A idade em que o futuro assusta
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Sexta-feira, 18 de Março de 1977
Os dois postais continuavam em cima da secretária.
Antes mesmo de sair de casa, voltei a pegar neles.
Li, mais uma vez, as palavras que a Dila me escrevera.
Não demorou mais de um minuto.
Mas bastou para que o dia começasse de outra maneira.
Guardei-os cuidadosamente na gaveta.
Sabia que voltaria a lê-los muitas vezes.
Quando cheguei à paragem, ela já lá estava.
Assim que me viu, sorriu.
— Então... gostaste da surpresa?
Sorri também.
— Foste tu que preparaste tudo aquilo?
Fingiu não perceber.
— O quê?
— Os postais.
Baixou ligeiramente os olhos.
— Gostaste?
— Muito.
Houve um pequeno silêncio.
Depois acrescentei:
— Não estava à espera.
Ela olhou novamente para mim.
— Eu queria que tivesses uma recordação diferente deste aniversário.
Fiquei sem palavras.
Entrámos no trólei.
Durante alguns minutos continuámos calados, mas não era um silêncio incómodo.
Pelo contrário.
Parecia que ambos sabíamos que algumas coisas não precisavam de ser desenvolvidas.
Bastava terem sido ditas.
A certa altura, tirei coragem.
— Obrigado.
Ela sorriu apenas.
Mas naquele sorriso havia uma alegria tranquila que me acompanhou durante toda a viagem.
As aulas terminaram na hora habitual.
Quando saí do liceu encontrei o Manel.
Trazia um ar misterioso.
Mal me viu, puxou-me para um canto do recreio.
— Tenho uma coisa para te dizer.
— Diz.
Olhou em volta, como se quisesse certificar-se de que ninguém nos ouvia.
Depois disse, muito sério:
— Vou casar.
Olhei para ele.
Esperei que se risse.
Não se riu.
— Estás a brincar.
— Não.
Continuou com a mesma expressão.
— Vou ser pai.
Fiquei completamente imóvel.
Conhecia o Manel há tempo suficiente para saber quando inventava histórias.
Mas naquele momento não consegui perceber.
Havia qualquer coisa na maneira como falava que me deixou hesitante.
— Estás a falar a sério?
Assentiu.
— Se quiseres saber a verdade, amanhã vai à igreja.
Ficou apenas isso.
Virou costas e foi-se embora.
Continuei alguns segundos parado.
Sentia-me incapaz de organizar os pensamentos.
Dezasseis anos.
Casar.
Ser pai.
As palavras pareciam pertencer a pessoas muito mais velhas.
Enquanto caminhava para o liceu da Dila, dei comigo a pensar que, afinal, a vida podia mudar de um dia para o outro.
Ela saiu poucos minutos depois.
Bastou olhar para mim para perceber que alguma coisa não estava bem.
— O que aconteceu?
Contei-lhe a conversa com o Manel.
À medida que falava, ela começou por sorrir.
Depois riu-se.
— Isso é impossível.
— Também achei.
Mas, quando terminei de contar exactamente o que ele dissera, o sorriso desapareceu lentamente.
Ficou calada.
— Achas que pode ser verdade?
Encolhi os ombros.
— Já não sei o que pensar.
Começámos a caminhar.
A Gisela seguia connosco, ouvindo tudo com a mesma incredulidade.
— Ele está a gozar convosco.
— Espero que sim — respondeu a Dila.
Fez-se um silêncio pouco habitual entre nós.
Durante alguns minutos ninguém encontrou vontade para brincar.
Foi ela quem voltou a falar.
Muito baixinho.
— Se isso for verdade...
Olhou para o chão.
— Os pais dela devem estar desesperados.
Assenti.
Ela continuou.
— E os dele também.
Percebi que já não estava a pensar apenas no Manel.
Estava a imaginar todas as consequências.
As famílias.
A escola.
Os sonhos interrompidos.
A infância que terminava demasiado cedo.
Passámos diante da Cordoaria quase sem reparar.
Nem nos sentámos.
Continuámos apenas a caminhar.
Ao fim de algum tempo perguntei-lhe:
— Em que estás a pensar?
Demorou alguns segundos a responder.
— Em como a nossa vida pode mudar muito depressa.
Olhei para ela.
Nunca a tinha visto tão séria.
— Assusta-te?
Assentiu.
— Um bocadinho.
Ficámos em silêncio.
Depois, quase num murmúrio, acrescentou:
— Ainda somos tão novos...
A frase ficou suspensa entre nós.
Era a primeira vez que falávamos, mesmo que indirectamente, do futuro.
Não do futuro dos testes ou das férias.
Do futuro da vida.
Entrámos no trólei.
Ao contrário do costume, a viagem fez-se mais calma.
As conversas existiram.
Mas eram mais pausadas.
A notícia do Manel continuava presente.
A certa altura, ela voltou-se para mim.
— Achas mesmo que ele está a falar a sério?
Olhei pela janela.
— Não sei.
— Eu gostava que fosse uma brincadeira.
— Eu também.
Sorriu muito ligeiramente.
— Nunca pensei desejar tanto que alguém estivesse a mentir.
Foi impossível não sorrir também.
A tensão diminuiu um pouco.
Quando nos aproximávamos do nosso destino, ela perguntou de repente:
— António...
— Sim?
— Tu acreditas que as pessoas podem gostar uma da outra e, mesmo assim, esperar?
A pergunta apanhou-me completamente desprevenido.
Demorei alguns segundos a responder.
— Acho que sim.
Ela continuou a olhar para a frente.
— Eu também.
Não acrescentou mais nada.
Nem eu.
Mas aquela conversa ficou muito para lá da história do Manel.
Parecia falar de outra coisa.
De nós.
Ou talvez fosse apenas a minha imaginação.
Quando descemos do trólei, caminhámos devagar.
No cruzamento onde costumávamos despedir-nos, ela ficou alguns instantes parada.
— Amanhã já devemos saber a verdade.
— Sim.
Olhou para mim.
— Espero que seja mesmo uma brincadeira.
— Também eu.
Sorriu, mas era um sorriso cansado.
Despediu-se e afastou-se lentamente.
Fiquei a vê-la seguir caminho.
O diário dirá apenas que a deixei muito pensativa.
A verdade é que também eu fiquei.
Até ali, o nosso mundo cabia entre a paragem, o trólei, os dois liceus e os passeios pelas ruas do Porto.
Naquele dia percebemos, talvez pela primeira vez, que existia um mundo muito maior à nossa volta.
Um mundo onde as decisões tinham consequências.
Onde crescer podia acontecer antes do tempo.
À tarde almocei, descansei um pouco e, já recomposto, estudei antes de seguir para a Academia. O treino ajudou-me a libertar a tensão acumulada durante o dia, mas nem os exercícios conseguiram afastar completamente os pensamentos que me acompanhavam desde a conversa com o Manel.
Nessa noite, antes de adormecer, voltei a olhar para os dois postais da Dila.
Pensei na alegria simples do dia anterior.
E na inquietação daquele dia.
Talvez crescer fosse precisamente isto.
Descobrir que a vida é capaz de colocar, lado a lado, a felicidade mais serena e as perguntas para as quais ainda não sabemos responder.
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