Entre duas margens
Sábado, 26 de Março de 1977
Acordei mais tarde do que era costume. Era o último dia de aulas antes das férias e, talvez por isso, deixei-me ficar mais alguns minutos na cama. Quando finalmente saí de casa, percebi logo que ia atrasado.
Cheguei à paragem quase a correr.
A Dila já lá estava.
Assim que me viu, cruzou os braços e fez um ar muito sério.
— Bonito.
— Ainda cheguei a tempo.
— Chegaste porque eu esperei.
— Sabia que esperavas.
Ela olhou para mim de lado.
— Não tenhas tanta certeza.
Sorri.
— Tenho.
Não conseguiu manter o ar zangado durante muito tempo.
Acabou por rir.
— És um convencido.
— Mas vieste.
— Vim.
Entrámos no trólei.
A cidade parecia diferente aos sábados. Havia menos pressa, menos gente nas ruas, menos estudantes. O veículo seguia quase vazio e o silêncio permitia ouvir melhor o zumbido dos motores eléctricos e o ranger metálico nas curvas.
— Hoje acabam as aulas... — disse ela.
— Durante uns dias deixamos de fazer esta viagem.
Ela olhou pela janela.
— Vai ser estranho.
Assenti.
Nunca tinha pensado muito nisso, mas era verdade. Nos meses de aulas, víamo-nos todos os dias. As férias interrompiam essa rotina e, de repente, percebi que ia sentir falta daqueles encontros na paragem, das conversas no trólei, dos caminhos feitos lado a lado.
— Vais estudar nas férias? — perguntou ela.
— Ainda estás com esperança?
— Nenhuma.
Rimo-nos os dois.
A conversa continuou por assuntos pequenos. Falámos das notas, dos professores, de um colega que conseguira adormecer numa aula sem que o professor desse conta.
Era um daqueles dias em que não era preciso procurar conversa.
Ela acontecia.
Chegados aos liceus, despedimo-nos.
— Até logo.
— Não te atrases.
— Hoje prometo.
Ela sorriu antes de desaparecer pelo portão.
As aulas foram pouco mais do que uma formalidade. Como era o último dia antes das férias, quase ninguém estava verdadeiramente preocupado com faltas ou matéria.
Mas eu tinha outra ideia na cabeça.
Na véspera convencera-me de que precisava de voltar a ver a Rita.
Na verdade, não precisava.
Queria.
Saí discretamente do liceu e fui até ao local onde a minha irmã trabalhava.
Desta vez o caminho pareceu-me mais curto.
Quando entrei, vi primeiro a minha irmã.
— Outra vez?
Sorri, sem saber muito bem como justificar a visita.
— Passei por aqui...
Ela levantou uma sobrancelha.
— Pois passaste.
Conhecia-me demasiado bem.
Pouco depois apareceu a Rita.
Cumprimentou-me com um sorriso simples.
— Bom dia.
— Bom dia.
Foi só isso.
Uma saudação.
Nada mais.
Mas, por qualquer razão, aquele sorriso ficou a acompanhar-me durante todo o tempo em que permaneci ali.
Observei-a discretamente enquanto trabalhava. Havia nela uma serenidade que me intrigava. Movia-se com naturalidade, falava com os clientes sem hesitação e parecia completamente segura de si.
Era uma diferença difícil de explicar.
Talvez fosse apenas a idade.
Talvez fosse outra coisa qualquer.
Ao sair dali, dei por mim a pensar que ainda sabia muito pouco sobre as pessoas.
Conhecera a Dila através da amizade. Durante meses descobríramos um ao outro em pequenas conversas, caminhadas e silêncios.
Ali bastara um sorriso para despertar uma curiosidade que nem eu compreendia.
Não era melhor.
Nem pior.
Era apenas diferente.
E essa diferença deixava-me inquieto.
Voltei ao liceu a tempo da última aula.
Durante toda a manhã, porém, a Dila aparecera-me várias vezes no pensamento.
Perguntei a mim próprio porquê.
Não encontrei resposta.
Ao meio-dia fui esperá-la, como fazia sempre.
Quando saiu, sorriu ao ver-me.
— Desta vez foste tu que chegaste primeiro.
— Aprendi a lição.
— Ainda bem.
Começámos o caminho de regresso.
Ela falava das férias, dos livros que queria ler e de uma prima que talvez viesse passar alguns dias a S. Pedro.
Eu escutava-a.
Respondia.
Ria quando ela dizia alguma coisa engraçada.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma pequena parte de mim que continuava confusa.
Nunca me acontecera isto.
Sentir-me tão bem ao lado da Dila e, ao mesmo tempo, lembrar-me do sorriso de outra rapariga.
Não havia culpa.
Havia apenas perplexidade.
Porque eu não compreendia que duas emoções diferentes podiam coexistir sem significarem a mesma coisa.
Aos dezassete anos tudo parecia ter de receber imediatamente um nome.
E eu ainda não possuía palavras para aquilo.
Descemos do trólei.
Antes de nos despedirmos, a Dila perguntou:
— Vais fazer alguma coisa nas férias?
— Ainda não sei.
— Se descobrires, depois contas-me.
— Conto.
Sorriu.
— Até segunda... quer dizer...
Parou a meio da frase.
Os dois percebemos ao mesmo tempo que já não havia aulas na segunda-feira.
Rimo-nos.
— Até qualquer dia.
— Até qualquer dia.
Fiquei a vê-la afastar-se.
Foi a primeira vez, desde que começáramos aquela rotina, que senti verdadeiramente o peso de uma despedida.
Almocei em casa. Durante a tarde, um colega de Gondomar veio visitar-me e fomos até ao Centro. Conversámos, passeámos um pouco e passámos parte da tarde entre o movimento das ruas e o entra-e-sai habitual das pessoas.
Apesar da companhia, a minha cabeça fugia de vez em quando para os acontecimentos dos últimos dias.
O Manel.
A conversa com a Dila.
As perguntas sobre crescer.
A Rita.
Pareciam peças soltas de um puzzle que eu ainda estava muito longe de conseguir montar.
Regressei mais cedo a casa.
Despedi-me do meu colega, deitei-me um pouco no sofá e deixei a televisão fazer companhia ao resto da tarde.
Quando a emissão terminou e a casa mergulhou no silêncio da noite, fiquei ainda alguns minutos acordado.
Começava a perceber que crescer não era escolher entre um caminho e outro.
Era, primeiro, descobrir que existiam muitos caminhos.
E que nem sempre o coração caminhava à mesma velocidade que os olhos.
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