Debaixo da mesma chuva

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Quinta-feira, 10 de Março de 1977

Acordei com o céu carregado.

Ainda da janela do quarto reparei que as nuvens tinham apagado a claridade dos últimos dias. O ar parecia pesado e havia um silêncio estranho lá fora, como se a manhã estivesse à espera de qualquer coisa.

Vesti-me sem dar grande importância ao tempo.

Nem sequer pensei em levar guarda-chuva.

Quando saí de casa, o vento trazia já um cheiro a chuva, mas continuei caminho convencido de que talvez não passasse de uma ameaça.

Ela já estava na paragem.

Assim que me viu aproximar, levantou a gola do casaco e sorriu.

— Parece que hoje o Inverno se lembrou de voltar.

Olhei para o céu.

— Ainda temos sorte.

— Achas?

— Enquanto não chover...

Ela ergueu uma sobrancelha.

— És muito optimista.

Nesse preciso instante caíram as primeiras gotas.

Olhámos um para o outro e desatámos a rir.

— Retiro o que disse — respondi.

Entrámos no trólei ainda a tempo de fugir à chuva que começava a engrossar.

Sentámo-nos junto à janela.

As gotas começaram a desenhar caminhos irregulares no vidro, escondendo pouco a pouco a cidade.

Ela seguia com o dedo uma dessas gotas.

— Gosto dos dias de chuva.

Olhei para ela, surpreendido.

— A sério?

— Sim.

— Porquê?

Pensou um instante.

— Porque as pessoas andam mais depressa.

— Isso é uma vantagem?

Sorriu.

— Não.

— Então?

— Nós não precisamos de andar depressa.

Fiquei alguns segundos a olhar para ela.

Às vezes dizia coisas tão simples que me deixavam sem resposta.

O trólei seguia lentamente, envolvido pelo som contínuo da chuva a bater nos vidros.

Lá fora, as pessoas corriam debaixo de jornais, sacos de plástico e guarda-chuvas coloridos.

Lá dentro, o tempo parecia passar mais devagar.

Quando chegámos ao Porto, a chuva aumentou.

Acompanhei-a até ao liceu quase a correr.

Antes de entrar, olhou para mim.

— Trouxeste guarda-chuva?

Abanei a cabeça.

Ela mostrou-me as mãos vazias.

— Eu também não.

Rimo-nos.

— Estamos bem.

— Logo logo se vê.

Entrou no liceu ainda a rir.

Vi-a desaparecer atrás do portão e segui para o meu.

Durante toda a manhã a chuva não deu tréguas.

Enquanto assistia às aulas, olhava de vez em quando pela janela.

A água escorria pelos vidros sem descanso.

Comecei a preocupar-me.

Não pela viagem para casa.

Por ela.

Sabia que também não tinha levado guarda-chuva.

Quando as aulas terminaram, esperei alguns minutos debaixo da entrada do liceu.

Talvez a chuva abrandasse.

Não abrandou.

Olhei para o relógio.

Depois para o céu.

E sorri.

Ela devia estar exactamente na mesma situação, do outro lado.

Sem pensar mais, comecei a caminhar.

As primeiras dezenas de metros ainda as fiz encostado às fachadas.

Depois deixei de tentar fugir.

A chuva caiu sobre mim com toda a força.

Quando cheguei ao liceu dela, encontrei-a encostada ao alpendre, rodeada por vários estudantes que esperavam uma aberta.

Assim que me viu, abriu um sorriso incrédulo.

— Estás maluco!

Olhei para a roupa já completamente molhada.

— Acho que sim.

Aproximou-se.

— Vieste a pé até aqui?

— Vi.

— Debaixo desta chuva?

— Se eu fiquei molhado, tu também podias ficar.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Olhou para a chuva.

Depois para mim.

E sorriu de uma maneira diferente.

Mais calma.

Mais demorada.

— Então vamos.

— Tens a certeza?

— Se tu vieste até aqui...

Encolheu os ombros.

— Agora vamos os dois.

Saímos do abrigo.

Nos primeiros segundos ainda tentámos fugir às poças maiores.

Pouco depois desistimos.

Já estávamos completamente ensopados.

A água escorria-nos pelo cabelo, pelas mangas, pelos livros cuidadosamente protegidos debaixo dos casacos.

Ela começou a rir.

— Olha para nós.

Olhei.

Era impossível não rir também.

As pessoas que passavam protegidas pelos guarda-chuvas olhavam para nós como se tivéssemos perdido o juízo.

Talvez tivéssemos.

Mas nenhum dos dois parecia preocupado.

A certa altura parámos debaixo da pequena pala de uma loja apenas para recuperar o fôlego.

Ela afastou uma madeixa de cabelo molhado da cara.

— A culpa é tua.

— Minha?

— Se não tivesses aparecido...

— Ainda estavas à espera que a chuva passasse.

Sorriu.

— Pois estava.

Ficámos alguns segundos a ouvir a chuva.

Depois ela olhou para mim com um brilho divertido.

— Afinal gosto ainda mais dos dias de chuva.

— Mudaste de opinião?

— Não.

Fez uma pausa.

— É que hoje tenho uma boa recordação para guardar.

Não lhe respondi.

Porque naquele instante percebi que eu estava exactamente a pensar o mesmo.

A viagem de trólei teve qualquer coisa de especial.

Entrámos completamente encharcados.

Alguns passageiros sorriram discretamente ao ver o estado em que estávamos.

Sentámo-nos junto à janela.

Havia pequenas poças de água no chão, à volta dos nossos pés.

Ela olhou para as mangas do casaco.

— Nunca mais secam.

— Amanhã já estão.

— Esperemos que sim.

Depois olhou para mim.

— Sabes uma coisa?

— Diz.

— Acho que nunca me ri tanto debaixo de chuva.

Sorri.

— Nem eu.

Durante alguns minutos ficámos apenas a ver as gotas a correr pelo vidro.

As ruas deslizavam lentamente do outro lado.

A cidade parecia desfocada.

Como se existisse apenas aquele pequeno espaço onde seguíamos sentados.

Sem dar por isso, os nossos ombros tocaram-se quando o trólei fez uma curva mais apertada.

Nenhum de nós se afastou.

Continuámos a olhar pela janela.

Em silêncio.

Era um silêncio diferente dos outros.

Não havia embaraço.

Nem expectativa.

Havia apenas uma estranha serenidade.

Como se aquele contacto breve fosse a coisa mais natural do mundo.

Quando descemos, caminhámos até ao cruzamento habitual.

A chuva abrandara finalmente.

Ela olhou para o céu.

— Agora é que resolve parar.

— Chegou tarde.

— Muito tarde.

Despediu-se com um sorriso.

— Vai secar esse cabelo.

— Tu também.

Ela afastou-se alguns passos.

Depois voltou-se.

— António...

— Sim?

— Obrigada por não me deixares fazer o caminho sozinha.

Não consegui responder logo.

Limitei-me a sorrir.

Ela compreendeu.

Acenou levemente e continuou caminho.

Fiquei a vê-la desaparecer entre a chuva miudinha que ainda caía.

À tarde mudei de roupa, almocei e fui até ao CRM e depois para o DIFI, onde praticamente nada fiz. Regressei cedo a casa e passei o resto do dia entre a leitura, a televisão e uma conversa tranquila com a minha irmã.

Mas, antes de adormecer, voltei a pensar na viagem de regresso.

O diário dirá apenas que viemos completamente ensopados e que a viagem foi agradável.

A verdade é outra.

Hoje dia descobri que a felicidade pode caber numa caminhada debaixo de chuva.

E que há pessoas cuja companhia transforma um incómodo numa das melhores recordações que um dia levaremos connosco.


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