O sossego dos dias iguais

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Quarta-feira, 23 de Março de 1977

Acordei cedo, como em todos os dias de aulas. Enquanto me vestia ainda pensei na conversa que eu e a Dila tivéramos na véspera. Já não havia inquietação. Ficara apenas uma espécie de serenidade, como quando a água volta ao seu lugar depois de uma pedra lhe ter perturbado a superfície.

Saí de casa e segui para a paragem.

Cheguei primeiro.

Gostava daqueles minutos de espera. Eram sempre iguais e, no entanto, nunca me cansavam. Havia qualquer coisa de reconfortante em saber que, dali a pouco, ela surgiria no fundo da rua, com os livros apertados contra o peito e o passo ligeiramente apressado.

Foi exactamente assim que aconteceu.

Assim que me viu, sorriu.

— Hoje cheguei antes de ti?

Olhei para o relógio de propósito.

— Não. Eu é que cheguei cedo.

— Então estavas à minha espera.

— Não havia mais ninguém por quem esperar.

Ela abanou a cabeça, divertida.

— Convencido...

Sorri.

— Um bocadinho.

O trólei chegou pouco depois. Entrámos e sentámo-nos junto à janela.

Durante alguns minutos falámos apenas das aulas. A professora de História resolvera marcar um teste para depois das férias e isso parecia preocupar muito mais a Dila do que a mim.

— Já começaste a estudar? — perguntou.

— Ainda não.

Ela fez um ar de quem já esperava essa resposta.

— Eu sabia.

— Como é que sabias?

— Porque te conheço.

— Isso não vale.

— Vale, pois.

Ri-me.

— Então depois explicas-me a matéria.

Ela cruzou os braços, fingindo pensar.

— Posso explicar...

— Mas?

— Cobro.

— Quanto?

Olhou para mim com um sorriso malandro.

— Um bolo.

Fingi indignação.

— Isso é um assalto.

— Então estuda sozinho.

Acabámos os dois a rir.

Gostava daqueles momentos em que conversávamos sem pressa nem motivo. Parecia que o tempo dentro do trólei corria mais devagar do que o resto da cidade.

Ao passarmos por uma paragem, entrou uma jovem mãe com um bebé ao colo. Sentou-se algumas filas à nossa frente e tentou, sem grande sucesso, sossegá-lo. O pequeno olhava em volta com uma curiosidade que me fez sorrir.

A Dila acompanhou a cena em silêncio.

Depois murmurou:

— Deve ser tão difícil...

Olhei para a mãe.

Parecia cansada, mas havia qualquer coisa de tranquilo na maneira como embalava o filho.

— Deve.

O assunto morreu ali.

Mas ficou dentro de mim.

Pela segunda vez em poucos dias dei por mim a olhar para o mundo dos adultos de outra maneira. Até há pouco tempo aquelas cenas passavam-me despercebidas. Agora perguntava-me como começavam aquelas vidas. Em que momento uma rapariga deixava de ser apenas uma rapariga e passava a ser mulher. Em que momento um rapaz deixava de ser apenas um rapaz.

Olhei para a Dila.

Continuava a observar distraidamente o bebé.

Sorriu quando ele agarrou um dedo da mãe.

Sorri também.

Talvez crescer fosse uma coisa que acontecia devagar, sem ninguém dar por isso.

Chegámos aos liceus e despedimo-nos até ao fim das aulas.

A manhã passou sem sobressaltos.

Quando o último toque soou, fui esperá-la junto ao portão. Vi-a sair entre um grupo de colegas e, por um instante, fiquei apenas a observá-la. Falava animadamente, ria-se de qualquer coisa e gesticulava enquanto contava uma história. Quando me viu, despediu-se das amigas e veio direita a mim.

— Esperaste muito?

— O suficiente para ouvir metade da tua conversa.

Arregalou os olhos.

— Então ouviste?

— Não.

Respirou de alívio.

— Ainda bem.

— Mas fiquei curioso.

Ela sorriu.

— Vais continuar curioso.

Começámos a caminhar para a paragem.

Falámos dos testes, das férias que já se aproximavam e dos planos para os dias sem aulas. A conversa ia mudando de assunto naturalmente, como acontecia sempre entre nós.

No regresso, o trólei seguia mais cheio. Ficámos de pé durante algumas paragens, agarrados ao mesmo varão. Quando o veículo travava, inclinávamo-nos os dois ao mesmo tempo e acabávamos por rir daquela falta de equilíbrio.

— Um dia ainda caímos os dois.

— Desde que não sejas tu para cima de mim...

Olhei para ela com um ar muito sério.

— Que falta de confiança.

Ela riu-se.

— É experiência.

A cidade deslizava lentamente do outro lado da janela.

Durante alguns instantes ficámos calados.

Já não era um silêncio embaraçado.

Era apenas um silêncio nosso.

Percebi então que começava a distinguir duas formas muito diferentes de estar ao lado de uma rapariga.

Havia a curiosidade que o mundo começava agora a despertar em mim, ainda sem forma nem nome.

E havia aquela paz estranha que sentia sempre que a Dila caminhava ao meu lado.

As duas coisas não eram iguais.

Mas eu ainda estava muito longe de perceber porquê.

Cheguei a casa, almocei e, durante a tarde, fui para o DIFI.

Passei quase todo o tempo nos arquivos com outro colega. O trabalho era repetitivo e silencioso. Enquanto arrumava papéis e consultava pastas antigas, pensei várias vezes na conversa da manhã. Não em palavras concretas, mas na facilidade com que tudo acontecia entre nós. Bastava estarmos juntos para que o silêncio deixasse de pesar.

Só perto das oito horas regressámos a casa.

Jantei com a família e, mais tarde, sentei-me diante da televisão.

O dia não tivera nada de extraordinário.

E talvez fosse precisamente por isso que me parecia tão importante.

Havia dias que ficavam na memória pelos acontecimentos.

Outros ficavam porque nos ensinavam, quase sem darmos por isso, a felicidade discreta de caminhar ao lado de alguém.


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