As horas que passavam depressa
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Terça-feira, 8 de Março de 1977
Acordei antes do despertador tocar.
Durante alguns instantes fiquei deitado a olhar para a claridade que começava a entrar pela janela. A casa ainda dormia quase toda, mas eu já estava completamente acordado.
Nos últimos dias deixara de precisar de pensar muito nas manhãs.
Sabia exactamente como iam começar.
Saía de casa, caminhava até à paragem, esperava alguns minutos e, depois, via-a aparecer.
Era uma rotina.
Mas nunca me parecia igual.
Quando cheguei, ainda não tinha chegado. Encostei-me ao poste da paragem e fiquei a observar o movimento da rua. Um padeiro descarregava cestos de pão. Um homem passava de bicicleta. O dono da tabacaria levantava lentamente a grade metálica da porta.
Então vi-a.
Levantou imediatamente a mão, ainda antes de estar perto.
— Bom dia!
Havia qualquer coisa de particularmente alegre na sua voz.
— Bom dia.
Quando chegou ao meu lado, olhou para mim com uma expressão divertida.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Hoje acordei atrasada.
Olhei para o relógio.
— Não parece.
— Porque corri.
Ri-me.
— Então valeu a pena.
Ela fingiu limpar a testa.
— Nem imaginas.
O trólei aproximou-se com o seu zumbido habitual. Entrámos e, mais uma vez, encontrámos dois lugares juntos.
Começava a parecer que todas as manhãs conspiravam discretamente a nosso favor.
Assim que nos sentámos, ela olhou para a rua e comentou:
— Hoje está um dia bonito.
— Está.
— Dá vontade de faltar às aulas.
Olhei para ela, surpreendido.
— A menina aplicada a dizer isso?
Riu-se.
— Só dá vontade... não quer dizer que vá acontecer.
— Ainda bem.
— Porque?
— Porque depois eu tinha de decidir se faltava também.
Ela olhou para mim durante alguns segundos.
Depois abanou a cabeça, divertida.
— Tu eras capaz.
Pensei na resposta.
Talvez fosse.
Mas não o disse.
Preferi deixá-la rir.
A manhã passou depressa.
Num dos intervalos encontrei-a junto ao muro do liceu. Estava sozinha.
Assim que me viu, sorriu.
— Estava à tua espera.
Não respondeu à minha surpresa.
Limitou-se a começar a caminhar ao meu lado.
Falámos da aula que acabara de ter. Depois passámos para outro assunto. E outro. E outro ainda.
As conversas já não precisavam de um princípio.
Bastava retomá-las.
Como se nunca terminassem verdadeiramente.
Ela contou-me uma história da infância.
Eu lembrei-me de uma partida que fizera às minhas irmãs.
Ela ria com facilidade.
Às vezes até antes do fim da história.
E quando se ria, eu acabava sempre por rir também, mesmo que a piada não fosse grande coisa.
Comecei a perceber outra coisa.
Ela andava quase sempre bem-disposta quando estávamos juntos.
No princípio pensei que fosse impressão minha.
Mas acontecia demasiadas vezes para ser apenas coincidência.
O mais curioso era que isso acabava por contagiar-me.
Havia dias em que saía de casa preocupado com qualquer teste ou com algum trabalho do CRM.
Bastavam dez minutos ao lado dela.
Tudo ficava mais leve.
O toque interrompeu-nos outra vez.
Ela fez uma careta.
— Estes intervalos deviam durar o dobro.
— Pelo menos.
— Ou então as aulas metade.
— Isso já me parece uma ideia excelente.
Rimo-nos.
Antes de entrar, voltou-se.
— Logo continuamos.
Gostei da maneira como o disse.
Não era "logo falamos".
Era "continuamos".
Como se a conversa fosse apenas um fio que ninguém queria cortar.
Quando as aulas terminaram, fui esperá-la.
Desta vez apareceu acompanhada pela guarda-costas, que me cumprimentou logo com um sorriso malandro.
— Então... hoje para onde é o passeio?
A Dila olhou para mim.
— Tens algum plano?
— Nenhum.
— Ainda bem.
Começámos a caminhar pelas ruas do costume.
A amiga seguia connosco, mas havia momentos em que acelerava alguns passos, distraída com uma montra ou com alguém conhecido.
Nessas alturas ficávamos quase sozinhos.
Falávamos mais baixo.
Sem dar por isso.
Como se aquelas pequenas brechas no passeio nos pertencessem apenas a nós.
Passámos diante de uma loja de discos.
Ela ficou a olhar para a montra.
— Gostava de poder ouvir todos.
— Todos?
— Todos.
— Levavas semanas.
— Não faz mal.
Sorri.
— Eu cansava-me primeiro.
Ela olhou para mim de lado.
— Não acredito.
Entrámos apenas para espreitar.
O empregado cumprimentou-nos com um aceno e deixou-nos percorrer as prateleiras à vontade.
Ela pegava num disco, lia a contracapa e voltava a colocá-lo no sítio.
Eu fazia o mesmo.
Nenhum de nós comprou nada.
Saímos como tínhamos entrado.
Mas parecíamos satisfeitos.
Continuámos até à paragem.
Durante a viagem de regresso, a conversa manteve-se viva.
Houve um momento em que ela começou a contar uma história da sua infância e gesticulava tanto que quase deixou cair os livros.
Instintivamente segurei-os.
Ela olhou para mim e riu-se.
— Já me salvaste outra vez.
Entreguei-lhos.
— Desta vez foi aos livros.
— E eles agradecem.
Os dois desatámos a rir.
Algumas pessoas voltaram-se para nós.
Baixámos imediatamente a voz.
Mas continuámos a rir, quase em segredo.
Quando o trólei chegou ao fim da viagem, nenhum de nós se levantou logo.
Esperámos que os outros passageiros saíssem.
Sem pressa.
Como se aqueles últimos segundos também fizessem parte da conversa.
Já na rua, caminhámos lado a lado.
Ainda era cedo.
Ela olhou para o relógio.
— Não tenho de ir já para casa.
Olhou para mim.
— E tu?
— Também não.
Sorriu.
— Então sentamo-nos um bocadinho?
Assenti.
Fomos até um banco próximo, onde costumávamos parar de vez em quando.
O movimento da rua passava à nossa frente sem nos incomodar.
Sentámo-nos.
Ficámos alguns instantes calados.
Não porque faltassem assuntos.
Mas porque aquele silêncio também sabia bem.
Foi ela quem o quebrou.
— Sabes qual é a diferença entre nós agora e há uns meses?
Olhei para ela, curioso.
— Não.
Pensou um instante.
— Antes falávamos porque calhava.
Sorriu.
— Agora parece que temos sempre qualquer coisa para contar um ao outro.
Não respondi logo.
Porque ela tinha dito exactamente aquilo que eu andava a sentir.
— Também acho.
Ela olhou em frente.
— É engraçado...
— O quê?
— Às vezes passo o dia a pensar: "Tenho de contar isto ao António."
Fiquei sem saber o que dizer.
Senti apenas qualquer coisa quente espalhar-se dentro de mim.
Talvez fosse alegria.
Talvez fosse outra coisa qualquer.
Ainda não sabia.
Pouco depois levantámo-nos.
No cruzamento onde os nossos caminhos se separavam, despedimo-nos como sempre.
Mas, enquanto a via afastar-se, percebi que havia uma diferença em relação às semanas anteriores.
Já não esperava apenas pela manhã seguinte.
Agora, ao longo do dia, começava a acontecer-me uma coisa nova.
Sempre que vivia alguma coisa engraçada, ouvia uma frase curiosa ou via qualquer coisa bonita, pensava sem querer:
"Tenho de contar isto à Dila."
À tarde, cansado, adormeci quase sem dar por isso. Quando acordei já estava na hora de ir para a Academia. O treino correu bem e, mais tarde, ainda acompanhei o meu pai até à sede do Partido Comunista antes de regressarmos a casa.
O dia terminou tranquilamente.
Mas, antes de adormecer, lembrei-me da frase que ela deixara suspensa naquele banco.
"Tenho de contar isto ao António."
Sorri no escuro.
Sem saber explicar porquê, gostei da ideia de existir alguém que começava a guardar pequenas histórias apenas para mas contar no dia seguinte.
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