Quando as certezas começam a vacilar

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Sábado, 2 de Abril de 1977

Passei toda a manhã em casa.

As férias alteraram completamente o ritmo dos dias. Já não há relógios a mandar em mim, nem horários de aulas, nem o encontro marcado na paragem. Li um pouco, mais por hábito do que por verdadeira vontade, e depois ajudei o meu pai em algumas pequenas tarefas.

Era um trabalho simples, feito quase em silêncio.

Gostava desses momentos. O meu pai não era homem de muitas palavras. Conversávamos pouco, mas entendíamo-nos bem. Às vezes bastava estarmos os dois a fazer a mesma coisa para sentirmos companhia.

Almoçámos por volta da uma hora.

Pouco depois saí para o Centro.

À medida que me aproximava do DIFI, comecei a sentir aquele peso que, por vezes, antecedia os dias complicados.

Não sabia explicar porquê.

Talvez fosse apenas impressão.

Talvez não.

Mal entrei, percebi que alguma coisa não estava bem.

O ambiente era diferente. As conversas interrompiam-se quando alguém passava. Havia olhares que evitavam encontrar-se e pequenos grupos que falavam em voz baixa.

Não era a primeira vez que assistia àquilo.

Em qualquer grupo existiam simpatias e antipatias.

Mas, naquele dia, tive a sensação incómoda de que algumas dessas conversas me diziam respeito.

Procurei não ligar.

Continuei a fazer o que tinha para fazer.

Ao longo da tarde, porém, foram acontecendo pequenas situações que, vistas isoladamente, não significavam nada. Juntas, começavam a formar um desenho.

Uma decisão tomada sem me consultarem.

Um comentário interrompido quando me aproximei.

Um sorriso trocado entre dois colegas que não consegui interpretar.

Talvez fosse apenas imaginação.

Mas, aos dezassete anos, quando começamos a sentir que não pertencemos completamente a um lugar, até os silêncios parecem ganhar significado.

Fiquei irritado.

Não tanto com os outros.

Com a dúvida.

Porque a dúvida desgasta muito mais do que uma certeza desagradável.

Houve um momento em que a irritação chegou ao limite.

Fui buscar os arquivos que tinha organizado durante tantos meses.

Comecei mesmo a juntá-los com a intenção de os levar para casa.

Se não me queriam ali, também não ficariam com o meu trabalho.

Enquanto empilhava as pastas, parei de repente.

Olhei para tudo aquilo.

Horas.

Dias.

Meses de dedicação.

Respirei fundo.

Perguntei a mim próprio:

"Estou a fazer isto porque tenho razão... ou porque estou zangado?"

A resposta demorou alguns segundos a aparecer.

Voltei a pousar as pastas no lugar.

Ainda não sabia exactamente o que estava a acontecer.

E não queria tomar uma decisão de que me pudesse arrepender mais tarde.

Talvez fosse melhor esperar.

Observar.

Perceber.

Nem todas as batalhas se ganham no primeiro impulso.

Saí mais cedo do que era habitual.

Precisava de distância para pensar.

No caminho para casa, dei por mim a recordar uma conversa antiga com a Dila.

Não tinha nada a ver com o DIFI.

Um dia ela dissera-me:

— Tu às vezes zangas-te depressa.

Na altura respondi-lhe, a brincar:

— Também me passa depressa.

Ela sorrira.

— Nem sempre.

Enquanto caminhava, pensei que talvez ela tivesse razão.

Se estivesse ali naquele momento, provavelmente dizia-me para esperar antes de decidir fosse o que fosse.

Conhecia-me suficientemente bem para perceber que eu agia muitas vezes primeiro e pensava depois.

Sorri involuntariamente.

Era curioso.

Mesmo longe, a Dila continuava a ajudar-me a pôr alguma ordem dentro da cabeça.

Cheguei a casa ainda antes das seis.

Lanchei, sentei-me um pouco diante da televisão e deixei o barulho da sala substituir o tumulto dos pensamentos.

Mais tarde jantámos em família.

Ninguém reparou que eu estava mais calado do que o costume.

Ou talvez tenham reparado e preferido respeitar o silêncio.

Quando a noite caiu e a televisão chegou ao fim da emissão, continuei acordado durante algum tempo.

A preocupação com o DIFI continuava presente.

Sentia que alguma coisa estava a mudar dentro do grupo.

Não sabia ainda o quê.

Mas intuía que não eram apenas diferenças de opinião.

Havia pessoas a começar a escolher lados.

E eu nunca gostei de divisões.

Antes de apagar a luz, ocorreu-me um pensamento estranho.

Nos últimos dias, quase tudo parecia querer empurrar-me para o mundo dos adultos.

A mentira do Manuel.

As conversas com a Dila sobre crescer.

A descoberta da Rita.

Agora, os primeiros conflitos dentro de um grupo onde aprendera a confiar.

Talvez crescer não fosse apenas descobrir o amor.

Talvez fosse também perceber que os lugares onde nos sentimos em casa podem, de repente, deixar de o parecer.

E essa descoberta, nesta noite, pesou mais do que todas as outras.


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