Um nome que começou a ganhar voz

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Segunda-feira, 28 de Março de 1977

As férias tinham finalmente começado.

Pela primeira vez em muitos meses, não houve despertador, nem a pressa habitual de me vestir para apanhar o trólei. Acordei tarde, como se o corpo aproveitasse de uma só vez todas as manhãs em que se levantara antes do sol aquecer as ruas.

Estranhei o silêncio.

Não havia livros para preparar.

Não havia a corrida para a paragem.

Não havia a certeza de que, dali a poucos minutos, a Dila apareceria ao fundo da rua.

Foi isso que mais me surpreendeu.

Só quando essa rotina desapareceu percebi o lugar que ocupava na minha vida.

Levantei-me quase à hora de almoço.

Enquanto ajudava a pôr a mesa, ocorreu-me perguntar a mim próprio o que estaria a fazer a Dila naquela manhã.

Sorri.

Provavelmente estaria também a dormir até mais tarde.

Ou talvez não.

Conhecia-a suficientemente bem para imaginar que aproveitaria as férias para pôr os cadernos em ordem antes de pensar em descansar.

Era muito parecida com isso.

Depois de almoçar, saí para o DIFI.

As tardes das férias tinham um ritmo completamente diferente. O trabalho decorria sem a preocupação dos horários escolares e tudo parecia acontecer mais devagar.

Passei a maior parte do tempo ocupado nas tarefas habituais. Entre conversas, papéis e pequenas responsabilidades, as horas foram passando quase sem dar por elas.

Apesar disso, havia momentos em que a minha cabeça fugia.

Não para um lugar.

Para duas pessoas.

Primeiro lembrava-me da Dila.

Via-a como sempre a via, sentada ao meu lado no trólei, a rir-se de qualquer disparate meu ou a corrigir-me quando eu inventava desculpas para não estudar.

Depois, quase sem perceber como, surgia a imagem da Rita.

Sempre a mesma.

O sorriso.

A serenidade.

A maneira segura como falava com os clientes.

Era curioso.

Da Dila recordava momentos.

Da Rita recordava apenas impressões.

Ainda não compreendia porque fazia essa distinção.

Nem me ocorria tentar compreendê-la.

Pouco depois das sete e meia dei por terminado o trabalho e regressei a casa.

Jantámos em família e, como era costume, ligámos a televisão.

A minha irmã chegou algum tempo depois.

Mal entrou, parecia trazer vontade de contar qualquer coisa.

Enquanto pousava a mala, olhou para mim com um sorriso que me pareceu demasiado conhecedor.

— Sabes quem perguntou por ti?

Levantei imediatamente os olhos.

— Quem?

Ela demorou propositadamente a responder.

— A Rita.

Fiquei imóvel.

— Perguntou?

A minha irmã sorriu ainda mais.

— Perguntou.

Tentei fingir indiferença.

— E... o que perguntou?

— Perguntou apenas porque já não aparecias.

Procurei manter um ar natural, mas sentia o coração bater mais depressa.

A minha irmã observava-me divertidíssima.

— Não vais dizer nada?

Encolhi os ombros.

— O que é que queres que diga?

— Nada.

Fez uma pausa.

— Só achei graça à maneira como mudaste de cara.

Corei imediatamente.

— Não mudei nada.

Ela riu-se.

— Mudaste, mudaste.

A minha mãe, que assistia à conversa enquanto arrumava algumas coisas na cozinha, lançou um olhar discreto para nós.

Não disse palavra.

Mas tive a impressão de que também ela sorria.

O assunto terminou ali.

Ou, pelo menos, terminou em voz alta.

Porque, durante o resto da noite, aquela pequena frase não me saiu da cabeça.

"A Rita perguntou por ti."

Era uma frase tão simples.

Provavelmente significava apenas educação.

Talvez curiosidade.

Talvez nada.

Mas aos dezassete anos uma frase assim tinha força suficiente para ocupar uma noite inteira.

Antes de me deitar ainda pensei na Dila.

Se lhe contasse esta conversa, provavelmente rir-se-ia de mim.

Diria que eu estava a imaginar coisas.

Talvez tivesse razão.

Nos últimos dias dera por mim a imaginar muito mais do que era costume.

Apaguei a luz.

Lá fora, a Vila permanecia silenciosa.

E eu adormeci a pensar que havia uma grande diferença entre gostar de estar ao lado de alguém e sentir curiosidade por alguém que mal conhecia.

Só que ainda não possuía experiência suficiente para distinguir claramente uma coisa da outra.

Talvez fosse isso que significava crescer.

Aprender, pouco a pouco, que nem todos os sentimentos nascem da mesma maneira.


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