A distância entre duas mãos
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Sexta-feira, 4 de Março de 1977
Esta manhã acordei com uma leve inquietação, dessas que não têm nome. Não era tristeza, nem alegria. Era apenas a sensação de que começava a depender demasiado daqueles encontros diários.
Enquanto caminhava para a paragem, pensei nisso.
Há poucos meses, aquele era apenas o lugar onde se esperava um trólei.
Agora era o lugar onde começava o meu dia.
Cheguei cedo, como sempre.
O frio da madrugada já tinha desaparecido e o ar trazia um perfume húmido a terra aquecida pelo sol. Um pardal saltava entre o empedrado da rua à procura de migalhas. Um homem acendeu um cigarro. Uma senhora cumprimentou-me com um leve aceno de cabeça.
Mas eu olhava sempre para o mesmo sítio.
A curva da rua.
Foi de lá que ela apareceu.
Quando me viu, sorriu imediatamente.
E, sem saber porquê, senti que aquele sorriso me era dirigido de uma forma diferente.
— Bom dia.
— Bom dia, Dila.
Parou ao meu lado.
— Hoje pareces cansado.
— Dormi pouco.
— A pensar em quê?
Sorri.
— Em coisas.
Ela cruzou os braços.
— Essa resposta não vale.
— Então faço outra.
— Faz.
Olhei-a por um instante.
— Estava a pensar que esta semana passou depressa.
Ela baixou ligeiramente os olhos.
— Também achei.
Fez-se silêncio.
Depois acrescentou, quase num murmúrio:
— Talvez porque aconteceram coisas boas.
Não respondi.
Limitei-me a guardar aquela frase.
O trólei chegou quase vazio. Entrámos e, como já começava a parecer um hábito, encontrámos dois lugares juntos.
Sentámo-nos.
A viagem decorria calma.
Conversávamos sobre um teste de História quando ela começou a rir de qualquer coisa que eu dissera.
— Não acredito que respondeste isso ao professor!
— Respondi.
— És impossível...
— Nem sempre.
— Quase sempre.
Continuámos a rir durante alguns minutos.
À nossa volta, ninguém parecia prestar atenção.
E isso dava-me uma estranha sensação de liberdade.
Quando chegámos ao Porto, acompanhei-a até ao liceu.
Ao despedir-nos, ela perguntou:
— Hoje tens aulas?
— Não.
— Então o que vais fazer?
— Ainda não sei.
Sorri.
— Talvez vá perder-me por uma livraria.
Ela riu-se.
— Isso é uma forma bonita de matar o tempo.
— Há maneiras piores.
— Há, sim.
Ficou a olhar para mim durante um instante.
— Até logo.
— Até logo.
Como não tinha aulas, fui com um colega até uma livraria na baixa.
Passeei entre as estantes, folheando livros que dificilmente poderia comprar. Gostava daquele cheiro a papel novo. Havia qualquer coisa de tranquilizador nas livrarias. Parecia que ali o tempo caminhava mais devagar.
Mesmo assim, dei por mim a olhar repetidamente para o relógio.
Esperava a hora de voltar ao liceu.
Esperava por ela.
Quando a última aula terminou, encontrei-a junto ao portão.
Estava acompanhada pela inseparável guarda-costas.
Assim que me viu, levantou a mão.
— Estávamos quase a desistir de ti.
— Ainda vou a tempo.
— Vais.
Começámos a caminhar sem destino definido.
A conversa seguia leve, interrompida pelas observações da amiga, que fazia questão de comentar tudo o que via. Nós respondíamos, ríamos, brincávamos.
Mas, sempre que ela se distraía alguns passos à frente, a Dila aproximava-se um pouco mais de mim.
Nesses pequenos instantes, parecia que o resto da cidade desaparecia.
Descíamos uma rua estreita quando um rapaz, mais velho do que nós, surgiu em sentido contrário.
Assim que passou por nós, olhou para a Dila e sorriu com evidente familiaridade.
— Então, Odília!
Ela respondeu de imediato.
— Olá!
Parou um instante.
Trocaram duas ou três palavras rápidas.
Uma pergunta sobre a família.
Outra sobre a escola.
Nada de extraordinário.
Durou menos de um minuto.
Quando voltou para junto de nós, retomou naturalmente a conversa.
Mas eu já não a ouvia.
Era uma reacção absurda.
Sabia-o.
Não havia razão para me sentir incomodado.
Ela apenas cumprimentara alguém que conhecia.
Nada mais.
Mesmo assim, dentro de mim instalou-se um desconforto difícil de explicar.
Comecei a caminhar em silêncio.
Ela reparou quase imediatamente.
Olhou para mim de lado.
Esperou alguns minutos.
Depois perguntou baixinho:
— António...
Continuei a olhar em frente.
— Hum?
— Estás zangado?
— Não.
— Tens a certeza?
— Tenho.
Ela não insistiu logo.
Continuámos a andar.
A guarda-costas seguia alguns metros à frente, distraída com as montras.
Foi então que a Dila diminuiu ligeiramente o passo para caminhar exactamente ao meu lado.
— Fiz alguma coisa que te magoou?
Olhei finalmente para ela.
Nos seus olhos não havia defesa.
Havia apenas preocupação.
Foi isso que tornou tudo mais difícil.
Porque eu não sabia responder.
A verdade era que nem eu próprio compreendia o que sentia.
Baixei novamente os olhos.
— Não ligues.
Ela ficou calada.
Mais alguns passos.
— António...
O meu nome, dito daquela maneira, quase me fez desistir daquele orgulho sem sentido.
Quase.
Mas respondi apenas:
— Está tudo bem.
Ela suspirou muito devagar.
— Não está.
Continuámos a caminhar.
Já não havia conversa.
Nem brincadeiras.
Nem risos.
Apenas o som dos nossos passos sobre a calçada.
Nunca um percurso me parecera tão longo.
Quando chegámos ao liceu dela, despediu-se da amiga. Depois voltou-se para mim.
Parecia querer dizer qualquer coisa.
Esperou.
Talvez esperasse que fosse eu a falar primeiro.
Mas permaneci calado.
Ela limitou-se a murmurar:
— Até daqui a bocadinho.
Assenti apenas com a cabeça.
Uma hora mais tarde voltei para a acompanhar no regresso.
Durante esse tempo pensei dezenas de vezes em pedir-lhe desculpa.
Porquê?
Nem eu sabia.
Apenas sentia que a tinha magoado.
Quando a encontrei, ela sorriu.
Não com a espontaneidade habitual.
Era um sorriso cauteloso.
Como quem testa a temperatura da água antes de entrar.
Entrámos no trólei
Sentámo-nos lado a lado.
A viagem começou envolta num silêncio estranho.
Ela mantinha as mãos sobre os livros.
Eu fingia observar a paisagem.
Ao fim de alguns minutos, falou.
Muito baixinho.
— Ainda estás zangado?
Olhei pela janela antes de responder.
— Acho que não estava zangado contigo.
Ela esperou.
— Então com quem?
Sorri sem alegria.
— Comigo.
Ela ficou a pensar na resposta.
Depois disse qualquer coisa que nunca esqueci.
— Às vezes és muito complicado, António.
Ri-me pela primeira vez naquela tarde.
— Também acho.
Ela olhou para mim e, finalmente, sorriu de verdade.
Não resolvemos o assunto.
Nem voltámos a falar dele.
Mas, a partir desse instante, o silêncio deixou de pesar.
Quando o autocarro chegou a S. Pedro, levantámo-nos.
Já na rua, caminhámos lado a lado durante alguns metros.
Ao chegarmos ao cruzamento onde cada um seguia o seu caminho, ela parou.
— Amanhã também chegas cedo?
Olhei para ela, surpreendido.
— Como sempre.
Ela fez um pequeno aceno afirmativo.
— Ainda bem.
Sorriu.
Desta vez foi ela quem se afastou primeiro.
Fiquei a vê-la desaparecer ao fundo da rua, exactamente como em todos os outros dias.
Mas havia uma diferença.
Naquela tarde compreendi uma coisa que nunca tinha sentido antes.
O ciúme não nasce quando deixamos de confiar na outra pessoa.
Nasce quando descobrimos, pela primeira vez, o medo de a perder.
Passei apenas algum tempo pelo DIFI antes de regressar a casa. Escrevi uma carta, fui ao treino da Academia e terminei o dia diante da televisão. Fiz tudo o que costumava fazer às sextas-feiras.
Mas, por trás de cada gesto, havia uma única imagem que regressava continuamente.
A Dila a perguntar-me, com os olhos cheios de uma preocupação que não merecia:
— Fiz alguma coisa que te magoou?
Não.
Não tinha sido ela.
Era apenas o meu coração, ainda demasiado novo para compreender o nome daquilo que começava, silenciosamente, a sentir por ela.
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