À espera da verdade
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Sábado, 19 de Março de 1977
Acordei ainda com a conversa do dia anterior a ecoar-me na cabeça.
Antes de sair de casa, olhei de novo para os dois postais que a Dila me oferecera no meu aniversário. Durante alguns instantes, a serenidade daquelas palavras pareceu afastar a inquietação que o Manel deixara em todos nós.
Fechei a gaveta com cuidado e saí.
Quando cheguei à paragem, a Dila já esperava, acompanhada da Gisela.
Assim que me viu, procurou o meu olhar.
Não foi preciso perguntar como tinha passado a noite.
Bastou aquele primeiro instante para perceber que ambos trazíamos o mesmo pensamento.
— Bom dia.
— Bom dia.
A Gisela quebrou imediatamente a seriedade.
— Então? Hoje vamos descobrir se o noivo aparece de fato e gravata?
A Dila sorriu, mas apenas por um instante.
— Ainda estou convencida de que isto é uma brincadeira.
Olhei para ela.
— Eu também.
Entrámos no trólei.
Ao contrário de tantas outras manhãs, a conversa não começou logo.
Cada um parecia ocupado com os próprios pensamentos.
Foi a Dila quem acabou por quebrar o silêncio.
— Sabes qual foi a primeira coisa em que pensei quando cheguei a casa ontem?
— Não.
— Nos pais dele.
Olhei para ela.
— Eu também pensei nisso.
— Devem estar a sofrer imenso... se for verdade.
A Gisela abanou a cabeça.
— Vocês estão a acreditar demasiado nessa história.
Sorri.
— Espero sinceramente que tenhas razão.
Ela levantou o dedo, divertida.
— Vou ter.
Rimo-nos os três.
Foi um riso breve, mas bastou para aliviar um pouco o ambiente.
As aulas passaram rapidamente.
Ao terminar a última, fui ao encontro da Dila.
Saímos juntos do liceu e começámos a caminhar na direcção da paragem.
A Gisela seguia ao nosso lado, mas ia distraída a conversar com duas colegas que encontrara pelo caminho.
Ficámos alguns passos atrás.
Aproveitámos o momento.
— Ainda estás preocupado? — perguntou-me.
Assenti.
— Mais curioso do que preocupado.
Ela ficou alguns segundos calada.
— Eu não.
Olhei para ela.
— Não?
— Estou preocupada.
A resposta foi dita com uma sinceridade que me surpreendeu.
Continuámos a andar pelo passeio que nos levava ao Bonfim.
A Dila ficou a olhar para os carros que passavam.
— Ontem quase não consegui adormecer.
— Por causa do Manel?
Assentiu.
— Pensei muito na rapariga.
Fez uma pausa.
— Ninguém fala dela.
Nunca me tinha ocorrido.
Toda a conversa do dia anterior girara em torno do Manel.
Ela, pelo contrário, pensava primeiro na rapariga.
— Tens razão.
— Deve estar cheia de medo.
Ficámos em silêncio.
Aquela observação dizia muito sobre ela.
A Dila tinha uma maneira muito própria de olhar para as pessoas.
Via primeiro o lado humano das coisas.
Antes dos julgamentos.
Antes das conclusões.
Olhei para ela.
— Sabes...
Ela voltou-se.
— Gosto da maneira como pensas.
Corou ligeiramente.
— Porquê?
— Porque consegues ver aquilo que quase ninguém vê.
Baixou os olhos, visivelmente embaraçada.
Depois sorriu.
— Também gosto de conversar contigo por causa disso.
O meu coração acelerou.
Não era uma declaração.
Mas era uma das frases mais bonitas que alguma vez me tinha dito.
A Gisela regressou nesse instante.
— Vocês têm uma mania...
— Qual? — perguntei.
— Começam conversas profundas logo de manhã.
A Dila riu-se.
— A culpa é dele.
— Minha?
— Sim.
— Então aceito a culpa.
Voltámos todos a rir.
A viagem de regresso decorreu num ambiente mais leve.
Falámos de assuntos sem importância.
Dos testes.
Do treino de Karaté.
Das músicas que passavam na rádio.
A conversa acabou por regressar ao Manel.
— Então vais à igreja? — perguntou a Dila.
— Não sei.
— Eu também não.
A Gisela fez uma careta.
— Eu cá não vou perder um sábado por causa das invenções dele.
A resposta arrancou-nos outra gargalhada.
Talvez fosse exactamente aquilo de que precisávamos.
Chegados ao nosso destino, despedimo-nos.
Antes de se ir embora, a Dila aproximou-se um pouco mais.
— Se souberes alguma coisa...
— Conto-te na segunda-feira.
Sorriu.
— Eu faço o mesmo.
Ficámos alguns segundos sem dizer nada.
Depois ela acrescentou:
— Tem um bom domingo.
— Tu também.
Vi-a afastar-se lentamente.
Mais uma vez tive a sensação de que havia qualquer coisa entre nós que já não precisava de muitas palavras.
As conversas continuavam a aproximar-nos.
Mas começava a ser nos silêncios que mais nos entendíamos.
Depois de almoçar, encontrei-me com alguns colegas do grupo. Vieram comigo até casa para levantar as chaves do DIFI e seguiram à frente.
Descansei um pouco e fui ter com eles.
A tarde passou quase toda a ajudar o Mazola em vários trabalhos. Quando dei pela hora, já eram sete.
Regressei a casa cansado, mas ainda tive energia para sair novamente.
À noite fui ao cinema, no Porto, com o meu pai.
Enquanto esperávamos o início da sessão, dei comigo a pensar que a vida era feita de histórias.
Algumas eram inventadas, projectadas num ecrã.
Outras escreviam-se todos os dias, sem que ninguém desse por isso.
E havia uma, em particular, que eu sentia crescer lentamente.
Não fazia barulho.
Não tinha grandes acontecimentos.
Era feita de viagens de trólei, passeios por jardins, conversas interrompidas pelo toque das aulas e despedidas adiadas até ao último instante.
Talvez fosse precisamente por isso que era tão verdadeira.
Porque os sentimentos mais importantes raramente chegam de repente.
Chegam devagar.
Como a Primavera.
Sem pedir licença.
Até ao dia em que olhamos à nossa volta e percebemos que tudo floresceu.
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