A curiosidade também tem caminho

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Terça-feira, 29 de Março de 1977

Acordei mais cedo do que no dia anterior.

As férias tinham alterado os horários, mas não o hábito de me levantar sem permanecer demasiado tempo na cama. A casa estava silenciosa. Peguei num livro e li algumas páginas, mais por rotina do que por verdadeira concentração.

As palavras sucediam-se umas às outras.

A cabeça, porém, estava noutro lugar.

Na noite anterior, a minha irmã deixara-me uma frase que continuava a ecoar dentro de mim.

"A Rita perguntou por ti."

Quantas vezes a repeti para mim próprio nessa manhã não saberia dizer.

Talvez demasiadas.

Depois ri-me da minha própria ingenuidade.

Uma pergunta não significava absolutamente nada.

Mas aos dezassete anos era difícil convencer o coração daquilo que a razão sabia perfeitamente.

Pouco depois saí para o DIFI.

A manhã decorreu devagar. Fiz pouco mais do que o costume. Entre pequenas tarefas e conversas ocasionais, o tempo foi passando sem deixar grande memória.

Já conhecia suficientemente bem aquelas manhãs para saber que o trabalho nem sempre ocupava a cabeça.

Às vezes eram os pensamentos que ocupavam o trabalho.

Perto da hora de almoço fui para casa.

Mal acabara de comer, ouvi bater à porta.

Era o Manel.

Entrou como fazia sempre, sem grandes cerimónias.

— Vamos dar uma volta?

Olhei para ele.

— Ao Porto?

Sorriu com um ar que dizia tudo.

— Ao Porto.

Ri-me.

— Não me digas que também queres conhecer a colega da minha irmã.

— Quero ver se é assim tão bonita como tu dizes.

Corei imediatamente.

— Eu nunca disse isso.

— Não precisaste.

Acabámos os dois a rir.

Saímos pouco depois.

Durante a viagem falámos de tudo um pouco. Da escola, das férias, da famosa história que ele inventara dias antes e que ainda servia de motivo para algumas brincadeiras.

— Nunca mais faço uma destas.

— Ainda bem.

— Ainda há quem pense que era verdade.

Olhei para ele.

— A Dila acreditou mesmo.

O Manuel abanou a cabeça.

— Coitada.

Sorri.

— Passou o fim-de-semana preocupada com uma rapariga que nem existia.

Ele ficou calado durante alguns segundos.

— Sabes...

— O quê?

— Afinal a brincadeira teve menos graça do que eu pensava.

Assenti.

Não voltámos ao assunto.

Pela primeira vez tive a sensação de que ambos tínhamos aprendido qualquer coisa com aquela história.

Chegámos ao local onde a minha irmã trabalhava.

Assim que entrei, senti imediatamente a estranha expectativa que já me acompanhava desde sexta-feira.

Procurei discretamente com o olhar.

A Rita estava ao balcão.

Quando nos viu entrar, sorriu.

— Boa tarde.

— Boa tarde.

Foi apenas um cumprimento.

Mas agora já não era o sorriso de uma desconhecida.

Era o sorriso de alguém que começava a reconhecer a minha presença.

O Manel deu-me uma discreta cotovelada.

— É aquela?

Fingi não perceber.

— Qual?

— Não te faças desentendido.

Sorri sem responder.

Ficámos por ali algum tempo, conversando sobretudo com a minha irmã. A Rita aproximava-se de vez em quando, dizia uma ou outra palavra e voltava ao trabalho.

Eu observava-a sem dar muito nas vistas.

Começava a perceber melhor aquilo que me chamava a atenção.

Não era apenas a beleza.

Era a maneira tranquila como ocupava o espaço.

Falava sem pressa.

Ouvia antes de responder.

Sorria naturalmente.

Havia nela uma serenidade que me parecia pertencer ao mundo dos adultos.

E talvez fosse precisamente isso que me fascinava.

Ao mesmo tempo, sem qualquer motivo aparente, lembrei-me da Dila.

Imaginei-a a rir-se se me visse ali, tão sério, sem saber onde pôr as mãos.

Provavelmente dir-me-ia:

— Estás muito calado hoje.

Sorri sozinho.

O Manel reparou.

— Então?

— Nada.

— Estás pior do que eu.

— Não exageres.

— Exagerar?

Baixou a voz.

— Tu estás apaixonado.

A palavra caiu entre nós como uma pedra.

Apaixonado.

Olhei instintivamente para a Rita.

Depois desviei os olhos.

Não respondi.

Porque não sabia.

Ou, talvez, porque ainda não queria saber.

Ao fim da tarde, a Rita despediu-se.

— Até amanhã.

Respondi também.

— Até amanhã.

Fiquei a vê-la desaparecer pela porta das traseiras.

A minha irmã aproximou-se de nós.

— Vamos?

Saímos os três.

No caminho, parámos no Hotel Infante para tomar qualquer coisa. O ambiente era calmo e, durante alguns minutos, a conversa girou à volta de assuntos banais.

Eu quase não falei.

Limitava-me a ouvir.

Ainda pensava naquela despedida tão simples.

"Até amanhã."

Nunca duas palavras me tinham parecido tão importantes.

Despedimo-nos e segui directamente para a Academia.

O treino obrigou-me finalmente a deixar de pensar noutras coisas.

Cada exercício exigia concentração total.

Já perto do fim, porém, um movimento saiu mal.

Senti uma dor aguda num dedo da mão.

Olhei imediatamente.

Começava a inchar.

— Hoje já chega — disse o instrutor.

Assenti.

Pela primeira vez em muitos treinos saí mais frustrado do que cansado.

Quando cheguei a casa, jantei e fui ver televisão.

Mais tarde, enquanto a minha mãe e a minha irmã conversavam na cozinha, ouvi apenas um pedaço da conversa.

— Tens de falar com ela...

Levantei ligeiramente a cabeça.

— Com quem?

As duas olharam para mim ao mesmo tempo.

A minha irmã sorriu.

— Com ninguém.

A minha mãe fez um sorriso discreto.

Percebi imediatamente de quem falavam.

Não insisti.

Mas bastou aquele instante para perceber que qualquer coisa estava a acontecer sem que eu tivesse participado nela.

Fui deitar-me com o dedo ainda dorido.

Mas havia outra coisa que me inquietava mais.

Pela primeira vez, já não era apenas eu a pensar na Rita.

Sem dar por isso, ela começava também a entrar nas conversas da minha família.

E isso tornava tudo inesperadamente mais real.


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