O princípio de uma confusão
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Sexta-feira, 25 de Março de 1977
Levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e saí de casa como em todas as manhãs. O caminho até à paragem já fazia parte de mim. Havia gestos que deixavam de ser hábitos para se tornarem pequenas certezas, e uma delas era saber que, dali a poucos minutos, a Dila apareceria ao fundo da rua.
Não me enganei.
Vinha com o passo vivo de sempre e, mal me viu, sorriu.
— Hoje pareces cansado.
— Estudei História.
Ela olhou para mim, desconfiada.
— Isso é verdade?
— Uma parte.
— Qual parte?
— A parte em que peguei no livro.
Ela riu-se.
— E a outra?
— A outra ficou para outro dia.
Abanou a cabeça.
— És um caso perdido.
Entrámos no trólei e fomos conversando pelo caminho. Falámos do fim das aulas antes das férias, de professores, de colegas e dos planos que cada um tinha para os dias seguintes.
Já não restava quase nada da inquietação provocada pela história do Manuel. Apenas, de vez em quando, um pensamento inesperado que surgia e desaparecia logo a seguir, como as últimas ondas depois da maré acalmar.
À chegada aos liceus despedimo-nos.
— Até logo.
— Não te atrases.
— Nunca me atraso.
Ela sorriu.
— Disseste isso com demasiada convicção...
Vi-a entrar pelo portão e segui para as minhas aulas.
A manhã decorreu apenas com metade de cada aula. As duas últimas resolvi não as assistir.
Durante alguns dias andara a pensar numa ideia que me parecia pouco importante. A colega da minha irmã. Tinha-a visto apenas uma vez, de relance, e nem soubera explicar por que razão aquela imagem me ficara na memória.
Resolvi passar pelo trabalho da minha irmã.
Desta vez não era para a ver.
Era para confirmar uma curiosidade que nem eu compreendia.
Quando entrei, a minha irmã sorriu ao ver-me.
— Outra vez por aqui?
— Passei só para te dar um olá.
Ela olhou para mim com um sorriso malicioso.
— Foi mesmo só por isso?
Encolhi os ombros.
— Claro.
Não pareceu muito convencida.
Foi então que a vi.
A Rita.
Falava com uma cliente e nem reparou na minha presença.
Fiquei apenas a observá-la durante alguns instantes.
Não era como as raparigas do liceu.
Havia nela uma segurança diferente. A maneira de sorrir, de falar, de se mover, tudo parecia mais sereno, mais decidido, mais adulto.
Sem dar por isso, lembrei-me da mulher grávida que vira no trólei no dia anterior.
Lembrei-me também da conversa sobre crescer.
Era estranho.
Como se, de repente, começasse a reparar em coisas que antes nunca tinham existido para mim.
A Rita levantou os olhos e sorriu por educação.
Sorri também.
Foi apenas um instante.
Nada aconteceu.
Continuou o seu trabalho e eu permaneci ali mais alguns minutos, conversando com a minha irmã.
Quando saí para a rua, trazia uma sensação difícil de explicar.
Não era parecida com aquilo que sentia pela Dila.
Era diferente.
Muito diferente.
Mas aos dezassete anos eu ainda não sabia distinguir um sentimento do outro.
Sabia apenas que voltara ali de propósito.
E isso bastava para me deixar confuso.
No caminho de regresso para o liceu, ri-me sozinho.
"Estou mesmo maluco."
Foi exactamente isso que pensei.
À saída das aulas fui, como sempre, esperar a Dila.
Assim que me viu, aproximou-se.
— Hoje desapareceste.
— Tive uma aula... diferente.
Olhou para mim, curiosa.
— Diferente como?
Sorri.
— Um dia conto-te.
Ela ficou a olhar para mim durante alguns segundos.
— Está bem...
Mas percebi que esperava que eu dissesse mais qualquer coisa.
Não disse.
Nem eu próprio sabia o que havia para contar.
Entrámos no trólei.
Durante o caminho falou quase sempre ela. Contou-me uma história engraçada passada na aula e rimo-nos os dois. Aos poucos fui esquecendo a visita da manhã.
Olhei discretamente para a Dila.
Enquanto ela falava, fazia pequenos gestos com as mãos para dar vida à história. Quando se ria, inclinava ligeiramente a cabeça para trás.
Conhecia aqueles gestos quase de cor.
Senti uma paz estranha.
E, ao mesmo tempo, lembrei-me do sorriso educado da Rita.
As duas imagens cruzaram-se por um instante.
Não competiam.
Não se pareciam.
Nem eu percebia porque apareciam juntas na minha cabeça.
Talvez fosse apenas mais uma daquelas confusões que faziam parte de crescer.
Descemos na nossa paragem e caminhámos juntos até ao ponto onde os nossos caminhos se separavam.
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Fiquei a vê-la afastar-se.
Só depois segui para casa.
Almocei e, como estava cansado, deitei-me um pouco. Dormi profundamente e só acordei para lanchar e seguir para a Academia.
O treino correu bem. No fim, um dos instrutores colocou uma tábua à minha frente.
Respirei fundo.
Concentrei-me.
Golpeei.
A tábua partiu-se em duas metades.
Fiquei alguns segundos a olhar para elas no chão.
Os colegas bateram-me nas costas e felicitaram-me. Sorri, satisfeito. Era um pequeno objectivo alcançado depois de tantos treinos.
Regressei a casa já de noite.
Jantei, vi um pouco de televisão e fiquei à espera que a minha irmã chegasse do trabalho.
Queria perguntar-lhe qualquer coisa sobre a colega.
Mas quando ela entrou, acabei por não perguntar nada.
Nem eu saberia explicar a pergunta.
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