À espera do que ainda não tinha nome
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Quinta-feira, 31 de Março de 1977
Acordei cedo, tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI.
As férias tinham entrado definitivamente no seu ritmo. Já não havia dias marcados pelas campainhas do liceu nem pela hora a que o trólei passava na paragem. Apesar disso, continuava a acordar cedo. O corpo habituara-se a uma disciplina que nem as férias conseguiam desfazer.
Passei a manhã no DIFI.
Grande parte do tempo estive a recortar jornais e revistas para organizar o arquivo. Era um trabalho repetitivo, quase mecânico. As mãos ocupavam-se dos recortes, a cabeça aproveitava para vaguear.
De vez em quando aparecia-me a imagem da Dila.
Perguntei a mim próprio como estariam a correr-lhe as férias. Imaginei-a sentada à secretária, a organizar os apontamentos, talvez já a estudar para os testes que ainda viriam. Sorri. Conhecendo-a, era bem capaz de fazer isso enquanto eu passava o tempo a convencer-me de que ainda havia muitos dias pela frente.
Logo a seguir surgia outra imagem.
A Rita a receber o passe das minhas mãos.
— Obrigada.
Uma palavra tão simples.
E, no entanto, continuava a ouvi-la como se tivesse sido dita havia poucos minutos.
Sacudi esses pensamentos e voltei aos recortes.
Mas eles regressavam sempre.
Perto da uma hora dei o trabalho por terminado e regressei a casa.
Almocei em família e, pouco depois, voltei ao DIFI.
A tarde decorreu sem grandes acontecimentos. Havia sempre qualquer coisa para fazer, alguém com quem conversar ou um papel para arrumar. A rotina tinha qualquer coisa de tranquilizador.
Ao mesmo tempo, comecei a perceber que o silêncio das férias fazia crescer os pensamentos.
Durante as aulas havia sempre qualquer coisa a acontecer.
Agora existiam demasiados momentos em que ficava sozinho comigo próprio.
E isso obrigava-me a ouvir perguntas que até então nunca me fizera.
Gostava realmente da Rita?
Ou gostava apenas da ideia que construíra à volta dela?
Não encontrei resposta.
Conhecia-a tão pouco que qualquer conclusão seria apenas imaginação.
Com a Dila era diferente.
Nunca precisava de fazer essa pergunta.
Sabia exactamente porque gostava de estar com ela.
Gostava porque me fazia rir.
Porque me ouvia.
Porque discutíamos, brincávamos, caminhávamos horas sem nos cansarmos um do outro.
A Rita era apenas uma promessa.
A Dila era uma presença.
Sem saber, comecei a perceber que essas duas coisas não tinham o mesmo peso.
Mas ainda não possuía maturidade para chegar ao fim desse pensamento.
Saí do DIFI perto das sete horas.
Ao chegar a casa, a minha mãe preparava o lanche.
Sentei-me na cozinha e ficámos algum tempo a conversar sobre pequenas coisas do dia-a-dia.
De repente, perguntou-me, quase sem levantar os olhos:
— Então... como vai a colega da tua irmã?
Fiquei surpreendido.
Sorri, embaraçado.
— Não sei.
Ela sorriu também.
— Não sabes... ou não queres dizer?
Ri-me.
— Não há nada para dizer.
A minha mãe não insistiu.
Conhecia-me suficientemente bem para perceber quando eu próprio ainda não compreendia aquilo que sentia.
A conversa mudou naturalmente de assunto.
Mas percebi que ela observava tudo com a discrição própria das mães.
Sem perguntas directas.
Sem pressões.
Apenas esperando.
Depois do jantar sentei-me diante da televisão.
As imagens sucediam-se no ecrã, mas, como acontecera tantas vezes nos últimos dias, a minha atenção dividia-se entre o programa e os meus próprios pensamentos.
Lembrei-me do mês que terminava.
Parecia impossível que, em apenas algumas semanas, tanta coisa tivesse mudado.
No princípio de Março, o meu mundo resumia-se quase por completo à Dila.
À espera na paragem.
Às viagens de trólei.
Às conversas intermináveis.
Aos passeios depois das aulas.
Depois surgira a história absurda do Manel.
Uma mentira.
Mas uma mentira que nos obrigara, a mim e à Dila, a olhar pela primeira vez para assuntos que pertenciam ao mundo dos adultos.
E, sem que eu desse por isso, alguma coisa começara lentamente a mudar dentro de mim.
Não deixara de esperar pela Dila.
Não deixara de sentir aquela paz quando caminhávamos lado a lado.
Mas o meu olhar começava agora a descobrir outras formas de ser mulher.
Ainda não compreendia essa descoberta.
Nem suspeitava das confusões que ela me poderia trazer.
Fechei os olhos por um instante.
Se alguém me perguntasse naquele momento quem ocupava verdadeiramente o meu coração, responderia sem hesitar:
A Dila.
Mas se me perguntassem quem ocupava os meus pensamentos...
Já não teria tanta certeza.
E foi essa dúvida, ainda pequena, ainda inocente, que entrou comigo na noite.
Sem fazer ruído.
Como quase todas as mudanças importantes da vida.
Comentários
Enviar um comentário