Quando o mundo começou a parecer maior
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Quinta-feira, 24 de Março de 1977
Acordei com a sensação tranquila de quem começa a repetir um ritual que já faz parte da vida. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e saí de casa. O ar da manhã ainda conservava aquele frio leve que anunciava o fim do Inverno, mas a luz começava a ganhar uma claridade diferente. A Primavera aproximava-se devagar.
Quando cheguei à paragem, a Dila já lá estava.
— Hoje fui eu que cheguei primeiro.
Sorri.
— Não podia deixar-te ganhar sempre.
Ela riu-se.
— Um dia destes ainda te habituas mal.
— Já estou habituado.
Olhou para mim com um daqueles sorrisos que pareciam durar apenas um instante, mas que ficavam muito mais tempo na memória.
O trólei chegou pouco depois. Sentámo-nos nos lugares do costume.
Durante algum tempo limitámo-nos a observar o mundo a acordar. As pessoas iam entrando e saindo, cada uma mergulhada nos seus pensamentos. Parecia-me curioso como tantas vidas diferentes podiam cruzar-se todos os dias dentro do mesmo veículo e, no entanto, quase ninguém reparava nos outros.
A Dila tirou um caderno da pasta.
— Afinal estudei História ontem.
Olhei para ela com ar resignado.
— Não me digas isso logo de manhã.
— Porquê?
— Porque me faz sentir culpado.
Ela riu-se.
— E estudaste?
— Pensei muito em estudar.
— Isso não conta.
— Conta, sim. É o trabalho de preparação.
Abanou a cabeça.
— Tu consegues arranjar desculpa para tudo.
— Não é desculpa. É estratégia.
— Estratégia para ter más notas.
Rimo-nos os dois.
Gostava daquela facilidade. As conversas passavam de uma brincadeira para outra sem esforço. Nenhum de nós precisava de pensar muito no que ia dizer.
Enquanto falávamos, o trólei parou junto a um semáforo. Do outro lado da rua, uma mulher grávida esperava para atravessar. Tinha uma das mãos pousada sobre a barriga e sorria enquanto falava com o homem que a acompanhava.
Sem querer, fiquei a olhar.
A Dila seguiu o meu olhar.
Nenhum de nós comentou.
Mas lembrei-me imediatamente da conversa de segunda-feira.
Já não pensei no Manel.
Pensei apenas que, um dia, aquela mulher também devia ter tido dezasseis anos.
A ideia pareceu-me estranha.
Sempre imaginara os adultos como se tivessem sido adultos desde sempre.
Agora começava a vê-los de outra maneira.
A Dila quebrou o silêncio.
— Em que estás a pensar?
Olhei novamente para a rua.
— Não sei bem...
Sorri.
— Acho que ando a pensar demais.
Ela observou-me durante alguns segundos.
— Isso é mau?
— Ainda não descobri.
Ficou calada.
Depois disse apenas:
— Também me acontece às vezes.
Não voltámos ao assunto.
Mas senti que ela compreendia exactamente o que eu não conseguia explicar.
Chegámos aos liceus e caminhámos devagar até ao portão.
Antes de entrar, voltou-se para mim.
— Logo espero que me contes que estudaste.
— Não prometo milagres.
— Pelo menos promete tentar.
Levantei a mão como quem faz um juramento.
— Prometo pensar seriamente nisso.
Ela riu-se.
— És um caso perdido.
Fiquei a vê-la desaparecer pelo corredor do liceu.
As aulas passaram depressa.
À saída, fui esperá-la como fazia sempre. Já conhecia o movimento do portão, o instante em que os alunos começavam a sair e a forma como os meus olhos a encontravam quase sem procurar.
Quando apareceu, vinha a rir com duas colegas.
Despediu-se delas e aproximou-se de mim.
— Então?
— Então o quê?
— Estudaste durante o intervalo?
Fingi indignação.
— Não tens confiança nenhuma em mim.
— Tenho.
Fez uma pequena pausa.
— É precisamente por isso que pergunto.
Rimo-nos outra vez.
Enquanto caminhávamos para a paragem, passámos por uma montra onde estavam expostas fotografias de casamentos. Vestidos compridos, fatos escuros, sorrisos imóveis.
A Dila lançou apenas um olhar rápido.
— Engraçado...
— O quê?
— Ainda na segunda-feira parecia que toda a gente falava em casamentos.
Olhei também para a montra.
— Agora até aparecem nas montras.
Ela sorriu.
— Se calhar sempre estiveram lá.
Continuámos a caminhar.
Percebi que os ecos da história do Manuel começavam finalmente a perder força. Já não nos assustavam. Eram apenas uma lembrança que surgia de vez em quando, como uma conversa antiga.
No regresso, o trólei seguia quase vazio.
Sentámo-nos lado a lado.
Durante alguns minutos não falámos.
Observei discretamente os passageiros.
Uma senhora de meia-idade lia um livro.
Mais à frente, uma rapariga talvez dois ou três anos mais velha do que nós folheava distraidamente uma revista. Tinha um ar seguro, uma maneira de estar diferente das raparigas da nossa idade.
Dei por mim a reparar nisso.
Não porque fosse mais bonita do que a Dila.
Era simplesmente... diferente.
Mais mulher.
A ideia surgiu e desapareceu quase ao mesmo tempo.
Nem sequer lhe dei importância.
Voltei-me para a Dila, que continuava distraída a olhar pela janela.
Sorri sem saber porquê.
Ela reparou.
— Que foi?
— Nada.
— Tens a certeza?
— Tenho.
Na verdade não sabia explicar.
Sentia apenas que alguma coisa estava lentamente a mudar dentro de mim.
Não era a maneira como olhava para a Dila.
Era a maneira como começava a olhar para o mundo.
Cheguei a casa, almocei e fui para o DIFI.
Passei parte da tarde no centro e regressei depois ao salão do grupo. O trabalho sucedia-se com a mesma rotina de sempre, mas a cabeça fugia-me de vez em quando para as conversas da manhã e para aqueles pensamentos novos que surgiam sem pedir licença.
Regressei a casa por volta das sete.
Antes do jantar treinei um pouco e ensinei a Celeste alguns movimentos. Ela ria-se sempre que se enganava e obrigava-me a repetir tudo outra vez. Acabávamos os dois por nos rir.
Depois jantámos e vi televisão com os meus pais.
Foi um dia igual a tantos outros.
Mas comecei a desconfiar que as mudanças mais importantes não aconteciam de repente.
Aconteciam assim.
Devagar.
Quase em silêncio.
Até um dia olharmos para trás e percebermos que já não víamos o mundo exactamente da mesma maneira.
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