mas, por detrás dessa aparente monotonia, havia um movimento constante dentro de mim.

O DIFI deixava de ser o lugar simples e seguro que sempre conhecera.

A Rita começava a ocupar um espaço inesperado nos meus pensamentos.

E a ausência da Dila fazia-me compreender, cada vez melhor, a falta que me faziam as nossas conversas.

Parecia que todos os fios da minha vida começavam lentamente a entrelaçar-se.

Nenhum deles se rompera.

Mas todos mudavam de posição.

Quando me deitei, ocorreu-me que as férias estavam a ser muito diferentes daquilo que imaginara.

Pensara que seriam apenas uma pausa nas aulas.

Afinal, estavam a tornar-se uma pausa onde eu começava, lentamente, a conhecer-me melhor.

E, sem o perceber, era talvez essa a aprendizagem mais importante de todas.


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