O riso que já nos pertencia
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Quarta-feira, 9 de Março de 1977
Esta manhã já não precisei de imaginar como começaria o dia.
Havia qualquer coisa de tranquilizador naquela repetição. Os mesmos gestos, a mesma hora, o mesmo caminho. Há poucos meses, tudo isto me pareceria aborrecido. Agora acontecia o contrário. Quanto mais iguais eram as manhãs, mais gostava delas.
Saí de casa e fui para a paragem.
Desta vez foi ela quem chegou primeiro.
Estava encostada ao abrigo, de costas para a rua, entretida a folhear um caderno. Não deu pela minha chegada.
Aproximei-me devagar.
— Então... hoje és tu que me fazes esperar?
Ela levantou a cabeça de repente e levou uma mão ao peito.
— Assustaste-me!
Desatei a rir.
— Afinal também sabes esperar.
Fez um ar indignado, que não conseguiu manter por muito tempo.
Acabou por rir também.
— Ganhaste.
— Não custou muito.
— Não abuses.
Ficámos ambos a sorrir.
Era curioso como já conseguíamos brincar um com o outro sem pensar muito nas palavras. As respostas surgiam naturalmente, como se já conhecêssemos o humor um do outro.
O trólei chegou poucos minutos depois.
Entrámos e fomos ocupar o nosso lugar habitual.
Já nem olhávamos para saber se estava livre. Parecia que aquele banco fazia parte da nossa rotina tanto como a própria viagem.
Enquanto o trólei deslizava pelas ruas ainda húmidas da manhã, ela abriu a pasta e tirou uma folha dobrada.
— Queres ver uma coisa?
Peguei na folha.
Era um desenho feito durante uma aula. Representava um professor visto de perfil, com um nariz exageradamente comprido.
Olhei para ela.
— Foste tu?
Mordeu o lábio para não se rir.
— Achas que ficou parecido?
— Se ele vir isso...
— Nunca verá.
Entreguei-lhe a folha.
— Tens jeito.
Ela encolheu os ombros.
— Faço desenhos para as aulas passarem mais depressa.
— E passam?
— Um bocadinho.
Olhei pela janela.
— Talvez eu devesse experimentar.
Ela abanou a cabeça.
— Tu acabavas por desenhar mal e ainda levavas um recado.
— Tens pouca confiança em mim.
— Tenho muita.
Fez uma pausa.
— Mas conheço-te.
Sorri.
Era verdade.
Começávamos a conhecer-nos.
A manhã trouxe apenas duas aulas.
O resto do tempo pareceu desaparecer sem que déssemos por ele.
No intervalo encontrei-a junto ao muro do costume.
Estava a conversar com duas colegas. Assim que me viu, fez-lhes um pequeno gesto de despedida e veio ter comigo.
A naturalidade daquele gesto deixou-me surpreendido.
Já não precisava de decidir entre ficar com elas ou vir falar comigo.
Parecia que a decisão surgia sozinha.
— Hoje só tiveste duas aulas? — perguntou.
— E tu?
— Também.
— Então somos dois privilegiados.
— Não sei se os professores pensam o mesmo.
Começámos a passear pelo recreio.
Falámos de um teste que se aproximava, de um professor particularmente exigente e de um livro que ela começara a ler.
A certa altura, parámos junto ao gradeamento que dava para a rua.
Ficámos alguns segundos a ver as pessoas passar.
Ela apoiou os cotovelos na grade.
— Já reparaste?
— Em quê?
— Há pessoas que passam umas pelas outras e nem levantam os olhos.
Olhei para a rua.
Era verdade.
Cada um seguia o seu caminho.
— Talvez tenham pressa.
Ela abanou a cabeça.
— Ou talvez se tenham esquecido de olhar.
Não respondi.
Achei bonita aquela maneira de ver as coisas.
O toque voltou a interromper-nos.
Ela suspirou.
— Outra vez...
— O dia hoje está a correr depressa.
Olhou para mim.
— Quando estamos a conversar, corre sempre.
Como neste dia tive apenas duas aulas, ainda esperei algum tempo até ela terminar as suas.
Não me custou.
Havia semanas, uma hora parecia interminável.
Agora passava a recordar as conversas da manhã ou a imaginar as da tarde.
Quando finalmente saiu do liceu, veio logo ao meu encontro.
A guarda-costas apareceu pouco depois e os três seguimos pelas ruas do Porto.
O sol regressara depois da chuva dos dias anteriores e havia uma luz limpa sobre o granito das fachadas.
A cidade parecia mais leve.
Talvez fôssemos nós.
Descemos por uma rua estreita, parando de vez em quando diante de uma montra.
A amiga ia comentando tudo.
A Dila respondia-lhe.
Depois voltava-se para mim para continuar uma conversa que tínhamos deixado a meio.
Já não existiam assuntos separados.
Tudo se misturava.
As histórias da escola.
As famílias.
Os sonhos.
As pequenas preocupações.
E, no meio de tudo isso, muitas gargalhadas.
Houve uma altura em que a guarda-costas parou diante de uma loja de roupa.
— Esperem um bocadinho.
Entrou para espreitar uma camisola.
Ficámos os dois cá fora.
Ela olhou para a montra ao lado.
Depois, sem tirar os olhos do vidro, perguntou baixinho:
— Ainda te lembras do passeio ao Douro?
Sorri.
— Lembro.
— Parece que foi há muito tempo.
— Foi na semana passada.
— Pois foi...
Fez uma pausa.
— Mas já aconteceram tantas coisas depois disso.
Olhei para ela.
Também eu tinha essa sensação.
Como se uma semana tivesse sido suficiente para aproximar duas pessoas de uma maneira que meses inteiros não tinham conseguido.
Mas não soube dizer-lho.
Limitei-me a responder:
— Temos de lá voltar um dia.
Ela virou lentamente a cabeça.
Sorriu.
— Gostava.
Foi apenas uma palavra.
Mas ficou comigo.
A viagem de regresso decorreu entre risos quase constantes.
Já não me lembrava exactamente de quem começava as brincadeiras.
Ora era ela.
Ora era eu.
Às vezes bastava um passageiro adormecer, uma criança fazer uma pergunta inesperada ou alguém entrar carregado de sacos para inventarmos, em voz baixa, pequenas histórias.
Chegámos a rir tanto que uma senhora sentada à nossa frente acabou por sorrir também, embora não percebesse o motivo.
Ao descermos, ainda caminhámos juntos durante alguns minutos.
A conversa prolongou-se até ao cruzamento onde os nossos caminhos se separavam.
— Então até amanhã.
— Até amanhã.
Ela deu alguns passos.
Depois voltou-se.
— Não te esqueças...
— Do quê?
— Ainda me tens de mostrar um desenho teu.
Ri-me.
— Isso é uma ameaça.
— É uma promessa.
Continuou o caminho, ainda a rir.
Fiquei a vê-la afastar-se até desaparecer na esquina.
Só então percebi que passara o dia inteiro bem-disposto.
Sem motivo especial.
Ou talvez o motivo fosse demasiado simples para precisar de explicação.
À tarde fui para o CRM Havia pouco para fazer e as horas passaram sem grande movimento. Mais tarde acompanhei o meu pai até à sede do Partido Comunista e, no regresso, fomos conversando calmamente, como acontecia tantas vezes.
Mas, ao deitar-me nessa noite, o que ficou do dia não foi o trabalho nem a política.
Foi outra coisa.
Começava a acontecer-nos uma espécie de alegria contagiosa.
Bastava estarmos juntos.
Não era preciso que acontecesse nada extraordinário.
Ríamos de coisas pequenas.
De frases sem importância.
De situações que talvez mais ninguém achasse engraçadas.
E pensei, antes de adormecer, que talvez fosse isso que mais me agradava na Dila.
Ela não tornava os dias diferentes.
Tornava-os mais leves.
Comentários
Enviar um comentário