A “bomba” do Manel que não explodiu
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Domingo, 20 de Março de 1977
O Manel apareceu logo de manhã. Trazia estampada no rosto a preocupação de quem começava a perceber que uma mentira, por mais inocente que parecesse ao nascer, podia ganhar pernas e fugir ao controlo de quem a inventara.
Sentámo-nos no meu quarto e falou durante bastante tempo. A história do falso casamento, que começara como uma brincadeira, estava agora a criar embaraços que ele não previra. Ouvi-o mais do que falei. De vez em quando interrompia-o com uma pergunta ou outra, tentando ajudá-lo a encontrar uma maneira de desfazer aquele novelo antes que apertasse ainda mais.
Quando finalmente se despediu, fechei a porta e permaneci algum tempo parado, sem vontade de fazer fosse o que fosse.
Não era a situação dele que me ocupava o pensamento.
Era outra coisa.
Sem querer, dei por mim a imaginar como seria se um dia alguém começasse a inventar histórias sobre mim e sobre a Dila.
Até ali nunca tinha pensado verdadeiramente nisso.
Nós limitávamo-nos a conversar, a rir, a passear um pouco antes de cada um seguir o seu caminho. Tudo parecia tão natural que nunca me ocorrera olhar para aquilo pelos olhos dos outros.
Mas os outros existiam.
E falavam.
Talvez fosse inevitável.
Sorri ao lembrar-me dela. Bastava pensar no seu nome para a inquietação perder alguma força. Conhecia-a o suficiente para acreditar que nunca daria importância a mexericos. Ainda assim, uma dúvida ficou a pairar.
Devia falar-lhe sobre isto?
Talvez fosse sensato. Talvez fosse uma forma de evitar mal-entendidos.
Mas, logo a seguir, outra ideia empurrou essa para o lado.
Falar de quê, exactamente?
De uma mentira inventada pelo Manel?
Ou da possibilidade de um dia alguém fazer o mesmo connosco?
E, se lhe falasse, não estaria a dar um peso que a nossa amizade nunca precisara de ter?
Talvez ela interpretasse mal a conversa. Talvez pensasse que eu estava a levar tudo demasiado longe. Ou, pior ainda, que esperava dela uma resposta para perguntas que nunca lhe tinha feito.
Não.
Ainda não.
Havia coisas que precisavam do seu tempo. Não por falta de coragem, mas porque algumas palavras, ditas antes da hora, podiam estragar a simplicidade de tudo aquilo que, até ali, crescera de forma tão espontânea.
Depois folheei o jornal sem grande interesse. As letras sucediam-se diante dos olhos, mas a cabeça continuava noutro lugar.
Talvez por causa dessa conversa, talvez porque começasse a sentir que também eu estava a mudar, sentei-me à secretária e abri os livros.
Achei graça a mim próprio.
Se alguém me dissesse, semanas antes, que num domingo iria estudar por vontade própria, eu rir-me-ia. No entanto, ali estava eu, concentrado, descobrindo que aprender também podia ser uma forma de preparar o futuro, mesmo sem saber ainda qual seria.
Almocei, vi um pouco de televisão e, à tarde, fui para o DIFI.
Houve uma reunião e, depois, enquanto os restantes colegas se ocupavam do trabalho, aproveitei para continuar a estudar. O silêncio da sala ajudava a organizar não apenas a matéria dos livros, mas também os pensamentos que a manhã deixara em mim.
Quando os outros se foram embora, fiquei apenas com outro colega. Saímos já depois das oito da noite.
O ar fresco fez-me bem.
Enquanto caminhava para casa, apercebi-me de que passara quase todo o domingo a pensar na responsabilidade sem nunca lhe dar esse nome.
Gostar de alguém não era apenas esperar ansiosamente pela segunda-feira ou contar os minutos de uma viagem de trólei.
Era também querer proteger aquilo que, sem darmos por isso, começava a nascer entre duas pessoas.
Talvez fosse cedo para falar destas coisas.
Talvez nem houvesse motivo para o fazer.
Mas uma certeza acompanhou-me até casa.
Se algum dia tivesse de haver uma conversa, ela aconteceria primeiro entre mim e a Dila.
Nunca através dos outros.
Nunca por causa dos outros.
Jantei, vi um pouco de televisão e deitei-me.
Na manhã seguinte voltaria a vê-la.
E, sem saber porquê, essa simples ideia bastou para que o domingo terminasse mais leve do que começara.
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