Um passo para o desconhecido

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Quarta-feira, 30 de Março de 1977

Acordei cedo, tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI.

As férias davam aos dias uma tranquilidade diferente. Já não existiam horários impostos pela escola nem a corrida para apanhar o trólei. E, no entanto, dei por mim a sentir falta dessa rotina. Não apenas das aulas, mas daquilo que as acompanhava. A paragem. As viagens. A conversa fácil com a Dila. Havia poucos dias que não nos víamos e já me parecia estranho não saber como lhe estava a correr a manhã.

Passei algumas horas no DIFI sem fazer grande coisa. Era quase uma brincadeira antiga dizer que ia "fazer nada". Havia sempre qualquer tarefa para ocupar as mãos, mas nem sempre existia trabalho suficiente para ocupar a cabeça.

A minha, essa, andava demasiado ocupada.

Ainda pensava na conversa da noite anterior, naquela frase que ouvira por acaso entre a minha mãe e a minha irmã.

"Tens de falar com ela..."

Sabia perfeitamente quem era esse "ela".

E não conseguia imaginar o que a minha irmã lhe iria dizer.

Regressei a casa para almoçar e, logo depois, fui ao encontro da minha irmã.

Na verdade, a desculpa era simples.

Precisava de renovar o meu passe.

Mas havia outro motivo.

A Rita pedira-me, dias antes, que lhe fosse levantar também o dela.

Aceitara o pedido com uma naturalidade que escondia mal a satisfação que sentira. Era a primeira vez que me confiava uma pequena tarefa.

Parecia uma coisa sem importância.

Para mim, não era.

Passei pelo posto onde se tratavam os passes. Esperei a minha vez, entreguei os documentos e, alguns minutos depois, saí com os dois na mão.

Olhei para eles.

O meu.

O dela.

Sorri sozinho.

Era uma alegria ridícula.

Mas aos dezasseis anos bastavam coisas muito pequenas para dar sentido a um dia inteiro.

Quando cheguei ao trabalho da minha irmã, a Rita estava ocupada.

Esperei alguns minutos até que pudesse aproximar-me.

— O teu passe.

Entreguei-lho.

Ela pegou nele e abriu imediatamente o pequeno cartão.

— Obrigada.

Olhou para mim e sorriu.

— Fizeste-me um grande favor.

— Não foi nada.

— Foi, sim.

Guardou o passe na mala.

— Agora já posso andar descansada.

Sorri.

— Ainda bem.

Foi uma conversa de poucos segundos.

Mas saí dali com a impressão de que tínhamos falado muito mais.

Às vezes bastava um agradecimento sincero para fazer o resto da tarde parecer diferente.

Enquanto a Rita se afastava para atender um cliente, a minha sobrinha aproximou-se de mim e estendeu-me as mãos.

Peguei nela ao colo.

As crianças tinham essa capacidade extraordinária de interromper qualquer excesso de imaginação.

Enquanto brincava com ela, ouvi a minha irmã chamar-me discretamente.

Aproximei-me.

Falou quase em voz baixa.

— A mãe anda a insistir para eu falar com a Rita.

Olhei para ela, surpreendido.

— Falar sobre quê?

Encolheu os ombros.

— Tu.

Fiquei sem saber o que responder.

Ela sorriu ao ver a minha expressão.

— Ainda não disse nada.

Respirei de alívio.

— Nem sei se digo.

— Também não sei se quero que digas.

Riu-se.

— Agora já é tarde para isso.

Fiquei a olhar para a Rita.

Ela continuava a trabalhar sem imaginar que o seu nome era, naquele momento, tema de conversa entre a minha mãe, a minha irmã e eu.

A situação parecia-me embaraçosa.

Não queria que ela pensasse que eu andava a mandar recados por terceiros.

Se alguma vez tivesse de lhe dizer alguma coisa, gostaria que fosse eu.

Embora, na verdade, nem soubesse o que lhe diria.

Despedi-me pouco depois.

A Rita acenou-me apenas com um sorriso.

— Até logo.

— Até logo.

Saí com a minha sobrinha pela mão.

Durante todo o caminho de regresso pensei naquela conversa com a minha irmã.

Sentia-me dividido.

Uma parte de mim gostava da ideia de a Rita saber que eu existia.

Outra parte tinha vontade de impedir tudo aquilo.

Talvez porque começava a perceber que havia uma enorme diferença entre imaginar uma história e vê-la aproximar-se da realidade.

Cheguei a casa um pouco indisposto.

Talvez fosse do cansaço.

Talvez da cabeça.

Lanchei, mudei de roupa e voltei para o DIFI.

Passei lá o resto da tarde, mas custava-me concentrar-me no que fazia. De vez em quando lembrava-me do sorriso da Rita ao receber o passe. Logo a seguir lembrava-me da Dila.

Não da Dila em abstracto.

Da Dila verdadeira.

A rir-se no trólei.

A chamar-me preguiçoso por nunca estudar História.

A fingir que se zangava quando eu chegava atrasado à paragem.

Essas recordações traziam-me uma paz que contrastava com a inquietação que a Rita despertava.

Ainda não compreendia o significado dessa diferença.

Mas começava a senti-la com nitidez.

Saí do DIFI já passava das oito e meia.

Depois do jantar treinei um pouco em casa e ensinei alguns movimentos de karaté à Celeste.

Ela esforçava-se, enganava-se, ria e obrigava-me a repetir tudo outra vez.

Por momentos esqueci completamente os pensamentos dos últimos dias.

Mais tarde, quando a casa ficou mais sossegada, procurei a minha irmã.

— Então...

Ela olhou para mim com um sorriso divertido.

— Então o quê?

— Falaste com a Rita?

Fez-se um pequeno silêncio.

— Não.

Esperei.

Ela continuou.

— E, por enquanto, não vou falar.

Senti um alívio inesperado.

Nem eu próprio esperava aquela resposta dentro de mim.

Sorri.

— Ainda bem.

— Ainda bem porquê?

Demorei alguns segundos a responder.

— Porque... se algum dia ela tiver de saber alguma coisa... gostava que fosse por mim.

A minha irmã ficou a olhar para mim.

Depois sorriu com uma ternura que eu raramente lhe via.

— Isso já é conversa de homem.

Fiquei sem resposta.

Quando me deitei nessa noite, lembrei-me das palavras dela.

Talvez não fosse ainda conversa de homem.

Mas começava, lentamente, a deixar de ser apenas conversa de rapaz.

E talvez crescer fosse exactamente isso.

Descobrir que há sentimentos que ninguém pode viver por nós, nem sequer aqueles que mais gostam de nós.


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