Quando o sorriso voltou devagar
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Sábado, 5 de Março de 1977
Acordei antes das sete, ainda com a conversa da véspera a passar-me pela cabeça.
Não tinha dormido mal, mas também não descansara completamente. De vez em quando acordava por instantes e voltava a lembrar-me da forma como me fechara em mim próprio durante o passeio. Quanto mais pensava nisso, menos conseguia perceber porque me tinha comportado daquela maneira.
Sabia apenas que não queria voltar a sentir aquela distância entre nós.
Vesti-me rapidamente, tomei o pequeno-almoço e saí de casa. A manhã estava fresca, mas prometia mais um dia luminoso. Enquanto caminhava para a paragem, procurei convencer-me de que tudo voltaria ao normal.
Mas havia uma pequena dúvida que insistia em acompanhar-me.
E se ela ainda estivesse magoada?
Cheguei cedo, como sempre.
O zumbido de um trólei ouviu-se ao longe, misturado com o chilrear dos pássaros que começavam a encher as árvores de sons. Algumas pessoas aguardavam em silêncio. Um estudante folheava apontamentos, completamente alheado do que o rodeava.
Olhei para a rua.
Ela ainda não vinha.
Dei alguns passos, voltei atrás, consultei o relógio sem necessidade.
Então apareceu.
Reconheci-a muito antes de lhe ver o rosto. A maneira de caminhar, os livros apertados contra o peito, o cabelo a mover-se ao ritmo dos passos... Bastava isso.
Quando levantou os olhos e me encontrou, sorriu.
Não era o sorriso aberto dos outros dias.
Era mais discreto.
Mais cauteloso.
Mas era um sorriso.
Senti um alívio difícil de explicar.
— Bom dia, António.
— Bom dia, Dila.
Ficámos alguns segundos sem dizer mais nada.
Depois foi ela quem quebrou o silêncio.
— Dormiste melhor?
Sorri.
Percebi que tinha reparado em tudo no dia anterior.
— Acho que sim.
Ela fez um pequeno aceno afirmativo.
— Ainda bem.
Não falou mais no assunto.
Nem eu.
Talvez ambos tivéssemos decidido, sem combinar, deixar a sexta-feira para trás.
O trólei chegou pouco depois.
As portas abriram-se com o habitual silvo pneumático e subimos. O veículo já levava alguns passageiros, mas encontrámos dois lugares vagos junto à janela.
Sentámo-nos.
O motor eléctrico começou a puxar o trólei suavemente e, lá em cima, os varões deslizaram pelos cabos com aquele zumbido característico que eu conhecia desde pequeno.
Durante alguns minutos limitámo-nos a olhar pela janela.
As ruas iam acordando.
As lojas abriam lentamente.
Algumas pessoas esperavam nas paragens seguintes.
Tudo parecia exactamente igual aos outros dias.
Mas havia qualquer coisa de diferente entre nós.
Não era distância.
Era cuidado.
Como se ambos estivéssemos a aprender a caminhar outra vez.
Foi ela quem voltou a falar.
— Hoje só tens duas aulas, não é?
Olhei para ela, surpreendido.
— Lembraste-te?
Encolheu os ombros.
— Tu disseste isso ontem.
Sorri.
Nem eu me lembrava de o ter dito.
— E tu?
— Também só tenho duas.
Ficámos a olhar um para o outro durante um instante.
Depois ela perguntou:
— Então hoje vamos passear outra vez?
Não respondi logo.
Talvez por receio de parecer demasiado entusiasmado.
— Se tu quiseres...
Ela sorriu.
— Acho que já sabes a resposta.
Senti que alguma coisa voltava ao seu lugar.
O resto da viagem decorreu com a leveza dos primeiros dias da semana. Voltámos a brincar com os professores, a inventar histórias sobre alguns passageiros e a discutir, sem chegar a conclusão nenhuma, qual era a melhor pastelaria perto dos liceus.
Quando descemos no Porto, a cidade recebeu-nos com uma luz clara que fazia brilhar o granito das ruas ainda húmidas da madrugada.
Atravessámos o percurso habitual.
Já conhecíamos cada esquina.
Cada semáforo.
Cada montra.
Havia uma tranquilidade nova naquela repetição.
Como se aqueles caminhos também começassem a reconhecer-nos.
As aulas passaram depressa.
Entre a primeira e a última havia um longo intervalo.
Quando saí, ela já me esperava junto ao portão, acompanhada pela inseparável guarda-costas.
— Hoje não te atrasaste.
— Aprendi a lição.
— Qual?
— Que não gosto de te deixar à espera.
Ela sorriu sem dizer nada.
Começámos a caminhar.
A amiga seguia connosco, comentando tudo o que via. Ora falava de um professor, ora de uma colega, ora de um filme que queria ver.
Nós respondíamos, mas havia momentos em que acabávamos naturalmente a conversar um com o outro, como se o resto da cidade desaparecesse.
Entrámos na Cordoaria.
O jardim estava cheio de estudantes espalhados pelos bancos. Alguns liam. Outros conversavam em pequenos grupos.
Escolhemos um banco um pouco mais afastado.
A guarda-costas ficou de pé, observando o movimento da rua.
A Dila sentou-se ao meu lado.
Ficámos alguns instantes em silêncio.
Era um silêncio tranquilo.
Muito diferente do da véspera.
Olhei para as árvores.
— Sabes...
Ela virou-se para mim.
— O quê?
— Ontem fui um parvo.
Ela ficou surpreendida.
— Porque dizes isso?
Encolhi os ombros.
— Não sei.
Ela esperou.
Talvez à espera que eu explicasse.
Mas eu próprio não sabia explicar.
Passados alguns segundos, respondeu apenas:
— Já passou.
Olhei para ela.
— A sério?
Sorriu.
— A sério.
Foi uma resposta simples.
Sem perguntas.
Sem acusações.
Sem necessidade de voltar ao assunto.
E, de repente, senti que respirava melhor.
Continuámos o passeio pelas ruas do Porto.
Parámos diante da montra de uma livraria.
Ela entrou.
Eu segui-a.
Percorríamos as estantes lentamente, retirando um livro daqui, outro dali.
Ela abriu um romance e começou a ler a primeira página.
— Fazes sempre isso? — perguntei.
— Sempre.
— E se gostares muito?
Fechou o livro com cuidado.
— Então um dia volto para o comprar.
Sorri.
— És paciente.
Olhou para mim com um brilho divertido.
— Nem sempre.
Saímos da livraria e continuámos sem destino.
A conversa corria naturalmente.
Já nem reparávamos quanto tempo passava.
Quando demos por isso, estava quase na hora da última aula.
— Temos de voltar.
Disse-o com uma ponta de desilusão.
Ela fez uma expressão parecida.
— O tempo hoje passou depressa.
— Demasiado depressa.
A guarda-costas olhou para nós e riu-se.
— Vocês queixam-se sempre do mesmo.
A Dila corou ligeiramente.
Eu limitei-me a rir.
Talvez ela tivesse razão.
Depois da última aula seguimos até ao Bonfim para apanharmos o trólei.
A viagem de regresso teve aquele conforto tranquilo que só existe quando duas pessoas já não precisam de procurar assunto para conversar.
Por vezes falávamos.
Outras vezes limitávamo-nos a observar o reflexo dos nossos rostos na janela.
Lá fora, as árvores e as casas deslizavam lentamente.
Pensei que aquele reflexo talvez desaparecesse assim que chegássemos ao destino.
Mas havia qualquer coisa que começava a ficar.
Mesmo depois de sairmos do trólei.
Mesmo depois de nos despedirmos.
Quando chegámos a S. Pedro, caminhámos juntos até ao cruzamento onde cada um seguia para seu lado.
Ela parou.
— Então... até segunda-feira.
Sorri.
Era a primeira vez, desde que aqueles encontros se tinham tornado rotina, que ficávamos dois dias sem nos ver.
— Até segunda.
Ela afastou-se alguns passos.
Depois voltou-se.
— Bom domingo.
— Para ti também.
Fiquei a vê-la desaparecer pela rua acima.
Desta vez não senti tristeza.
Apenas uma estranha sensação de expectativa.
Como se já estivesse, sem dar por isso, à espera da manhã de segunda-feira.
À tarde fui até ao centro e passei algum tempo no DIFI antes de regressar a casa. Fiz o que tinha de fazer, mas os acontecimentos desse resto de dia passaram quase sem deixar marca.
Quando me deitei nessa noite, lembrei-me apenas de uma coisa.
Na sexta-feira, bastara um silêncio para nos afastar.
No sábado, bastara um sorriso para voltar a aproximar-nos.
Talvez algumas coisas fossem mesmo assim.
Não precisavam de grandes explicações.
Bastava não as deixar fugir.
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