Os parabéns que ficaram por dizer

← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →

Terça-feira, 15 de Março de 1977

Esta manhã acordei com a sensação de que a Primavera já se aproximava. O frio continuava a fazer-se sentir nas primeiras horas do dia, mas a luz era diferente. Mais clara. Mais demorada.

Saí de casa e encontrei a Dila na paragem.

Não vinha sozinha.

Ao seu lado seguia a Gisela, tão bem-disposta como de costume.

Assim que me aproximei, reparei que trazia um pequeno laço azul preso ao cabelo.

Sorri.

— Hoje há festa?

Antes que pudesse responder, a Dila adiantou-se.

— Esqueceste-te?

Olhei primeiro para uma e depois para a outra.

A Gisela cruzou os braços, fingindo estar ofendida.

— Muito bonito...

Foi então que me lembrei.

— Hoje fazes quinze anos!

Ela abriu um sorriso.

— Afinal ainda tens salvação.

Estendi-lhe a mão.

— Muitos parabéns, Gisela. Espero que tenhas um dia muito feliz.

Ela apertou-ma com entusiasmo.

— Obrigada.

Depois olhou para a Dila e comentou:

— Ao menos um de vocês se lembrou.

A Dila fingiu indignação.

— Eu dei-tos logo quando saí de casa!

— Eu sei.

— Então deixa o António em paz.

Os três desatámos a rir.

Era curioso.

A Gisela deixara de ser apenas a "guarda-costas". Continuava a brincar connosco, a provocar-nos sempre que podia, mas já fazia parte daquele pequeno mundo que criáramos nas viagens de trólei e nos passeios pelo Porto.

Quando o trólei chegou, sentámo-nos os três.

A Gisela foi falando do aniversário, dos presentes que esperava receber e do bolo que a mãe lhe prometera.

A dada altura virou-se para mim.

— E tu?

— Eu?

— Quando fazes anos?

Olhei para a Dila.

Ela respondeu antes de mim.

— Depois de amanhã.

Fiquei surpreendido.

— Sabias?

Encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Claro.

A Gisela abriu muito os olhos.

— Então também temos de lhe dar os parabéns.

A Dila sorriu discretamente.

— Ainda faltam dois dias.

Não liguei muito ao assunto.

Mas, sem saber porquê, fiquei contente por ela se lembrar da data.

A manhã decorreu tranquilamente.

Num intervalo encontrei a Dila junto ao jardim do liceu.

A Gisela tinha ficado com outras colegas.

Foi uma daquelas raras ocasiões em que pudemos conversar completamente sozinhos.

Sentámo-nos no muro baixo que delimitava o recreio.

Ela ficou alguns instantes em silêncio.

Depois perguntou:

— Gostaste de ser escolhido para responsável do DIFI?

Assenti.

— Gostei.

— Dá muito trabalho?

— Bastante.

Sorriu.

— Sabia.

— Como?

— Tu nunca escolhes as coisas mais fáceis.

Ri-me.

— Talvez.

Ela ficou a brincar distraidamente com uma pequena folha caída sobre o muro.

— Mas gostas disso.

Olhei para ela.

— Gosto.

— Nota-se.

Era curioso como ela parecia reparar em aspectos de mim que eu próprio nunca tinha pensado explicar.

Depois foi ela quem falou dos seus projectos.

Das disciplinas de que gostava mais.

Dos livros que queria ler nas férias.

Dos lugares que sonhava visitar.

Enquanto a ouvia, dei comigo a pensar que conhecia já muitas histórias da sua infância.

Mas começava agora a conhecer os seus sonhos.

E isso aproximava-nos ainda mais.

O toque voltou a interromper-nos.

Levantámo-nos ao mesmo tempo.

Antes de entrar, voltou-se para mim.

— Não te esqueças...

— Do quê?

— Depois contas-me como correu o treino.

— Só se amanhã me contares se a Gisela gostou da festa.

Sorriu.

— Combinado.

Quando as aulas terminaram, fui esperá-las.

Saíram as duas a conversar animadamente.

Assim que me viram, a Gisela fez um ar misterioso.

— Sabes?

— O quê?

— A Dila passou a manhã inteira...

A Dila interrompeu-a imediatamente.

— Gisela!

A amiga começou a rir.

— Está bem, está bem... não digo.

Olhei para a Dila.

Ela abanou a cabeça, visivelmente embaraçada.

— Não ligues.

Sorri.

— Agora fiquei curioso.

— Não vale a pena.

Mudou rapidamente de assunto.

— Vamos?

Começámos a caminhar.

Durante alguns minutos a Gisela manteve um sorriso divertido, como se soubesse qualquer coisa que eu desconhecia.

A curiosidade acompanhou-me durante todo o passeio.

Mas achei melhor não insistir.

Se a Dila quisesse contar-me, fá-lo-ia.

Se não quisesse, também estava bem.

Passeámos durante algum tempo pelas ruas habituais.

Entrámos numa pequena papelaria apenas para ver cadernos e canetas.

Ela demorava-se sempre junto dos postais ilustrados.

Pegava num.

Depois noutro.

Lia as pequenas mensagens impressas no verso.

Voltou a colocá-los no expositor.

— Gosto destes.

— Costumas enviar muitos?

Olhou para mim durante um breve instante.

— Às vezes.

Não acrescentou mais nada.

Nem eu.

A viagem de regresso foi tranquila.

A Gisela saiu algumas paragens antes da nossa.

Despediu-se com um aceno entusiasmado.

— Até amanhã!

Ficámos novamente os dois.

Ela encostou-se ao banco e suspirou.

— Fazes ideia de como é difícil guardar um segredo da Gisela?

Ri-me.

— Então havia mesmo um segredo?

Levantou imediatamente o dedo indicador.

— Não disse isso.

— Quase.

Olhou pela janela para esconder o sorriso.

— És muito curioso.

— Um bocadinho.

Ficámos ambos a rir.

Quando chegámos ao nosso destino, caminhámos lado a lado até ao sítio do costume.

Antes de se despedir, ela olhou para mim como se estivesse prestes a dizer qualquer coisa.

Acabou por não dizer.

Sorriu apenas.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Fiquei a vê-la afastar-se.

Havia dias em que me parecia compreender exactamente o que lhe ia na alma.

Noutros, bastava um sorriso interrompido para voltar a lembrar-me de quanto ainda desconhecia.

À tarde fui para o DIFI e, ao cair da noite, segui para a Academia. O treino correu bem e regressei a casa cansado, mas satisfeito. Jantei tranquilamente e terminei o dia diante da televisão.

Antes de adormecer, lembrei-me da conversa na papelaria.

Ela passara mais tempo diante dos postais do que diante dos cadernos.

Na altura pareceu-me um detalhe sem importância.

Só mais tarde compreenderia que, por vezes, as coisas mais importantes anunciam-se em silêncio.

E que há gestos que começam muito antes de acontecerem.


← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →


Comentários