O tempo entre dois reencontros
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Domingo, 13 de Março de 1977
Ao domingo, a casa parecia acordar mais tarde do que o resto do mundo.
Quando abri os olhos, a luz já entrava pelas frinchas da persiana e desenhava faixas claras no tecto do quarto. Fiquei alguns minutos deitado, sem pressa de me levantar. Durante a semana vivia sempre com o relógio ao lado. Ao domingo, era como se o tempo deixasse de mandar.
Levantei-me apenas quando o cheiro do café acabado de fazer começou a chegar da cozinha.
Tomei o pequeno-almoço já perto da hora do almoço, como acontecia tantas vezes aos domingos. A minha mãe sorriu ao ver-me aparecer ainda com ar de quem não acordara completamente.
— Hoje o dia já vai a meio.
— Ainda bem... assim chega mais depressa a segunda-feira.
Ela olhou para mim, intrigada.
— Tens assim tanta vontade de voltar às aulas?
Ri-me.
— Não é bem por causa das aulas.
Ela abanou a cabeça, divertida, sem fazer mais perguntas.
Talvez nem imaginasse a resposta.
Depois do almoço saí para o DIFI.
A cidade tinha aquele ritmo vagaroso dos domingos. As ruas estavam mais calmas, os cafés enchiam-se lentamente e as famílias passeavam sem destino.
Enquanto caminhava, dei por mim a recordar a semana inteira.
O passeio até ao Douro.
A chuva.
As gargalhadas dentro do trólei.
As conversas que já pareciam nunca terminar.
Sem dar por isso, comecei a comparar estas recordações com as dos primeiros meses em que conhecera a Dila.
Nessa altura esperava encontrá-la.
Agora esperava estar com ela.
Parecia a mesma coisa.
Mas não era.
Cheguei ao DIFI ainda antes dos outros.
Gostava daquele silêncio inicial.
As salas vazias tinham sempre um cheiro particular a papel, tinta e madeira. Havia qualquer coisa de tranquilizador em preparar o espaço antes de começarem a chegar os restantes elementos do grupo.
Pouco a pouco foram aparecendo.
A tarde tornou-se movimentada.
Fotografámos as diferentes secções, organizámos materiais, deslocámo-nos de uma sala para outra, tentando registar um pouco de tudo.
Entre uma fotografia e outra, alguém brincou:
— António, pára quieto um bocadinho.
Ri-me.
— Hoje sou eu quem está atrás da máquina.
Talvez por causa da conversa do dia anterior, lembrei-me imediatamente da Dila.
"Gostava de ter uma máquina destas."
"E eu?"
"Também."
Sorri sem querer.
Um colega olhou para mim.
— Que foi?
— Nada.
Mas não era nada.
Começava a reparar que ela aparecia nos meus pensamentos do nada.
Bastava uma palavra.
Um objecto.
Uma rua.
Uma música.
Qualquer coisa servia de ponte.
Ao final da tarde reunimo-nos para eleger o responsável geral do DIFI.
Nunca pensei muito no assunto.
Quando começaram a contar os votos, mantive-me tranquilo.
Só fiquei verdadeiramente surpreendido quando ouvi o meu nome repetir-se mais vezes do que esperava.
Acabei por ser eleito.
Os colegas deram-me os parabéns.
Apertaram-me a mão.
Houve quem brincasse dizendo que agora teria ainda mais trabalho.
Tinham razão.
Aceitei a responsabilidade com satisfação, mas também com um certo peso.
Gostava daquilo que fazíamos e queria corresponder à confiança que depositavam em mim.
No entanto, curiosamente, enquanto todos falavam da eleição, dei por mim a pensar numa coisa completamente diferente.
Gostava de contar aquilo à Dila.
Não para me vangloriar.
Sabia que ela não ligava a cargos nem a títulos.
Gostava apenas de imaginar a expressão com que me ouviria.
Talvez sorrisse.
Talvez dissesse:
— Eu sabia.
Ou talvez brincasse:
— Agora tenho de tratar-te por senhor responsável.
Sorri sozinho.
Percebi então que as boas notícias só ficavam completas quando encontravam alguém com quem as partilhar.
Regressei a casa já perto das oito horas.
O jantar decorreu tranquilamente, entre as conversas habituais da família.
Mais tarde li algumas páginas de um livro, mas percebi rapidamente que não estava verdadeiramente concentrado.
Fechava o livro.
Pensava nela.
Voltava a abrir.
Lia duas páginas.
E regressava ao mesmo pensamento.
Acabei por desistir.
A televisão começaria daí a pouco, mas nem isso me despertava grande entusiasmo.
Havia outra coisa que ocupava o meu espírito.
Amanhã era segunda-feira.
E isso bastava.
Reflexão da Semana
Há semanas que passam sem deixar rasto.
Esta não foi uma delas.
Se olhasse apenas para o diário, encontraria dias muito parecidos com tantos outros, aulas, o DIFI, a Academia, reuniões, fotografias, livros, televisão.
Mas sei que a verdadeira semana aconteceu nos intervalos dessas palavras.
Aconteceu à espera dela, todas as manhãs.
Nas viagens de trólei em que as conversas deixaram de precisar de um começo.
Nos passeios em que já caminhávamos sem destino, apenas porque o caminho era uma desculpa para permanecermos juntos.
Na chuva que nos ensopou até aos ossos e que, apesar disso, se transformou numa das recordações mais felizes que guardo.
Naquela hora de sexta-feira em que não pudemos passear e em que descobri que a falta não era do passeio, mas da companhia.
E, sobretudo, aconteceu numa descoberta tão simples que quase passou despercebida.
Começámos a fazer parte do dia um do outro.
Ela já guardava histórias para me contar.
Eu já olhava para as coisas a pensar no que lhe iria dizer.
As conversas deixaram de terminar quando nos despedíamos.
Continuavam em silêncio até à manhã seguinte.
Talvez fosse isso que significava aquele "laço mais íntimo" de que escrevi no início da semana.
Não era uma mudança brusca.
Nem uma declaração.
Nem uma promessa.
Era qualquer coisa mais discreta.
Como uma linha invisível que, dia após dia, se ia tornando mais forte.
Ainda não lhe chamava amor.
Nem sequer sabia se tinha idade para compreender uma palavra tão grande.
Sabia apenas que, quando uma coisa boa me acontecia, a primeira pessoa em quem pensava era a Dila.
E quando um domingo chegava ao fim, a melhor notícia era sempre a mesma.
No dia seguinte voltaria a vê-la.
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