O dia em que a ausência ganhou voz

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Domingo, 6 de Março de 1977

O domingo começou devagar.

Sem despertador.

Sem a pressa de me vestir para sair.

Sem a certeza de que, dali a pouco, a ia encontrar na paragem.

Foi isso que estranhei primeiro.

Durante toda a semana habituara-me a medir as manhãs pela hora a que a Dila aparecia ao fundo da rua. Naquele dia não havia hora marcada, nem trólei para apanhar, nem caminho até ao Porto.

Mesmo assim, acordei cedo.

Fiquei algum tempo deitado, a ouvir os sons da casa. A minha mãe já andava de um lado para o outro na cozinha. Ouvi uma porta abrir, passos no corredor, uma janela a ser escancarada para deixar entrar o sol.

Levantei-me sem pressa.

Enquanto tomava o pequeno-almoço, dei por mim a olhar, distraidamente, para o relógio da cozinha.

Sorri.

Àquela hora já devíamos estar quase a chegar ao Porto.

A ideia surgiu tão naturalmente que me surpreendeu.

Como se o meu pensamento tivesse seguido o percurso do costume, mesmo sem eu sair de casa.

Depois fiz um pouco de ginástica. Era um hábito antigo, quase automático. Os movimentos ajudavam-me a despertar, mas naquele domingo não consegui impedir que a cabeça fugisse constantemente para outros sítios.

Perguntei a mim próprio o que estaria ela a fazer.

Talvez ainda dormisse.

Talvez estivesse a ajudar a mãe.

Talvez estivesse a estudar.

Ou talvez estivesse apenas a aproveitar o domingo, como eu tentava fazer.

Não sabia.

E, pela primeira vez, senti falta de uma coisa que até então me parecera banal.

Não saber.

Durante a semana bastava esperar algumas horas para a encontrar.

Ao domingo havia um vazio que não tinha como preencher.

Depois do almoço, saí para o DIFI.

O caminho parecia mais silencioso do que era habitual. Talvez fosse apenas impressão minha. As ruas tinham outro ritmo aos domingos. Menos movimento. Menos vozes. Até o tempo parecia andar mais devagar.

Passei a tarde entre papéis, apontamentos e projectos.

Havia sempre qualquer coisa para organizar, uma ideia para discutir, um documento para preparar.

Trabalhei.

Conversei.

Ri-me até de uma ou outra brincadeira.

Mas, de vez em quando, sem motivo aparente, distraía-me.

Bastava alguém dizer uma palavra qualquer — "Porto", "livraria", "rio" — para me lembrar da semana que acabara de passar.

Do passeio até ao Douro.

Da livraria onde folheáramos livros sem intenção de comprar nenhum.

Da Cordoaria.

Das viagens de trólei.

Da sexta-feira, quando me fechara num silêncio que nem eu soubera explicar.

E do sorriso dela no sábado, como se tivesse decidido deixar tudo isso para trás.

Perto das sete horas regressei a casa.

A tarde terminava lentamente e o céu começava a ganhar aqueles tons dourados que anunciavam o fim do dia.

Comi qualquer coisa enquanto esperava que os meus pais e as minhas irmãs regressassem.

A casa foi enchendo de vozes, de conversas cruzadas e do cheiro do jantar acabado de fazer.

Tudo parecia exactamente igual aos outros domingos.

E, no entanto, havia qualquer coisa que mudara.

Depois do jantar sentei-me diante da televisão.

As imagens sucediam-se umas às outras.

Não prestei grande atenção.

Lembrei-me, sem querer, de uma frase que a Dila me tinha dito no sábado:

"Então hoje vamos passear outra vez?"

Sorri sozinho.

Nunca imaginei que uma pergunta tão simples pudesse ficar tanto tempo na memória.

Talvez fosse isso que estava a acontecer.

Os momentos deixavam de acabar quando terminavam.

Continuavam comigo.

Acompanhavam-me para casa.

Sentavam-se à mesa.

Entravam no quarto.

Ficavam comigo mesmo quando ela já não estava.

Naquela noite percebi apenas uma coisa.

Ainda faltava um dia inteiro para segunda-feira.

E nunca um domingo me parecera tão comprido.


Reflexão da Semana

Foi apenas uma semana.

Sete dias iguais a tantos outros.

Aulas.

Tróleis.

Passeios.

Furos.

Livros.

O DIFI.

A Academia.

Nada disso parecia extraordinário.

Se alguém olhasse de fora, diria que não acontecera rigorosamente nada.

Mas eu sabia que não era verdade.

Na terça-feira caminhámos até ao Douro e descobri que o silêncio podia aproximar duas pessoas mais do que muitas conversas.

Na quarta-feira bastou ela dizer que também pensara nesse passeio para eu perceber que as memórias podiam ser partilhadas sem deixarem de pertencer a cada um.

Na quinta-feira começámos a criar pequenos hábitos que já pareciam antigos, esperar um pelo outro, abrandar o passo quando o caminho chegava ao fim, prolongar uma conversa só para adiar a despedida.

Na sexta-feira bastou um gesto que talvez nem tivesse significado para ela para eu me fechar num silêncio de que ainda hoje me envergonho.

E no sábado aprendi que, às vezes, um sorriso consegue fazer mais do que todas as explicações do mundo.

Olho para trás e quase me custa acreditar que tudo isto tenha acontecido em apenas seis dias.

A rotina continua a ser a mesma.

Acordo cedo.

Espero por ela.

Apanhamos o trólei.

Caminhamos até aos liceus.

Voltamos para casa.

À primeira vista, nada muda.

Mas alguma coisa está a crescer dentro dessa repetição.

Ainda não lhe sei dar um nome.

Talvez nem seja preciso.

Basta-me saber que, quando penso nesta semana, não me lembro primeiro das aulas, nem do DIFI, nem dos treinos.

Lembro-me do instante em que ela aparece ao fundo da rua.

E isso diz mais do que qualquer palavra que eu pudesse escrever.


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