O nome que não saía da minha cabeça
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Domingo, 27 de Março de 1977
Como quase todos os domingos, acordei tarde.
Durante alguns instantes fiquei deitado, sem vontade de me levantar. Havia qualquer coisa que me deixava inquieto desde o dia anterior. Não era uma tristeza verdadeira, mas uma sensação de vazio difícil de explicar.
Acabei por perceber porquê.
Tinha ido ver a Rita.
Voltára a vê-la.
E saíra sem me despedir.
Parecia uma coisa sem importância. Provavelmente era. Ela talvez nem tivesse reparado que eu me fora embora. No entanto, aquela pequena ausência de despedida continuava a incomodar-me desde a véspera.
Ri-me de mim próprio.
Era absurdo.
Mal a conhecia.
Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e liguei a televisão. As imagens sucediam-se no ecrã, mas eu mal lhes prestava atenção.
A certa altura dei por mim a pensar na Dila.
Sorri.
Era curioso como aqueles dois pensamentos não se pareciam.
Quando pensava na Dila, lembrava-me de conversas, de caminhadas, do zumbido do trólei, da maneira como ela franzia o sobrolho quando eu dizia alguma parvoíce e da facilidade com que o silêncio nunca se tornava incómodo entre nós.
Quando pensava na Rita, havia apenas uma imagem.
Um sorriso.
Uma presença.
Nada mais.
Não compreendia a diferença.
Nem sequer sabia que existia uma diferença.
Apenas sentia que eram coisas distintas.
Talvez crescer fosse exactamente isto, descobrir sentimentos novos antes de aprender a dar-lhes um nome.
Passei parte da manhã distraído entre a televisão e o jornal, sem verdadeiramente me concentrar em nenhum deles.
Almoçámos por volta da uma hora.
Depois saí para o DIFI.
As tardes de domingo tinham um ritmo próprio. O edifício parecia mais calmo do que durante a semana. Havia tempo para conversar e as tarefas faziam-se sem a pressa habitual.
Passei uma boa parte da tarde com alguns elementos mais novos do grupo. A conversa acabou por se transformar numa sucessão de brincadeiras e histórias, como acontecia sempre que se juntavam várias idades diferentes.
Enquanto os ouvia, lembrei-me de mim próprio poucos anos antes.
Parecia impossível que apenas três ou quatro anos pudessem fazer tanta diferença.
Quando os mais novos se foram embora, apareceu a irmã de um colega.
Sentou-se connosco e ficámos a conversar até perto das oito horas.
Sem dar por isso, comecei a reparar na facilidade com que agora observava as pessoas.
Já não via apenas colegas.
Ou rapazes.
Ou raparigas.
Começava, lentamente, a reparar nas diferenças de idade, na maneira de falar, nos gestos, na forma como cada pessoa ocupava o espaço à sua volta.
Lembrei-me outra vez da Rita.
Depois da Dila.
Depois da mulher grávida que vira dias antes.
As imagens pareciam ligar-se umas às outras, embora eu ainda não percebesse como.
Talvez fosse apenas impressão minha.
Talvez não.
Quando saímos do DIFI, o ar da noite estava fresco.
O caminho para casa fez-se em silêncio.
Jantei com os meus pais e, depois, sentei-me a ler um pouco antes de ligar a televisão.
Enquanto passava distraidamente as páginas do livro, percebi que as férias tinham começado de maneira diferente daquilo que imaginara.
Pensara que seriam apenas dias sem escola.
Mas traziam outra coisa.
Tempo para pensar.
Talvez até tempo de mais.
Nos últimos oito dias acontecera muito mais dentro de mim do que à minha volta.
A brincadeira do Manel obrigara-me a olhar, pela primeira vez, para o mundo dos adultos.
As conversas com a Dila tinham-me mostrado que crescer também era partilhar medos que nunca antes tinham sido ditos em voz alta.
E, sem perceber como, começara a reparar numa rapariga mais velha, cuja simples presença despertava em mim uma curiosidade completamente nova.
Nada disto diminuía aquilo que sentia pela Dila.
Pelo contrário.
Era precisamente por me sentir tão tranquilo ao lado dela que aquela novidade me deixava tão confundido.
Ainda não sabia que o coração e os olhos nem sempre aprendem ao mesmo tempo.
Nem imaginava que essa descoberta iria acompanhar-me durante muito tempo.
Apaguei a luz da televisão já tarde.
Lá fora, a Vila adormecia lentamente.
E eu adormeci com a estranha sensação de que a minha adolescência acabava de mudar de rumo sem me pedir licença.
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