As Outras Idades do Mundo
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Terça-Feira, 22 de Março de 1977
O aniversário da minha mãe passou quase em silêncio. Trinta e sete anos.
Disse-o como se diz uma data qualquer, mas ficou a pairar em mim um pensamento que não sei bem de onde veio. Enquanto lhe dava os parabéns, ocorreu-me, pela primeira vez, que também ela já tivera dezasseis anos. Nunca tinha pensado nisso. Para mim, os pais tinham começado no lugar onde os conheci, como se o tempo deles tivesse nascido adulto, completo, sem hesitações.
Ela sorriu quando lhe dei um beijo. Continuou a mexer na mesa, a arrumar pequenas coisas com a atenção de quem já sabe o dia inteiro que tem pela frente. Nada no mundo parecia ter mudado.
Mas eu tinha ficado ligeiramente deslocado.
Na paragem, a Dila já estava lá. Trazia o mesmo ar leve de sempre, como se o dia lhe tivesse sido entregue sem perguntas.
— Então… afinal o Manel continua solteiro — disse ela, assim que me viu.
Ri-me.
— Ao que parece.
Ela abanou a cabeça, satisfeita de uma forma estranha.
— Ainda bem…
Não perguntou mais nada. Eu também não. Algumas coisas não precisam de explicação para continuarem a existir.
Ficámos à espera do trólei como se nada tivesse acontecido ontem, mas não era verdade. Havia qualquer coisa mais fácil entre nós, como se o silêncio tivesse deixado de ser um lugar perigoso.
— Já estudaste História? — perguntou ela.
— Ainda não.
— Eu sabia.
— Como é que sabias?
— Porque te conheço.
— Isso é batota.
— Não. Chama-se experiência.
Sorriu com aquele ar de quem já decidiu tudo antes da conversa começar.
— Então logo explicas-me a matéria.
— Posso explicar… — disse, mais devagar.
— Então?
— Mas cobro.
— Quanto?
Pensou um instante, teatral.
— Um bolo.
Ri-me.
— És caríssima.
— Então estuda sozinho.
E ficou assim. Sem peso. Como se as coisas entre nós tivessem encontrado um sítio onde pousar.
O trólei avançava com o seu ruído antigo, metálico, quase humano.
Foi aí que vi a mulher grávida.
Não olhei logo de forma evidente. Mas vi. E não consegui deixar de olhar outra vez.
Havia nela qualquer coisa de inevitável, como se o corpo estivesse a cumprir um destino antigo e simples.
Não disse nada.
A Dila também reparou. Senti.
Não trocámos palavras. Só um olhar breve, quase distraído.
Ela sorriu de leve.
Como quem confirma um pensamento que não precisa de ser dito.
Mais tarde, já quase a sair, vimos uma jovem mãe a empurrar um carrinho de bebé.
O movimento era lento, cansado e ao mesmo tempo firme, como se fosse uma tarefa repetida muitas vezes sem nunca perder o sentido.
— Deve dar muito trabalho… — disse a Dila, baixinho.
— Deve… — respondi.
Silêncio.
Depois ela acrescentou:
— Mas é bonito.
Olhei para o bebé. Pequeno, fechado no seu mundo simples.
Não respondi logo.
Porque me ocorreu outra coisa, sem aviso.
Aquela mulher também teve a nossa idade.
E essa ideia ficou ali, sem lugar certo onde pousar.
Durante o caminho até ao liceu, quase não falámos. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio de coisas pequenas a acontecer por dentro.
As portas pneumáticas abriram-se na nossa paragem habitual e descemos para o cimento cinzento e húmido do passeio. O Porto parecia carregar o mesmo tom cinzento do céu, mas a luz que batia nos vidros das montras trazia já a subtileza de Março, uma claridade nova que teimava em despir o inverno.
Caminhámos devagar, o espaço entre nós preenchido pelo compasso compassado dos nossos passos e o roçar ligeiro das pastas da escola. A Dila mantinha os olhos postos no chão, chutando uma pequena pedra invisível com a ponta do sapato. Havia uma inércia mansa que nos arrastava desde a conversa do dia anterior, como se o medo de crescer que partilháramos no trólei se tivesse transformado numa espécie de abrigo.
— A que horas tens o teste amanhã? — perguntou ela, quebrando a cadência sem erguer o rosto.
— À primeira hora — respondi, ajustando a pasta contra o corpo. — Se não adormecer nas datas.
Ela sorriu de lado, um vislumbre rápido que iluminou o perfil do seu rosto.
— Se adormeceres, ficas sem o bolo.
— Isso é chantagem.
— Não — disse ela, parando junto à esquina que antecedia o portão do seu liceu. — É para o teu próprio bem.
Ficámos ali um momento, suspensos na berma do passeio, enquanto os outros alunos passavam por nós numa pressa barulhenta que parecia pertencer a outro mundo.
A Dila ajeitou a gola do casaco, um gesto simples que me prendeu o olhar. Olhei para as suas mãos, pequenas, apertadas contra os livros, e por um milésimo de segundo senti o impulso de estender os dedos e tocar-lhe na ponta dos dedos frios, quase sem querer, só para perceber se o tempo também passava por nós daquela maneira definitiva.
Ela ergueu os olhos e apanhou o meu gesto a meio. Não se moveu. O silêncio instalou-se entre nós, leve, morno, cheio daquela expectativa que nos deixa sempre à beira de dizer algo que ainda não sabemos o quê.
— Até logo, António — murmurou, com uma suavidade que me fez esquecer o burburinho da rua.
— Até logo, Dila.
Vi-a atravessar o portão e desaparecer na moldura de raparigas que enchiam o pátio.
No liceu, na sala de História, o professor debitava nomes de reis e tratados antigos com uma voz monocórdica que parecia vir de muito longe. Tentei fixar os apontamentos na sebenta, mas os algarismos dos séculos misturavam-se na minha cabeça com o número trinta e sete. Trinta e sete anos. O aniversário da minha mãe, a imagem da mulher grávida no trólei, a jovem mãe a empurrar o carrinho. Olhava para o quadro negro e as datas pareciam não ter substância, fantasmas de um tempo que já ninguém podia tocar.
O verdadeiro mistério estava ali no liceu ao lado, na fila da frente de uma sala qualquer, onde o sol da manhã batia de viés no cabelo dela, revelando a curva séria do seu pescoço focado nos livros. O mundo não mudava quando nós mudávamos, o mundo estava apenas a deixar-me ver, através de uma nesga invisível, que as idades se sobrepunham todas no mesmo espaço.
Quando o toque de saída finalmente ecoou pelos corredores, arrumei as coisas com uma pressa que tentei disfarçar. Saí para a rua e o ar do fim de tarde trazia já o cheiro a terra molhada.
Fui direito ao sítio do costume. Procurar a Dila no meio da multidão que saía do liceu era um hábito que já fazia parte da minha geografia, os meus olhos ignoravam dezenas de rostos até se fixarem na forma única como ela segurava a pasta contra o peito e inclinava ligeiramente a cabeça para o lado quando procurava alguém.
Desta vez, ela viu-me primeiro. O seu rosto desanuviou-se num sorriso imediato, aquele sorriso que me devolvia sempre o chão e desfazia qualquer dúvida que a manhã tivesse acumulado.
Caminhámos de regresso à paragem sem pressa, deixando que o dia arrefecesse devagarinho ao nosso redor. O trólei chegou pontual, os varões soltando faíscas azuis no entroncamento dos cabos. Entrámos e o veículo ia quase vazio, banhado pela luz dourada que entrava pelas janelas amplas. Sentámo-nos nos bancos de napa do fundo, lado a lado, enquanto a cidade deslizava lá fora como um filme antigo.
Nenhum de nós sentia necessidade de falar. O silêncio que partilhávamos agora já não era o lugar perigoso da semana passada, era um espaço macio, cheio de pequenos ecos. Olhei de soslaio para o reflexo dos nossos rostos na janela de vidro. Ali, sobrepostos à imagem das fachadas de granito que passavam a correr, parecíamos dois estranhos a caminho de um lugar que ainda não conhecíamos.
A mão da Dila repousava no banco, a escassos centímetros da minha perna. Sentia o calor ténue da sua proximidade e o movimento do trólei fazia com que os nossos ombros se tocassem de vez em quando, um impacto leve, quase imperceptível, que me acelerava o peito sem aviso. Ela não se afastou. Ficou ali, aceitando o balanço do carro e a minha proximidade com uma confiança silenciosa que me acalmava.
Quando finalmente descemos na nossa paragem, o crepúsculo já tinha dado lugar às primeiras sombras da noite. Caminhámos até à separação das nossas ruas.
— Vê lá se estudas as datas — disse ela, parando e olhando-me nos olhos com uma seriedade fingida.
— Vou tentar. Mas olha que o bolo mantém-se.
Ela soltou uma gargalhada curta, um som limpo que pareceu afastar toda a gravidade que tínhamos acumulado desde a manhã.
— Está bem, António. Se decorares as datas todas, tens o bolo.
Despediu-se com um aceno e começou a afastar-se pela rua fora, a sua silhueta tornando-se cada vez mais pequena. Fiquei a olhá-la até que a curva da esquina a levou de mim.
Regressei a casa, sentindo o frio da tarde a morder-me a cara.
No meu quarto abri dois livros de história, atirei-os para cima da cama, abri o caderno de apontamentos e uma sebenta e desliguei-me do dia. Só tinha uma coisa em mente, ganhar o direito a um bolo prometido. Tinha de me sair bem no teste de história. A tarde cresceu sem dar conta. Apenas as sombras da noite me despertaram desta tarde de estudo intenso. Arrumei tudo e fui para a cozinha.
Ao entrar, o cheiro do jantar da minha mãe preenchia o corredor, um aroma familiar que me trouxe de volta à realidade morna da casa. Jantámos todos, com a televisão ligada a emitir as imagens habituais do telejornal a que o meu pai prestava atenção.
Olhei para os meus pais, sentados nos seus lugares de sempre, os rostos iluminados pelo brilho azulado do ecrã, e pensei que crescer talvez não fosse um salto no escuro, mas sim esta lenta descoberta de que o tempo nos molda a todos sem pedir licença, e que a única certeza que me restava, enquanto ouvia o eco da voz da Dila na minha cabeça, era a de que o mundo dos adultos já tinha começado a desenhar-se à nossa volta, e que eu já não sabia caminhar por ele sem procurar o seu olhar na paragem da manhã.
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