Dois postais

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Quinta-feira, 17 de Março de 1977

Hoje fiz dezassete anos.

Acordei antes de toda a gente.

Ainda estava de olhos fechados quando ouvi a porta do quarto abrir-se devagar.

A minha mãe aproximou-se da cama e pousou a mão no meu ombro.

— Parabéns, filho.

Abri os olhos.

Sorri.

Ela inclinou-se e deu-me um beijo na testa, como fazia desde que me lembrava.

— Dezassete anos já...

— Parece que foi ontem.

Ela riu-se.

— Não digas isso, que me faz sentir mais velha.

Ficámos alguns instantes a conversar, ainda naquele silêncio próprio das primeiras horas da manhã. Depois levantei-me, tomei o pequeno-almoço e preparei-me para sair.

Enquanto caminhava para a paragem, pensei que os aniversários tinham uma estranha capacidade de nos fazer olhar para trás.

Dezassete anos.

Pareciam muitos.

Ao mesmo tempo, pareciam tão poucos.

Quando cheguei, ela já lá estava.

Assim que me viu aproximar, sorriu de uma maneira diferente.

Mais doce.

Esperou que eu chegasse perto.

— Muitos parabéns, António.

Disse-o devagar.

Como se quisesse que aquelas palavras durassem um pouco mais.

— Obrigado.

Não consegui dizer mais nada.

Ela tirou uma pequena flor branca que trazia presa ao casaco.

— Hoje é um dia especial.

Olhei para a flor.

Depois para ela.

— Lembraste-te.

Franziu a testa, surpreendida.

— Claro que me lembrei.

Sorri.

Talvez a minha alegria tivesse sido maior do que ela esperava.

Entrámos no trólei.

Durante a viagem falou-se de aniversários de infância, de bolos desajeitados feitos em casa, de velas que insistiam em não apagar.

A conversa corria naturalmente.

Mas eu dava comigo a reparar mais no modo como ela sorria do que nas palavras.

Era um daqueles dias em que a sua presença bastava.

Quando a deixei à porta do liceu, preparava-me para seguir caminho quando ouvi alguém chamar-me.

— António!

Voltei-me.

Era a Gisela.

Aproximou-se quase a correr.

— Também te queria dar os parabéns.

Estendeu-me a mão.

— Obrigada... quer dizer... parabéns!

Tropeçou nas palavras e começou imediatamente a rir-se.

Eu ri-me também.

— Obrigado, Gisela.

Ela olhou para a Dila.

— Vês? Eu disse que não me esquecia.

A Dila limitou-se a sorrir.

Havia uma cumplicidade estranha entre as duas naquele dia.

Na altura não lhe dei importância.

As aulas passaram como tantas outras.

Nem particularmente interessantes, nem especialmente difíceis.

Ao meio-dia fui esperá-la.

Assim que saiu, caminhou na minha direcção.

— Então, senhor aniversariante...

— Isso soa estranho.

— Tens de te habituar durante um dia.

Começámos a andar.

A Gisela seguia connosco, comentando que o António estava oficialmente "mais velho e mais responsável", o que serviu apenas para alimentar uma sucessão de brincadeiras durante boa parte do passeio.

Acabámos por nos sentar alguns minutos num banco da Cordoaria.

A Gisela levantou-se para ir comprar um rebuçado.

Ficámos sozinhos.

Ela olhou para mim.

— Sabes...

Fez uma pequena pausa.

— Gosto de fazer anos.

— Eu também.

— Mas gosto mais dos aniversários das pessoas de quem gosto.

Olhei para ela.

O coração bateu um pouco mais depressa.

Ela pareceu não dar por isso.

Continuou a olhar para as árvores.

— É engraçado vê-las felizes.

Não consegui responder imediatamente.

Apenas murmurei:

— Nunca tinha pensado nisso.

Ela sorriu.

— Eu penso muitas vezes.

Nesse instante regressou a Gisela e a conversa tomou outro rumo.

Mas aquela frase ficou comigo.

"Das pessoas de quem gosto."

Não sabia exactamente o significado que ela lhe dava.

Sabia apenas o significado que aquelas palavras tinham para mim.

A viagem de regresso decorreu tranquila.

Falámos de assuntos sem importância.

Das aulas.

Do tempo.

Do próximo fim-de-semana.

Quando chegámos ao nosso destino, despedimo-nos como habitualmente.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Vi-a afastar-se.

Nada fazia prever que aquele dia ainda me guardava a maior surpresa.

Depois de almoçar em casa, deitei-me um pouco.

Sentia-me estranhamente cansado e acabei por passar grande parte da tarde na cama.

Ao levantar-me, a minha mãe chamou-me.

— António... chegou correio para ti.

Fui até à sala.

Sobre a mesa estavam várias cartas.

Peguei nelas sem pressa.

Uma da minha avó.

Outra da Gisela.

E duas... da Dila.

Fiquei imóvel.

— Duas?

Perguntei quase para mim.

Abri primeiro a da minha avó.

Depois a da Gisela.

Sorri com as palavras simples e sinceras.

Mas os meus olhos voltavam sempre às duas da Dila.

Peguei na primeira.

Era um postal.

Bonito, delicado, escolhido com cuidado.

Li a dedicatória uma vez.

Depois outra.

Passei imediatamente ao segundo.

Também era um postal.

Diferente.

Com outras palavras.

Outra imagem.

Outra mensagem.

Sentei-me sem dar conta.

Fiquei muito tempo com os dois postais nas mãos.

Pensei no tempo que ela tivera de os escolher.

Em entrar numa papelaria.

Olhar para dezenas deles.

Decidir levar dois.

Escrever duas dedicatórias.

Lembrar-se de mim antes mesmo do meu aniversário chegar.

Foi então que me lembrei da tarde de terça-feira.

Da papelaria.

Do expositor de postais.

Do tempo que ela passara diante deles.

Sem eu imaginar que aqueles postais eram para mim.

Sorri sozinho.

As peças encaixaram-se de repente.

A Gisela a querer dizer qualquer coisa.

O embaraço da Dila.

Os sorrisos trocados entre as duas.

Tudo fazia sentido.

Fiquei a reler aquelas palavras durante muito tempo.

Não eram declarações.

Nem precisavam de o ser.

O gesto dizia muito mais.

Porque um postal pode comprar-se por obrigação.

Dois escolhem-se por vontade.

Ao fim da tarde ainda estudei Química durante algum tempo.

Mas os olhos regressavam constantemente aos postais, pousados sobre a secretária.

Acabei por voltar a lê-los.

Mais uma vez.

E outra.

Depois do jantar vi um pouco de televisão e conversei com a minha irmã.

Mas, já deitado, antes de apagar a luz, levantei-me novamente.

Acendi o candeeiro.

Peguei nos dois postais.

Observei-os demoradamente.

Pensei em tudo o que aquela semana nos aproximara.

Nas conversas.

Na chuva.

Nos passeios.

Nas gargalhadas.

E, de repente, percebi que aqueles dois pequenos rectângulos de cartão eram muito mais do que um simples presente de aniversário.

Eram a prova de que eu ocupava um lugar especial na vida dela.

Não sabia qual.

Nem precisava de lhe dar um nome.

Bastava-me saber que, entre todos os postais que existiam naquela papelaria, ela escolhera dois.

E que ambos tinham vindo parar às minhas mãos.


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