Quando o mundo voltou ao seu lugar

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Segunda-feira, 21 de Março de 1977

O meu pai fez hoje trinta e nove anos.

Mal me levantei fui dar-lhe os parabéns. Sorriu satisfeito e agradeceu-me com um abraço breve, daqueles que dizem mais do que muitas palavras. Tomei o pequeno-almoço, despedi-me de casa e segui para a paragem.

Enquanto caminhava, pensei que a Dila devia ter passado o domingo tão inquieta como eu. Na sexta-feira, a notícia caíra sobre nós como uma pedra. Nem ela acreditara completamente, nem eu. Mas a dúvida bastara para nos deixar desconfortáveis.

Quando cheguei, ainda não estava.

Olhei instintivamente para o fundo da rua.

Reconheci-a antes de lhe distinguir o rosto. Trazia os livros apertados contra o peito e caminhava depressa, como fazia sempre que receava chegar atrasada. Mal me viu, apressou ainda mais o passo.

Nem sequer esperou pelo cumprimento.

— Então?... Há novidades?

Sorri.

Era exactamente a pergunta que esperava.

Fiz de propósito um ar muito sério.

— Há...

Ela parou diante de mim.

— Então?

Demorei um instante a responder.

— Parece que o Manel já anda à procura de padrinhos...

Os olhos dela abriram-se de espanto.

— António...

Ainda tentei aguentar mais um segundo, mas desatei a rir.

— Estou a brincar.

A Dila deu-me uma pequena pancada no braço com os livros.

— És impossível...

Mas não se riu.

O seu rosto continuava preocupado.

O sorriso desapareceu-me logo.

— A sério... não aconteceu nada.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— Foi tudo inventado pelo Manel.

Ficou a olhar para mim, sem dizer palavra.

— Tudo?

— Tudo.

— O casamento?

— Também.

— E... a rapariga?

Abanei a cabeça.

— Nem sequer existe.

Durante alguns segundos continuou calada, como se estivesse à espera que eu voltasse a rir e dissesse que era outra brincadeira.

Depois deixou escapar um longo suspiro.

— Ainda bem...

Sorriu muito de leve, mas o alívio era maior do que o sorriso.

— Passei o domingo inteiro a pensar na pobre rapariga.

Olhei para ela sem responder.

Era tão Dila.

Enquanto todos falávamos do Manel, ela tinha passado dois dias a preocupar-se com alguém que nem sequer conhecia.

Abanou a cabeça devagar.

— Vocês, rapazes... não têm mesmo juízo.

— Acho que tens razão...

Olhou para mim de lado.

— Achas?

— Tenho a certeza.

Sorriu finalmente.

Foi um sorriso pequeno, mas bastou para me devolver a tranquilidade que perdera no domingo.

Nesse instante ouviu-se o zumbido do trólei a aproximar-se. Os varões faiscaram ligeiramente ao passarem numa mudança de cabos. As portas pneumáticas abriram-se e entrámos.

Sentámo-nos lado a lado, junto à janela.

Durante alguns momentos nenhum de nós falou. O trólei deslizou pelas ruas ainda húmidas da manhã. O granito das fachadas parecia mais claro sob a luz de Março e as primeiras pessoas enchiam lentamente os passeios.

Foi a Dila quem retomou a conversa.

— O Manuel enlouqueceu?

Ri-me.

— Acho que sim.

— E lembrou-se de inventar logo uma coisa dessas?

— Nem ele imaginava que toda a gente fosse acreditar.

Ela ficou a olhar para a rua.

— As pessoas gostam muito de acreditar nas coisas más.

Nunca tinha pensado nisso.

Pareceu-me uma observação demasiado séria para alguém da nossa idade.

— Se calhar tens razão...

Ficou alguns segundos em silêncio.

— Sabes qual foi a pior parte?

— Qual?

— Pensei logo nos pais deles.

Assenti.

— Eu também.

— Devem ter sofrido imenso... se acreditaram.

— Ainda não sei se acreditaram.

— Espero que não.

Voltou a calar-se.

O trólei rangia suavemente ao descrever uma curva.

Ela continuava com os olhos presos à janela.

— Sabes...

Olhei para ela.

— Até agora parecia-me que estas coisas só aconteciam aos crescidos.

Demorei um pouco a responder.

Porque também nunca tinha pensado verdadeiramente nisso.

— Eu também pensava.

Sorriu, mas havia tristeza naquele sorriso.

— Afinal basta termos a nossa idade.

Não respondi.

As palavras ficaram suspensas entre nós.

Ao fim de alguns instantes perguntou quase em voz baixa:

— Achas que os nossos pais também passaram por tudo isto quando tinham a nossa idade?

Sorri.

— Nunca pensei nisso.

Ela riu-se pela primeira vez desde que chegara à paragem.

— Eu também não.

Depois voltou a ficar séria.

— Às vezes tenho medo de crescer.

Olhei para ela.

Nunca a ouvira dizer uma coisa tão íntima.

Nem sabia bem como responder.

Acabei por dizer apenas:

— Eu também.

Ela não olhou para mim.

Mas sorriu.

E esse sorriso bastou.

Quando chegámos ao Bonfim, descemos do trólei e caminhámos devagar até ao portão do seu liceu. A conversa tinha perdido a urgência da paragem. Já não falávamos do Manel. Falávamos da vida, embora ainda não soubéssemos dar esse nome ao que sentíamos.

Antes de entrar, voltou-se para mim.

— Logo contas-me se houver novidades.

— Conto.

Sorriu e desapareceu entre os outros alunos.

Fiquei a vê-la afastar-se até deixar de a distinguir.

As aulas passaram mais depressa do que era costume.

Quando terminaram, fui esperá-la junto ao portão. Gostava daquele momento. Procurava-a sempre entre dezenas de rostos até a descobrir ao longe. E, por mais gente que houvesse, acabava sempre por encontrá-la primeiro.

Assim que me viu, veio direita a mim.

— Afinal ainda pensaste na conversa da manhã?

— Pensei.

— Eu também.

Começámos o caminho para a paragem.

— Sabes uma coisa? — disse ela.

— O quê?

— Acho que o Manel teve sorte.

— Sorte?

— Sim... porque acabou tudo bem.

Sorri.

— Acabou porque era mentira.

Ela abanou a cabeça.

— Mesmo assim...

Ficou calada.

— Se fosse verdade... a vida de tanta gente mudava de um dia para o outro.

Olhei para ela.

Nunca tinha pensado na história daquela maneira.

Para mim fora apenas uma enorme brincadeira.

Ela obrigava-me a ver muito para além dela.

Entrámos novamente no trólei.

Desta vez ia mais cheio.

Ficámos de pé durante algumas paragens, agarrados ao mesmo varão. Quando finalmente dois lugares ficaram vagos, sentámo-nos lado a lado.

Ela olhou para mim com um ar quase envergonhado.

— Posso fazer-te uma pergunta?

— Claro.

Baixou os olhos antes de falar.

— Tu... alguma vez pensaste que uma coisa dessas também nos podia acontecer?

Senti o rosto aquecer.

Nunca tínhamos falado de um assunto assim.

Demorei alguns segundos a responder.

— Nunca.

Ela respirou fundo.

— Eu também nunca.

Sorriu, embaraçada.

— Ainda bem...

Olhámos os dois para a janela.

O silêncio instalou-se naturalmente.

Já não era um silêncio pesado.

Era apenas o silêncio de duas pessoas que tinham acabado de descobrir que crescer significava começar a pensar em coisas que, até então, pertenciam apenas ao mundo dos adultos.

Quando chegou a nossa paragem, descemos juntos.

Despedimo-nos como sempre.

Mas, enquanto a via seguir o seu caminho, tive a sensação de que aquela conversa nos aproximara de uma maneira diferente.

Não porque tivéssemos encontrado respostas.

Mas porque, pela primeira vez, tínhamos tido coragem de partilhar os mesmos medos.

Cheguei a casa, almocei e fui para o CRM.

A tarde passou entre uma reunião e o trabalho habitual. Estive lá até perto das oito, mas, sempre que havia um momento de silêncio, voltava a ouvir a voz da Dila:

— Às vezes tenho medo de crescer.

Quando regressei, o meu pai já estava em casa. Jantámos juntos para assinalar o seu aniversário e depois sentámo-nos diante da televisão.

Enquanto o ecrã iluminava a sala, pensei que crescer talvez fosse mesmo isso.

Descobrir, pouco a pouco, que o mundo dos adultos começava muito antes da idade adulta.

E sentir algum conforto por saber que, quando esse mundo finalmente chegasse, a Dila caminharia ao meu lado.


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