As partidas que a vida não avisa

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Sexta-feira, 1 de Abril de 1977

Acordei cedo, como se ainda houvesse aulas.

Durante alguns segundos fiquei à espera de ouvir os sons habituais da manhã, mas logo me lembrei de que ainda estávamos de férias. Vesti-me sem pressa e saí para o DIFI.

Ao atravessar as ruas, senti novamente a falta daquela rotina que, durante tantos meses, parecera tão banal. Continuava a olhar instintivamente para alguns sítios onde costumava encontrar a Dila, como se fosse possível vê-la surgir de repente com os livros apertados contra o peito.

Sorri comigo mesmo.

Os hábitos demoravam a aceitar as férias.

Quando cheguei ao DIFI, fui imediatamente recebido por um coro de gargalhadas.

— Cuidado com o que te disserem hoje!

Olhei em volta, sem perceber.

— Porquê?

— Hoje é primeiro de Abril!

Só então me lembrei.

Todos os anos acontecia o mesmo. Alguém inventava uma história absurda, outro caía na armadilha e o resto do dia era passado entre risos e pequenas vinganças.

Ainda ouvi duas ou três partidas antes do almoço.

Num outro tempo teria entrado logo no jogo.

Desta vez limitei-me a rir.

Talvez porque a maior mentira daquele mês já tivesse acontecido.

A brincadeira do Manel voltava-me inesperadamente à memória.

Foi apenas um instante.

Mas bastou para perceber como uma simples invenção podia deixar marcas muito depois de acabar.

Durante o resto da manhã fiquei praticamente sozinho a arrumar o arquivo do grupo.

Era um trabalho silencioso.

Papéis antigos.

Fotografias.

Recortes.

Pastas.

Enquanto organizava tudo, lembrei-me de como também nós vamos arquivando dias dentro da cabeça.

Uns ficam logo esquecidos.

Outros permanecem ali durante muito tempo.

Os dias da mentira do Manel pertenciam já a essa segunda categoria.

Não pelo que acontecera.

Mas pelo que despertara em mim e na Dila.

Voltei ao DIFI depois de almoço.

Desta vez já havia mais gente.

Passámos a tarde a preparar pequenos números humorísticos para aquilo a que chamávamos o nosso passatempo de teatro amador.

As ideias sucediam-se umas às outras.

Uns exageravam nos gestos, outros improvisavam diálogos completamente disparatados e as gargalhadas enchiam a sala.

Eu participava, ria e fazia as minhas próprias brincadeiras.

Mas, sem dar por isso, comecei a reparar que uma boa parte do humor nascia sempre do mesmo lugar.

Da vontade de esconder aquilo que realmente sentíamos.

Pensei no Manel.

Inventara uma gravidez para provocar espanto.

Talvez porque ninguém esperasse uma mentira daquela dimensão.

Pensei depois em mim.

Eu fazia exactamente o contrário.

Escondia cuidadosamente tudo o que era verdadeiro.

Sorri ao perceber essa contradição.

Se alguém me perguntasse naquele momento pela Dila, responderia apenas que era uma amiga.

Se me perguntassem pela Rita, diria que era apenas a colega da minha irmã.

Nenhuma das respostas seria mentira.

Mas nenhuma dizia toda a verdade.

Ao fim da tarde despedimo-nos.

Regressei a casa para lanchar e, pouco depois, fui para a Academia.

Assim que entrei no dojo, senti aquele ambiente que me fazia esquecer tudo o resto.

Ali não existiam dúvidas.

Nem confusões.

Nem perguntas.

Existiam apenas disciplina, concentração e repetição.

O corpo sabia exactamente o que fazer, mesmo quando a cabeça andava perdida.

Talvez fosse por isso que gostava tanto dos treinos.

Durante uma hora deixava de pensar.

E, por vezes, isso era o maior descanso que podia ter.

Quando cheguei a casa, jantei com os meus pais e sentei-me diante da televisão.

Enquanto as imagens passavam no ecrã, pensei na Dila.

Perguntei-me se também ela se teria lembrado de mim naquele primeiro dia de Abril.

Talvez tivesse sido enganada por alguma amiga.

Talvez tivesse passado o dia inteiro sem pensar em partidas.

Conhecendo-a, provavelmente teria sorrido das brincadeiras dos outros, mas dificilmente seria ela a inventá-las.

Era demasiado séria para isso.

Fechei os olhos por um instante.

Sorri ao imaginar-lhe aquele ar meio zangado, meio divertido, quando descobria que tinha caído numa partida.

Depois, sem querer, lembrei-me da Rita.

Foi apenas uma imagem breve.

O sorriso agradecido quando lhe entreguei o passe.

Percebi então uma coisa que nunca me ocorrera.

Enquanto da Dila guardava uma história inteira feita de dias, conversas e silêncios, da Rita guardava apenas pequenos instantes.

Era como comparar um livro com uma fotografia.

Ainda não sabia o que isso significava.

Mas começava lentamente a compreender que nem todos os sentimentos crescem da mesma maneira.

Uns constroem-se passo a passo.

Outros começam apenas por despertar a curiosidade.

E eu ainda estava demasiado no princípio dessa descoberta para perceber onde cada caminho me levaria.


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