As pequenas promessas dos dias iguais
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Sábado, 12 de Março de 1977
Acordei com a sensação de que a semana passara demasiado depressa.
Ainda na noite anterior a Dila me dissera, quase a rir:
— "Amanhã recuperamos o passeio."
A frase ficou comigo. Não porque fosse uma promessa importante. Era precisamente o contrário. Era uma daquelas pequenas promessas que se fazem sem pensar, mas que acabam por ganhar um lugar especial.
Saí de casa cedo e fui para a paragem.
A manhã estava luminosa, como se a chuva dos dias anteriores tivesse lavado o céu.
Ela chegou pouco depois.
Mal me viu, sorriu daquele jeito que já começava a ser o nosso cumprimento antes mesmo das palavras.
— Bom dia.
— Bom dia.
Olhou para mim com um ar de quem procurava confirmar qualquer coisa.
— Então... hoje já não tens compromissos?
Ri-me.
— Não. Hoje estou livre.
— Ainda bem.
Fez uma pequena pausa.
— Pensei que me ias voltar a trocar por um colega.
Fingi indignação.
— Isso foi só uma vez.
— Pois foi.
Sorriu.
— Mas eu não me esqueço.
Entrámos no trólei.
Enquanto o veículo arrancava suavemente, reparei que a luz da manhã entrava pelas janelas e iluminava-lhe o rosto. Ela voltou-se para mim.
— Sabes?
— O quê?
— Ontem dei por mim a pensar numa coisa.
— Diz.
— Nós passamos mais tempo a conversar no caminho do que propriamente na escola.
Olhei pela janela e sorri.
— É verdade.
— E acho que aprendemos mais.
— Isso não digas muito alto.
Riu-se.
— Ainda nos aumentam as aulas.
A gargalhada foi espontânea.
Já nem me lembrava de como eram as viagens antes de começarmos a conversar daquela maneira.
O trólei deixara de ser apenas um transporte.
Era um prolongamento dos nossos dias.
A manhã trouxe apenas duas aulas.
As restantes horas eram preenchidas por dois longos furos.
Era exactamente esse tempo que costumávamos aproveitar para passear.
Quando a aula terminou, fui encontrá-la ao portão.
A guarda-costas apareceu logo atrás.
— Então, hoje há passeio ou não? — perguntou ela, divertida.
Olhei para a Dila.
Ela respondeu antes de mim.
— Claro que há.
Começámos a caminhar sem destino definido.
Já não era preciso decidir para onde íamos.
O importante era continuar a andar.
Descemos uma rua estreita, atravessámos um jardim, parámos diante de uma montra de livros antigos.
Ela ficou alguns instantes a observar um volume de capa gasta.
— Gosto de imaginar quem o leu antes de mim.
Olhei para o livro.
Depois para ela.
— Tu consegues inventar histórias para tudo.
Sorriu.
— Não invento.
Passou os dedos pelo vidro da montra.
— Apenas gosto de pensar que as coisas têm memória.
A frase ficou a ecoar dentro de mim.
Talvez por isso eu também começasse a olhar para certos lugares de maneira diferente.
Aquele banco onde nos sentávamos.
A livraria.
A Cordoaria.
O caminho entre os liceus.
Até o trólei.
Todos começavam, pouco a pouco, a guardar pedaços de nós.
Continuámos a caminhar.
A guarda-costas seguia alguns passos à frente, entretida a comentar a roupa exposta nas lojas.
Nós íamos mais devagar.
A certa altura passámos por um fotógrafo de rua que tinha várias máquinas antigas expostas.
Parei diante da montra.
— Gostava de ter uma máquina destas.
Ela aproximou-se.
— Para fotografares o quê?
Pensei um instante.
— Pessoas.
— Paisagens?
Abanei a cabeça.
— Pessoas.
Ela sorriu.
— E eu?
Olhei para ela.
A pergunta apanhou-me desprevenido.
— Também.
Ficou a olhar para mim, divertida.
— Então um dia tens de me mostrar essas fotografias.
— Primeiro tenho de arranjar a máquina.
— Tens tempo.
Foi apenas isso que disse.
"Tens tempo."
Como se acreditasse que haveria muitos dias pela frente.
Continuámos o passeio.
Entrámos numa pequena papelaria, depois numa loja de discos.
Voltámos a sair sem comprar rigorosamente nada.
Mas também isso já fazia parte do ritual.
Gostávamos mais de descobrir as coisas do que de as possuir.
As horas passaram sem darmos por elas.
Quando o relógio nos obrigou a regressar, senti a mesma pequena contrariedade de sempre.
Ela olhou para o liceu ao fundo da rua.
— Já?
— Também acho que foi depressa.
— O tempo hoje correu.
Sorri.
— Corre sempre.
Ela não respondeu.
Limitou-se a sorrir também.
Era como se já não precisássemos de explicar certas coisas.
Ao terminar a última aula, acompanhei-a até ao trólei.
Durante a viagem de regresso, a conversa decorreu com a mesma leveza da manhã.
Já nem reparávamos quando um assunto mudava.
Começávamos a falar de um professor e acabávamos a discutir qual era a melhor estação do ano ou que livros gostávamos de reler.
A certa altura ela encostou a cabeça ao vidro e ficou a olhar para a rua.
— Sabes qual é a minha parte preferida do dia?
Olhei para ela.
— Qual?
Virou-se lentamente.
— Esta.
— A viagem?
Assentiu.
— Porque já não temos de pensar nas aulas.
Fez uma pausa.
— E porque ainda não chegou a hora de nos despedirmos.
Fiquei calado.
Não por falta de resposta.
Mas porque aquela frase dizia exactamente aquilo que eu nunca conseguira pôr em palavras.
Olhei para o reflexo dela na janela.
Pensei que talvez o melhor daqueles dias não fosse o Porto, nem os passeios, nem sequer as conversas.
Era aquela estranha sensação de que, durante aquelas viagens, o resto do mundo deixava de ter importância.
Quando descemos, caminhámos juntos mais alguns minutos.
No cruzamento habitual, parámos.
— Bom domingo.
— Bom domingo.
Ela deu dois passos.
Depois voltou atrás.
— Segunda-feira contas-me como correu o teu fim-de-semana.
Sorri.
— Só se tu me contares o teu.
— Combinado.
Vi-a afastar-se.
Desta vez não senti apenas a falta que me faria no domingo.
Senti outra coisa.
A certeza de que, na segunda-feira, haveríamos de retomar a conversa exactamente onde a deixávamos agora.
Como se os dois dias de intervalo fossem apenas uma vírgula.
À tarde fui ao Centro e passei várias horas ocupado no DIFI. O tempo voou entre tarefas, conversas e projectos. Ao regressar a casa, ouvi música num gravador que trouxera comigo e deixei-me ficar algum tempo a escutar canções novas antes de me sentar diante da televisão.
Mas, nessa noite, a música que mais permanecia na minha memória não vinha de nenhuma cassete.
Era a voz da Dila a dizer, com toda a naturalidade:
"Ainda não chegou a hora de nos despedirmos."
Pensei nessa frase durante muito tempo.
Talvez fosse apenas uma observação sem importância.
Ou talvez não.
Porque começava a acontecer uma coisa curiosa.
Já não era apenas eu a querer prolongar aqueles momentos.
Tinha a impressão de que ela sentia exactamente o mesmo.
E essa descoberta, por pequena que fosse, fazia o mundo parecer um lugar muito maior.
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