Um lugar onde já me esperavam

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Segunda-feira, 7 de Março de 1977

A segunda-feira chegou com a estranha sensação de que o domingo durara tempo de mais.

Enquanto me vestia, dei por mim a pensar que, dali a pouco, tudo voltaria ao seu lugar. Não porque as aulas recomeçassem ou porque a semana voltasse ao ritmo do costume. Era outra coisa.

Ia voltar a encontrá-la.

Saí de casa ainda cedo. O ar da manhã conservava um resto da humidade da noite, e as ruas iam acordando devagar. Caminhei até à paragem com a mesma pressa tranquila de sempre. Não era a pressa de quem tem medo de perder o trólei. Era a de quem não queria chegar depois de alguém.

Quando lá cheguei, olhei instintivamente para a esquina.

Ainda não vinha.

Sorri para mim próprio.

A espera já fazia parte do dia.

Não demorou muito. Vi-a surgir ao fundo da rua, caminhando com aquele passo que eu já reconhecia de longe. Levava os livros apertados contra o peito e, ao aproximar-se, procurou-me com os olhos antes mesmo de me cumprimentar.

Quando os nossos olhares se encontraram, sorriu.

Foi um sorriso simples.

Mas bastou para me fazer sentir que o domingo tinha finalmente acabado.

— Bom dia, António.

— Bom dia, Dila.

Parou ao meu lado.

— O domingo passou depressa?

Olhei para ela e ri-me.

— Nem por isso.

Ela também se riu.

— Também achei que demorou muito.

Ficámos ambos calados durante um instante.

Não era preciso dizer mais nada.

A resposta dela bastava.

Também lhe tinha faltado qualquer coisa.

O trólei chegou pouco depois. Entrámos e, quase por hábito, caminhámos para o mesmo lugar. Já nem precisávamos de perguntar se estava livre. Parecia que aquele banco nos esperava todas as manhãs.

Quando nos sentámos, ela pousou os livros no colo.

— Sabes uma coisa?

— Diz.

— Ontem estive a arrumar a minha secretária.

— E?

— Encontrei um bilhete que uma colega me escreveu no ano passado.

— Ainda os guardas?

— Guardo quase tudo.

Olhei para ela, curioso.

— Eu também.

— A sério?

Assenti.

— Às vezes encontro papéis antigos e fico um bom bocado a olhar para eles.

Ela sorriu.

— Pensei que só eu fazia essas coisas.

— Afinal somos dois.

Ficou a olhar pela janela durante alguns segundos.

Depois voltou-se para mim.

— Gostava de saber como vais ser daqui a vinte anos.

A pergunta apanhou-me desprevenido.

Ri-me.

— Nem sei como vou ser amanhã.

— Isso não vale.

— E tu?

Encolheu os ombros.

— Também não sei.

Fez uma pequena pausa.

— Mas espero continuar a guardar papéis antigos.

Rimo-nos os dois.

A conversa terminou ali, mas ficou comigo. Gostava daquelas mudanças inesperadas de assunto. Com ela, uma conversa podia começar num caderno de apontamentos e acabar vinte anos à frente.

Quando chegámos ao Porto, caminhámos lado a lado até aos liceus.

As ruas estavam cheias de estudantes e o movimento obrigava-nos, de vez em quando, a aproximarmo-nos para não nos perdermos um do outro.

Já não caminhávamos apenas na mesma direcção.

Caminhávamos juntos.

Ao chegarmos ao portão, ela parou.

— Até logo.

— Até logo.

Afastou-se alguns passos e voltou atrás.

— António...

— Sim?

— Não te esqueças de aparecer no intervalo grande.

Sorri.

— Não me esquecerei.

Entrou no liceu.

Fiquei a vê-la desaparecer no meio dos outros alunos, mas desta vez não senti a habitual sensação de vazio. Sabia que dali a pouco voltaria a vê-la.

As aulas passaram sem grande história.

No intervalo grande atravessei o pátio quase sem pensar. Já conhecia o caminho. Sabia onde costumava encontrá-la.

Foi ela quem me viu primeiro.

Levantou a mão no ar.

— Pensei que te tinhas esquecido.

— Eu disse que vinha.

— Disseste.

Sorriu como quem confirma uma certeza.

Sentámo-nos num dos bancos do recreio. À nossa volta cruzavam-se grupos de estudantes, ouviam-se gargalhadas, o toque de uma campainha distante, passos apressados.

Falámos de tudo e de nada.

Ela contou-me uma história divertida sobre uma colega que insistia em chamar "equador" ao "equador celeste", provocando o desespero do professor.

Eu contei-lhe um episódio passado numa aula minha.

Rimo-nos mais do que a história merecia.

Talvez porque já não ríamos apenas das histórias.

Ríamos por estarmos juntos.

O toque interrompeu-nos demasiado cedo.

Ela levantou-se.

— Até logo.

— Até logo.

Vi-a afastar-se e tive a estranha sensação de que o intervalo durara apenas alguns minutos.

Quando as aulas terminaram fui esperá-la ao lugar do costume.

Não precisei de esperar muito.

Assim que saiu, veio directamente ao meu encontro.

Nem sequer olhou em volta.

Como se soubesse que eu estaria ali.

Começámos a caminhar em direcção ao Bonfim.

A conversa surgiu naturalmente, sem aqueles pequenos embaraços dos primeiros tempos.

Já conhecíamos as famílias um do outro.

Os professores.

Os hábitos.

As manias.

Agora começávamos a falar de coisas mais pequenas.

Das músicas de que gostávamos.

Dos livros que um dia queríamos ler.

Dos sítios do Porto onde gostávamos de passear.

Houve um momento em que ela parou diante da montra de uma papelaria.

— Gosto do cheiro das papelarias.

Olhei para ela, intrigado.

— Do cheiro?

— Sim.

— Nunca tinha pensado nisso.

Entrou.

Segui-a.

Ficámos alguns minutos a olhar para cadernos, canetas, envelopes coloridos e pequenos blocos de notas.

Ela pegou num caderno de capa azul.

— É bonito.

— Vais comprá-lo?

Abanou a cabeça.

— Não.

— Então porque o estás a ver há tanto tempo?

Sorriu.

— Porque posso imaginar que é meu.

Ri-me.

— Tu tens uma imaginação esquisita.

Ela olhou para mim com um brilho divertido.

— Ainda bem.

Saímos da papelaria sem comprar rigorosamente nada.

Mesmo assim, pareceu-me que tínhamos levado qualquer coisa connosco.

Continuámos o caminho até à paragem.

Durante a viagem de regresso, falámos ainda mais.

Já não existiam pausas constrangidas.

Os silêncios, quando apareciam, eram apenas momentos de descanso entre uma conversa e outra.

Olhei de relance para o reflexo dela na janela.

Estava a sorrir.

Não por causa de nenhuma piada.

Sorria simplesmente.

Lembrei-me então de uma ideia que me acompanhou durante todo o resto da viagem.

As nossas conversas já não eram como antes.

Nos primeiros meses falávamos porque íamos juntos.

Agora parecia que íamos juntos para podermos conversar.

Era uma diferença pequena.

Mas, dentro de mim, parecia enorme.

À tarde fui até ao CRM. Trabalhei durante algum tempo e, a meio da tarde, saí sozinho para dar um pequeno passeio.

Sem pensar muito no caminho, acabei por ir parar às pedras junto ao rio onde tantas vezes me sentara. Havia nelas uma tranquilidade difícil de explicar. Sentia que guardavam pedaços dos meus dias, como se as conversas, os silêncios e as dúvidas ali permanecessem depois de eu me levantar.

Sentei-me alguns minutos.

Olhei a água correr lentamente.

Sem saber porquê, imaginei como seria trazer ali a Dila um dia.

Sorri da ideia.

Ainda era cedo para pensar nisso.

Ou talvez não fosse.

Regressei ao DIFI perto das seis horas e permaneci lá até ao final da tarde. O resto do dia passou sem acontecimentos dignos de nota.

Mas, ao deitar-me nessa noite, lembrei-me de uma frase que ela dissera de manhã.

"Também achei que o domingo demorou muito."

Fechei os olhos.

Talvez não tivesse sido apenas a mim que faltara qualquer coisa naquele domingo.


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