O regresso das conversas inacabadas

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Segunda-feira, 14 de Março de 1977

A segunda-feira tinha sempre qualquer coisa de reencontro.

O domingo servia para descansar, trabalhar no DIFI ou estar com a família. Mas, por mais ocupado que estivesse, havia uma parte de mim que permanecia à espera da manhã seguinte.

Quando saí de casa, o ar ainda estava fresco. Caminhei até à paragem com aquela sensação familiar de quem sabe que, dali a poucos minutos, o melhor momento do dia começaria.

Ela apareceu ao fundo da rua.

Trazia um livro apertado contra o peito e caminhava com o passo apressado de quem receava perder o trólei.

Assim que me viu, abrandou.

Sorriu.

— Bom dia.

— Bom dia.

Mal chegou ao pé de mim, perguntou imediatamente:

— Então... como foi o teu domingo?

Sorri.

— Nem sequer me deixaste cumprimentar-te primeiro.

Ela riu-se.

— Tens razão.

Fez uma pequena vénia exagerada.

— Bom dia, António.

Entrei na brincadeira.

— Muito bom dia, menina Odília.

Os dois rimo-nos.

Depois respondeu com um ar curioso:

— Agora podes contar.

Percebi então que se lembrara da pequena promessa feita no sábado.

"Na segunda-feira contas-me como correu o teu fim-de-semana."

Contei-lhe a eleição no DIFI, as fotografias que tiráramos e a responsabilidade acrescida que agora tinha.

Ela ouviu tudo com atenção.

Não me interrompeu uma única vez.

Quando terminei, sorriu.

— Sabia que ias ser escolhido.

Olhei para ela, surpreendido.

— Como podias saber?

Encolheu os ombros.

— Porque gostas daquilo que fazes.

Fez uma pausa.

— E as pessoas notam isso.

A resposta deixou-me desarmado.

Não era um elogio exagerado.

Era apenas uma observação sincera.

Talvez por isso tivesse tanto valor.

Entrámos no trólei.

Enquanto seguíamos em direcção ao Porto, foi a vez dela contar o seu domingo.

Falou-me de um almoço demorado em família, de uma tia que aparecera de surpresa e de um bolo que a mãe fizera.

Contava as coisas simples como se fossem importantes.

E, curiosamente, tornavam-se mesmo importantes.

Começava a descobrir que gostava de ouvir a Dila falar da sua vida.

Não porque fossem acontecimentos extraordinários.

Mas porque eram dela.

As aulas decorreram sem grandes novidades.

Num intervalo consegui vê-la ao longe, no recreio do liceu.

Ela estava rodeada de colegas e não reparou em mim.

Parei alguns instantes.

Não fiz nenhum gesto para chamar a atenção.

Limitei-me a observá-la.

Ria-se de qualquer coisa que uma amiga acabara de dizer.

Depois afastou uma madeixa de cabelo da cara, exactamente com aquele gesto que já lhe conhecia.

Sorri sem dar por isso.

Continuei caminho.

Foi uma sensação estranha.

Não precisava que ela me visse para gostar de a ver.

Quando terminou as aulas, fui esperá-la ao portão.

Assim que saiu, procurou-me imediatamente com os olhos.

Ao encontrar-me, fez aquele sorriso que já começava a reconhecer de longe.

— Esperaste muito?

— Nem por isso.

Começámos a caminhar.

A guarda-costas apareceu poucos minutos depois e juntou-se a nós.

Seguimos pelas ruas habituais do Porto, sem grande pressa.

Já não discutíamos o caminho.

Os pés pareciam escolhê-lo sozinhos.

Passámos pela Cordoaria.

Sentámo-nos alguns minutos num banco.

A Gisela entretinha-se a observar um grupo de crianças que brincava mais adiante.

Ficámos quase sozinhos.

Ela olhou para as árvores ainda despidas.

— Daqui a pouco chega a Primavera.

— Também acho.

— Gosto desta altura do ano.

Olhei em volta.

— Ainda está tudo meio cinzento.

Ela sorriu.

— Mas já se nota.

— O quê?

— Que as árvores estão a preparar-se.

Fiquei a olhar para os ramos.

À primeira vista pareciam iguais aos de Inverno.

Depois reparei nos pequenos rebentos.

Quase invisíveis.

Ela tinha razão.

As mudanças importantes começavam sempre devagar.

Continuámos a andar.

Falámos dos testes que se aproximavam, dos trabalhos do DIFI, da Academia, das aulas.

Mas, pelo meio, surgiam pequenas perguntas que já não pertenciam apenas à escola.

— Qual é o teu mês preferido?

— Tens medo do escuro?

— Se pudesses viajar para qualquer sítio, para onde ias?

E cada resposta parecia abrir caminho para outra conversa.

Como se estivéssemos, pouco a pouco, a descobrir o mapa um do outro.

A viagem de regresso fez-se com a serenidade habitual.

Já não era preciso encher todos os silêncios.

Às vezes bastava olhar pela janela.

Outras vezes comentávamos qualquer coisa que víamos passar.

Ela apoiou o queixo na mão e ficou a observar a cidade.

— Sabes uma coisa?

— Diz.

— Acho que os fins-de-semana são compridos demais.

Ri-me.

— Ainda ontem dizias que precisavas de descansar.

— Preciso.

Olhou para mim.

— Mas também sinto falta das nossas conversas.

A frase foi dita com uma naturalidade desarmante.

Como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Eu limitei-me a responder:

— Eu também.

Não era preciso acrescentar mais nada.

Pela primeira vez, senti que aquela saudade de segunda-feira não era apenas minha.

Quando chegámos ao nosso destino, caminhámos devagar até ao cruzamento habitual.

Antes de se despedir, perguntou:

— Amanhã contas-me como correu o DIFI hoje?

Sorri.

— Se tu me contares como foi a tua aula de História.

— Combinado.

Despediu-se com um pequeno aceno e afastou-se.

Fiquei a vê-la caminhar até desaparecer na esquina.

Pensei no que me dissera pouco antes.

"Também sinto falta das nossas conversas."

Durante meses interrogara-me se aqueles momentos significavam tanto para ela como significavam para mim.

Naquela tarde pareceu-me encontrar, finalmente, uma resposta.

Às vezes não era preciso fazer grandes perguntas.

Bastava escutar com atenção as palavras mais simples.

À tarde almocei em casa, arrumei alguns livros e segui para o DIFI. Um colega fez-me companhia durante quase toda a tarde e as horas passaram entre conversas e trabalho. Regressei já depois das sete e passei o resto da noite tranquilamente com a família. Era também o aniversário da minha irmã Zulmira, e houve um ambiente sereno à volta da mesa.

Mas, quando me deitei, não foi esse o pensamento que ficou.

O que permaneceu foi uma frase dita quase sem importância, durante a viagem de regresso.

"Também sinto falta das nossas conversas."

Sorri no escuro.

Talvez a Primavera não estivesse apenas a nascer nas árvores. Talvez estivesse, silenciosamente, a nascer também dentro de nós.


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