Na véspera dos dezassete

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Quarta-feira, 16 de Março de 1977

Acordei sem pensar que aquele era o último dia dos meus dezasseis anos.

Foi uma ideia que só me ocorreu mais tarde.

Naquele momento, a única coisa em que pensava era na rotina que, sem dar por isso, se tornara a melhor parte dos meus dias.

Saí de casa, tomei o pequeno-almoço e segui para a paragem.

Ela já lá estava.

Trazia o cabelo solto e um livro debaixo do braço.

Quando me aproximei, sorriu.

— Hoje chegaste cedo.

— Ou foste tu que chegaste tarde.

Ela fingiu pensar.

— Prefiro a tua versão.

Rimo-nos.

Já não havia formalidades entre nós. As pequenas provocações surgiam naturalmente, sem receio de serem mal interpretadas.

Entrámos no trólei.

O banco do costume estava livre.

Sentámo-nos junto à janela.

Enquanto o veículo avançava pelas ruas ainda sonolentas, ela abriu o livro que trazia consigo.

— Olha o que comecei a ler.

Estendeu-mo.

Folheei algumas páginas.

— Está a gostar?

— Muito.

— Vale a pena?

Assentiu.

— Quando acabar, empresto-to.

Olhei para ela.

— Tens a certeza?

— Claro.

Sorri.

Naquela altura, emprestar um livro parecia-me um gesto de confiança.

Os livros guardavam marcas de quem os lia. Dobras discretas nas páginas, pequenos papéis esquecidos entre capítulos, pensamentos escritos a lápis na margem. Não se entregavam a qualquer pessoa.

Devolvi-lho.

— Então fico à espera.

Ela fechou o livro com cuidado.

— Prometido.

A manhã trouxe apenas duas aulas.

No intervalo atravessei o recreio para a procurar.

Encontrei-a perto do muro, onde tantas vezes nos refugiávamos do barulho.

Estava sozinha.

Assim que me viu, guardou o livro na pasta.

— Estava a pensar que ias demorar mais.

— Também pensei que te ia encontrar rodeada de colegas.

Sorriu.

— Hoje apetecia-me um bocadinho de sossego.

Começámos a caminhar lentamente pelo recreio.

Não falámos logo.

Às vezes o silêncio era apenas uma continuação da conversa anterior.

Ela foi a primeira a quebrá-lo.

— Sabes qual é a coisa de que mais gosto nas nossas viagens?

Pensei um instante.

— Das conversas?

Abanou a cabeça.

— Também.

Fez uma pausa.

— Gosto de não sentir pressa.

Olhei para ela.

— Nunca tinha pensado nisso.

— Na escola estamos sempre a correr. Em casa também há sempre qualquer coisa para fazer.

Sorriu.

— No trólei parece que o tempo abranda.

Olhei pela janela do corredor que dava para a rua.

Talvez tivesse razão.

Nunca me tinha acontecido desejar que uma viagem demorasse mais.

Agora acontecia quase todos os dias.

O toque interrompeu-nos.

Antes de entrar para a aula, ela olhou para mim.

— Até logo.

Havia qualquer coisa naquela expressão que me transmitia uma estranha serenidade.

Como se soubéssemos ambos que o dia ainda estava longe de terminar.

Quando as aulas acabaram, fui esperá-la.

Assim que saiu, caminhámos em direcção ao centro.

A Gisela juntou-se a nós poucos metros depois.

A conversa começou com um episódio divertido passado numa aula e acabou, como tantas vezes, sem sabermos muito bem como.

Descemos até à Cordoaria.

Sentámo-nos no banco do costume.

A tarde estava agradável.

As árvores começavam lentamente a vestir-se de verde.

A Primavera anunciava-se em pequenos sinais que só quem olhasse com atenção conseguia descobrir.

A Gisela levantou-se para ir comprar um pacote de amendoins.

Assim que ficámos sozinhos, a Dila olhou para mim.

— Amanhã...

Parou a meio da frase.

— O que foi?

Sorriu.

— Nada.

— Já começaste e agora tens de acabar.

Riu-se.

— Não.

— Isso não vale.

Baixou os olhos por um instante.

— Amanhã falamos.

Fiquei intrigado.

— Estás a esconder alguma coisa.

Olhou-me directamente.

— Talvez.

Antes que pudesse insistir, a Gisela regressou.

— O que é que vocês estão a conspirar?

A Dila respondeu imediatamente:

— Nada.

Olhámos um para o outro e sorrimos.

Era evidente que havia qualquer coisa que eu desconhecia.

Mas, curiosamente, não me incomodava.

Pelo contrário.

Havia um certo encanto naquele pequeno mistério.

A viagem de regresso decorreu num ambiente tranquilo.

A Gisela saiu antes de nós.

Despediu-se com um sorriso.

— Até amanhã!

Quando ficámos sozinhos, olhei para a Dila.

— Então?

— Então o quê?

— Amanhã.

Sorriu com um brilho malicioso nos olhos.

— Tens de esperar.

— Nem uma pista?

Abanou a cabeça.

— Nem uma.

Suspirei teatralmente.

— Assim não é justo.

Ela riu-se baixinho.

— Amanhã percebes.

Durante o resto da viagem já não falou mais no assunto.

Conversámos sobre livros, sobre um professor particularmente exigente e sobre o treino de Karaté do dia seguinte.

Mas eu continuava a pensar naquele "amanhã".

Quando chegámos ao nosso destino, caminhámos até ao cruzamento habitual.

Antes de se despedir, ficou alguns segundos a olhar para mim.

— Dorme bem.

Estranhei.

Normalmente limitávamo-nos a dizer "até amanhã".

— Tu também.

Ela afastou-se.

Ao fim de alguns passos voltou-se apenas para acenar.

Vi-a desaparecer ao fundo da rua com a curiosidade a crescer dentro de mim.

À tarde fui para o DIFI, onde aproveitei para arrumar a minha secção. O trabalho ocupou-me boa parte do tempo e, ao regressar a casa, ainda assisti a um jogo de futebol na televisão. Mais tarde acompanhei o meu pai até à sede do Partido Comunista e terminei a noite a ver um filme.

Mas, quando me deitei, não pensei no futebol, nem no DIFI, nem sequer no filme.

Pensei apenas naquela palavra que ela deixara suspensa durante todo o dia.

"Amanhã."

Sorri no escuro.

Sem o saber, estava prestes a deixar para trás os meus dezasseis anos.

E havia qualquer coisa dentro de mim que me dizia que os dezassete iam começar da melhor maneira possível.


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