A falta que um passeio faz

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Sexta-feira, 11 de Março de 1977

Acordei ainda com a chuva do dia anterior na memória.

Enquanto me vestia, veio-me à cabeça a imagem de nós os dois a atravessar as ruas do Porto completamente encharcados, a rir sem conseguirmos parar. Ainda sentia o frio da roupa molhada, mas, curiosamente, era uma recordação quente.

Sorri sozinho.

Havia momentos que já não pertenciam apenas ao dia em que tinham acontecido. Continuavam a acompanhar-me.

Quando cheguei à paragem, ela já lá estava.

Trazia o cabelo preso e um casaco diferente do habitual.

Assim que me viu, abriu os braços num gesto teatral.

— Como vês... sobrevivi.

Ri-me.

— Também eu.

— A minha mãe disse que ontem eu tinha perdido o juízo.

— A minha ainda não disse nada.

Ela olhou para mim de lado.

— Se calhar ainda vai a tempo.

O trólei chegou e entrámos.

Enquanto procurávamos os lugares habituais, ela aproximou-se um pouco mais e perguntou em voz baixa:

— Ainda tens os sapatos molhados?

Olhei para ela, surpreendido.

— Como é que adivinhaste?

— Porque os meus ainda não secaram.

Rimo-nos.

Sentámo-nos.

A conversa acabou por voltar, inevitavelmente, à aventura da chuva.

Recordámos pormenores de que nenhum de nós se lembrara no dia anterior.

A senhora que nos olhara escandalizada.

O rapaz que saltara uma poça e aterrara noutra ainda maior.

O empregado da loja que nos observara atrás do vidro com um sorriso divertido.

Cada lembrança fazia nascer outra.

Era curioso.

Já tínhamos começado a construir memórias em comum.

E, mais curioso ainda, gostávamos de as revisitar.

A manhã passou depressa.

Depois da terceira aula, ela apareceu à porta do liceu como fazia habitualmente.

Ao vê-la, pensei logo no passeio.

Ela também.

— Vamos?

Foi então que me lembrei.

Tinha combinado encontrar um colega para tratar de um assunto que não podia adiar.

A minha expressão deve ter mudado imediatamente.

Ela percebeu.

— O que foi?

— Hoje... não posso.

Ficou calada durante um instante.

— Tens alguma coisa para fazer?

Assenti.

— Prometi a um colega.

Ela sorriu, mas houve qualquer coisa naquele sorriso que não chegou aos olhos.

— Então fica para outro dia.

— Desculpa.

Abanou a cabeça.

— Não tens de pedir desculpa.

Disse-o naturalmente.

Mesmo assim, senti um incómodo difícil de explicar.

Era apenas um passeio.

No entanto, parecia que estávamos a interromper uma pequena tradição que se instalara sem darmos por isso.

Caminhámos juntos apenas até ao cruzamento onde os nossos caminhos se separavam durante aquela hora.

Antes de ir embora, voltou-se.

— Depois esperas por mim?

— Claro.

— Então até já.

Vi-a afastar-se.

Pela primeira vez em muitos dias, vi-a seguir sozinha.

Fiquei a olhar até desaparecer entre os outros estudantes.

Só depois me lembrei do assunto que tinha para resolver.

Aquela hora pareceu mais longa do que devia.

Tratei do que tinha a tratar.

Conversei.

Resolvi o assunto.

Mas, por várias vezes, dei comigo a olhar para o relógio.

Percebi então uma coisa curiosa.

Não era o passeio que me fazia falta.

Era ela.

Nunca tinha pensado nisso de forma tão clara.

Os passeios eram apenas a forma que tínhamos encontrado para estarmos juntos.

Quando a hora terminou, fui esperá-la ao sítio do costume.

Desta vez fui eu quem a viu primeiro.

Ela saiu do liceu acompanhada pela guarda-costas.

Conversavam animadamente.

Assim que me descobriu, sorriu.

E esse sorriso bastou para apagar o pequeno desconforto da manhã.

— Então?

— Já acabei.

— Correu bem?

— Sim.

Começámos imediatamente a caminhar em direcção à paragem.

A conversa retomou exactamente no ponto onde ficara antes.

Como se aquela interrupção nunca tivesse existido.

Contei-lhe o motivo de não a ter acompanhado.

Ela ouviu com atenção.

Depois respondeu simplesmente:

— Fizeste bem.

Olhei para ela.

— Não estás zangada?

Franziu a testa.

— Porquê?

— Porque não fomos passear.

Riu-se.

— António...

Parou um instante.

— Nós passeamos quase todos os dias.

— Pois.

— Um dia sem passeio não muda nada.

Olhou para mim com aquele sorriso tranquilo que já começava a conhecer.

— O importante é que estamos agora juntos.

Fiquei sem resposta.

Porque, mais uma vez, ela conseguira dizer em poucas palavras aquilo que eu demorava muito mais tempo a perceber.

Durante a viagem de regresso, falámos pouco da escola.

A conversa foi por outros caminhos.

Ela contou-me episódios da infância, falou-me da irmã, das pequenas discussões em casa, das brincadeiras que fazia quando era mais nova.

Também eu lhe contei algumas histórias das minhas irmãs.

Houve momentos em que ríamos tanto que tínhamos de baixar a voz para não chamar a atenção dos outros passageiros.

Quando o trólei fez uma curva mais apertada, ela segurou-se ao banco e comentou:

— Ainda um dia saímos daqui disparados.

— Eu agarro-te.

Olhou para mim.

Sorriu sem responder.

Durante um breve instante, pareceu-me que o tempo ficou suspenso.

Logo a seguir retomámos a conversa como se nada tivesse acontecido.

Mas aquela frase ficou a ecoar dentro de mim.

Não sabia se ela lhe dera importância.

Eu dera.

Quando descemos, acompanhámo-nos até ao cruzamento do costume.

A despedida foi breve.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Ela começou a afastar-se.

Ao fim de poucos passos voltou-se apenas para dizer:

— Amanhã recuperamos o passeio.

Ri-me.

— Fica prometido.

Acenou e continuou caminho.

Fiquei a vê-la desaparecer com a estranha sensação de que já fazíamos planos naturalmente.

Não grandes planos.

Apenas pequenas promessas de um dia para o outro.

Mas talvez fosse assim que tudo começava.

À tarde fui até ao DIFI, li um pouco e, ao cair da noite, segui para a Academia. O treino correu particularmente bem. Quando terminou, a chuva voltara e o meu pai esperava-me para regressarmos juntos a casa.

Durante o caminho fomos conversando.

Mas, já deitado, antes de apagar a luz, voltei a pensar naquela hora em que não pudemos passear.

Foi então que compreendi uma coisa que me pareceu tão simples quanto verdadeira.

Durante muito tempo pensei que gostava dos passeios.

Agora começava a perceber que gostava, acima de tudo, da pessoa com quem os fazia.

E havia uma diferença enorme entre uma coisa e outra.


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